Por Beatriz Herkenhoff*
Amo dezembro! Mês do advento e da chegada do menino Jesus. Vida que traz esperança, harmonia, humildade, simplicidade, serviço e amor entre as nações.
Enquanto vivo o advento, canto com Alceu Valença: “A voz do anjo sussurrou no meu ouvido. Eu não duvido, já escuto os teus sinais.
Que tu virias numa manhã de domingo. Eu te anuncio nos sinos das catedrais. Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais. Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais” (Anunciação).
Estamos silenciando para ouvir esses sinais?
O Natal sempre foi vivido por mim como um tempo de alegria, gratidão, doação, fortalecimento da fé, partilha do afeto, vivências religiosas e com familiares e amigos.
Em minha adolescência, eu pertencia a um grupo de jovens, chamado CAC – Comunidade de Amizade Cristã. Coordenado por minha mãe Helida, entre as inúmeras atividades, no Natal participávamos de campanhas de solidariedade direcionadas aos Abrigos de Crianças e Adolescentes, Presídios e Casas de Repouso.
Ao visitar esses espaços as trocas eram intensas, aguçávamos nossa sensibilidade em relação àqueles que precisavam de amor. O significado do Natal se expandia e incluía os mais pobres e vulnerabilizados.
Compreendíamos que a alegria era diferente quando a celebração do nascimento de Jesus não se reduzia a quatro paredes.
Quando meu filho Stefano nasceu, valorizamos a comemoração do Natal com aqueles que pouco têm. Identificávamos famílias empobrecidas e fazíamos uma pequena ceia de Natal em suas casas. Momentos de muita alegria e emoção.
Gestos que ficam para sempre em nosso ser. Esse ritual durou anos e envolveu casais amigos e suas crianças.
Uma linda experiência que expandiu nossa capacidade de amar, de servir, de ser empáticos, generosos e acolhedores.
Papa Francisco nos convida a viver um Natal mais humilde, com presentes mais simples para que possamos partilhar o que temos com os que nada têm.
“O nascimento é sempre fonte de esperança, é vida que desabrocha, é promessa de futuro. E este Menino Jesus nasceu para nós, um nós sem fronteiras, sem privilégios, nem exclusões” (Papa Francisco).
No meu livro “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” relato a experiência de Elias, um grande amigo da Vale (CVRD). Ele e a esposa convidaram algumas pessoas em situação de rua para almoçar em sua casa no dia de Natal.
Elias afirma: “Ouvimos histórias comoventes, pessoas diziam que há anos não sabiam o que era um Natal.” Quando os convidados foram embora, o filho perguntou ao pai: “você tinha ideia do bem que faria para eles?” E Elias respondeu: “Tinha sim, só não imaginava o bem que eles fariam para mim.”
Eu fiquei muito emocionada com a partilha desse amigo. Ele saiu do comodismo e do isolamento familiar. Colocou-se no lugar do outro e mergulhou na história de cada um. Ninguém continuou sendo o mesmo após essa experiência.
Muitas vezes as festas do Natal são barulhentas, mas, torna-se necessário também o silêncio para que possamos ouvir a voz do amor.
Amar com desprendimento e compaixão é um desafio. Mas, só assim possibilitaremos que a vida seja plena para todos.
Jesus nasceu pobre, envolto em panos. Deus não cavalga na grandeza, mas, desce na pequenez.
Papa Francisco nos questiona: Sabemos acolher este caminho de Deus? “Deus faz-se pequeno diante do mundo e nós continuamos a procurar a grandeza segundo o mundo. Deus abaixa-se e nós queremos subir para o pedestal. Ele indica a humildade e nós queremos sobressair. Jesus nasce para servir e nós passamos anos atrás do sucesso. Deus não busca força e poder, pede ternura e pequenez interior.”
Nessa perspectiva, um casal amigo optou por passar um Natal diferente: “Há três anos, no dia 24 de dezembro, participamos de uma ceia com pessoas em situação de rua na praça do Papa (Vitória, ES).”
O evento foi organizado por um grupo de voluntários que sai de bicicleta durante a madrugada, quando entregam sopas para as pessoas em situação de rua.
Muitas famílias foram envolvidas na organização desse evento. Formaram subgrupos com diferentes tarefas, alguns ficaram encarregados da ceia, outros de arrecadar roupas e brinquedos. Conseguiram banheiro com chuveiro para que todos pudessem tomar banho. Quando os convidados chegavam, recebiam um kit higiene e podiam escolher roupas novas que estavam organizadas num espaço específico.
Minha amiga continua: “Esse foi o melhor natal da minha vida. Foi uma noite linda, a ceia estava farta e deliciosa. Sentamos numa mesa que incluiu todos. Fizemos uma oração em círculo, irmanados no amor.”
“Experimentamos o verdadeiro sentido do Natal. Se eu pudesse todo Natal eu passaria no meio dos pobres.”
“Fico pensando em tantos Natais em que ficamos em nossas casas, exageramos na quantidade de comida, nos presentes e não nos sensibilizamos com tantas crianças que não têm o mínimo necessário. Crianças, adultos e idosos abandonados, sem receber afeto e carinho.”
Ela conclui: “Para mim teve um sentido mais especial ainda porque eu estava ali com minha família, meu companheiro, minha mãe, minha irmã, irmão, cunhada e sobrinhos.”
Acolher a pequenez significa abraçar Jesus nos pequenos de hoje. Servi-Lo nos pobres.
Papa Francisco nos exorta a pedir a Jesus a graça da pequenez. “É na nossa existência ordinária que Ele quer realizar coisas extraordinárias. Jesus nos convida a valorizar e descobrir as pequenas coisas da vida. Se ele está conosco, o que nos falta? Então deixemos para trás o lamento por causa da grandeza que não temos. E Jesus nos diz na noite de Natal: Amo-te assim como és, a tua pequenez não me assusta, as tuas fragilidades não me preocupam. Fiz-me pequeno por ti. Para ser o teu Deus, tornei-me teu irmão… Não tenha medo de mim, mas, reencontra em mim a tua grandeza.”
No livro citado, escrevi uma crônica com o título “Até quando ficaremos indiferentes à fome no Brasil e no mundo? Relato a belíssima experiência da Campanha Paz e Pão realizada pela Arquidiocese de Vitória (ES) desde 2021.
Vou atualizar alguns dados sobre a Campanha Paz e Pão para que vocês se sintam comprometidos e animados para dar uma contribuição efetiva.
Até o mês de outubro de 2022 já foram distribuídas 50.033 cestas básicas, totalizando 720 mil quilos de alimentos, Também foram doados 2800 vales gás e 1336 cestas verdes recebidas dos movimentos de pequenos agricultores e centenas de cestas de hortifrutis doados diretamente às paróquias por assentamentos.
Essas distribuições são calculadas com base no número de famílias cadastradas em cada área Pastoral e no CadÚnico divulgado pelo Governo Federal.
Convido para que todos conheçam a Campanha Paz e Pão.
Gestos de amor que fazem a diferença.
A fome no mundo instiga-me e incomoda. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o nível de pobreza no Brasil bate recorde: cerca de 62,5 milhões de pessoas estavam na linha de pobreza em 2021, equivalente a 29,4% da população do país.
Por isso não podemos ficar indiferentes. O nosso Natal tem que ir ao encontro daqueles que passam fome.
Desde 2019 tenho participado de campanhas de solidariedade envolvendo diferentes grupos de pertencimento. Contribuímos com o Natal de crianças e familiares de vários bairros de Vitória, como: o Território do Bem, o morro da Piedade e Pessoas em Situação de Rua.
Cada um contribuindo dentro de suas possibilidades, fazemos a diferença na vida de centenas de famílias.
Como você está se preparando para viver o Natal?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
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