Por Vinícius Fonseca*

A nossa língua é viva e ao longo dos séculos passou por uma série de transformações. Já citei aqui o quadro “Um minuto de linguagem”, do professor Reinaldo Zanardi, veiculado por ele em sua conta no instagram e que traz muitos conteúdos sensacionais sobre a forma como utilizamos certas palavras ou formas de expressão para nos comunicar, muitas delas aplicadas erroneamente e até mesmo de forma preconceituosa.

Bem, fato é que nos últimos anos nós vemos um movimento das minorias, incluindo nós pessoas com deficiência (PCDs), que visa abolir o uso de certas expressões, substituindo-as por formas mais adequadas. Uma dessas expressões é “cadeirante”, cujo termo mais apropriado passa a ser “pessoa em cadeira de rodas”.

Sei que essas alterações parecem bobas aos olhos de muitos de vocês, sei que é difícil abrir mão de certos hábitos e vícios linguísticos. Sei até que alguns de vocês pensam que tudo isso não passa de mimimi, como alguns ainda se atrevem a dizer, mas vamos a alguns aspectos importantes:

A cadeira não é parte da pessoa com deficiência/Foto: Stefano Intitoli/Unsplash

1.Cadeirante dá a sensação de que a pessoa nasceu com a cadeira enquanto, na verdade, ela está na cadeira porque a condição imposta pela deficiência dela a impede de abrir mão deste meio de locomoção. Ou você acha mesmo que alguém em cadeira de rodas não preferiria escolher entre a cadeira e poder andar?

2.A cadeira não é parte da pessoa. A cadeira existe e é utilizada para melhorar a qualidade de vida de seu usuário. Sendo assim, a cadeira (desculpe ser tão repetitivo), não é um membro do corpo da pessoa, mas um meio do qual ela se vale para ter mais independência.

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3.Vale lembrar ainda que, a depender do tipo de deficiência, o objeto não traz comodidade e conforto apenas ao seu usuário, mas também à família e seus cuidadores, uma vez que seria difícil carregar no colo para todos os lugares alguém com limitação de movimentos.

Se você chegou até aqui talvez esteja se perguntando; “Tá bom, Vinícius mas por que você resolveu falar sobre esse tema?

Eu acredito que uma mudança de comportamento, como, por exemplo, alterações na forma de falar só acontecem por meio do esforço coletivo. Recentemente a Madonna, que em breve estará no Brasil, confundiu uma fã em cadeira de rodas com uma pessoa sem deficiência e a questionou sobre estar sentada no show. Como se faltasse energia à moça.

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Bem, obviamente, Madonna não se atentou à condição da fã e cometeu um deslize, algo totalmente perdoável. A própria fã disse não ter ficado ofendida com a atitude da cantora, mas vejam só vocês o título da matéria que vai tratar o tema em um dos sites mais acessados do País: “Fã cadeirante de Madonna se manifesta após cantora cometer gafe e diz que não se sentiu ofendida”.

O título é enorme, então, não é por falta de espaço que não usaram pessoa em cadeira de rodas. Fora que há outras formas de se resolver, por exemplo: Fã confundida por Madonna… e depois explica que se trata de uma pessoa com deficiência.

Qual a razão por trás de ainda usar a expressão cadeirante? Talvez seja necessidade de clique. A palavra cadeirante, além de menor, soa mais impactante que “pessoa em cadeira de rodas”. Talvez- e essa, eu acredito, seja a justificativa mais próxima da realidade – seria: cadeirante todo mundo sabe o que é; pessoa em cadeira de rodas, não.

É aqui que entra a parte de mudança de comportamento. Como vamos mudar se não começarmos a reeducar nossa gente?

Eu já fiz matéria sobre pessoas com deficiência e fui cobrado por militantes sobre o uso de algumas expressões no passado. Eu sei que nenhum jornalista gosta de ser cobrado disso e também sei que muitos de nós tendem a justificar que não pode usar de forma repetida a mesma expressão em um texto só por ela parecer a mais correta. São justificativas, no entanto, mudanças exigem mais que justificativas, exigem coragem e vontade de mudar.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.