Por Beatriz Herkenhoff*

Amo o olhar das crianças!
Olhar curioso que quer captar toda beleza do mundo.
Olhar fixo e penetrante que questiona, dialoga, nos convida a ficar e interagir.
A criança não sente medo ao olhar para o mundo e para aqueles que a cercam.
É livre, leve e solta em seu jeito de olhar e observar.

Ao longo da vida, experiências negativas reprimem esse olhar puro e espontâneo.
Passamos a desviar o olhar, por vergonha, submissão ou por repressão.
O que o seu olhar revela e desvela?
Que tristezas e alegrias são guardadas e compartilhadas pelo olhar?
Que registros do passado e do presente?

Foto: Isaac Fontana/2021

 

Olhar altivo, orgulhoso, vaidoso, de superioridade e prepotência.
Olhar que condena, julga, agride, despreza e exclui.
Olhar que afasta e se fecha.
Olhar que se omite diante de fatos que deveriam ser denunciados.
Olhar sensível que expressa amor, compaixão e compromisso.
Olhar simples, desprendido e humilde.
Olhar que estabelece uma relação de igualdade e aprendizado.
Olhar que pede e oferece ajuda e cuidado.
Olhar que envolve e seduz, permite que o amor aconteça.
Olhar que inclui as crianças, os jovens, os adultos e os idosos num diálogo criativo e afetivo.
Olhar que cria laços, fortalece as amizades e a convivência familiar.
Olhar que capta a essência da vida. Que constrói memórias afetivas. Cria, inventa e reinventa a realidade.
Olhar que tudo diz, sem nada falar.
Olhar que se sensibiliza e solidariza.
Olhar que provoca um grito de horror diante das atrocidades da guerra, da violência urbana e da destruição do nosso planeta.
Olhar que contempla admira e registra a beleza do mundo. Acalma a alma e os corações.

Leia também: O corpo fala

Que impactos o meu olhar provoca no outro?
Como olho para o meu corpo? Como amo ou rejeito o meu corpo?
O que esse olhar tem a ver com a ditadura da beleza e da estética?

Amo fotografia, mas nunca me especializei nessa arte tão bela e potente.

Gosto de revelar as fotos e organizá-las em álbuns. Gosto de folhear os álbuns e recordar o vivido em diferentes fases da vida.

A foto capta momentos únicos de alegria, afeto e comemorações.
A fotografia registra o cotidiano da família, suas histórias, viagens, lugares significativos, pessoas que passaram por nossas vidas e outras que permaneceram.
Admiro os fotógrafos, sua sensibilidade e capacidade de revelar o que não é dito, captar a realidade de forma simples, despretensiosa e bela.

A cobertura jornalística registra momentos de conquistas, vitórias e solidariedade. Também gestos de desrespeito, autoritarismo, agressão e submissão. Anuncia e denuncia.
Desnuda a realidade em suas contradições.

Como o nosso olhar vai sendo deformado e direcionado para atitudes preconceituosas que matam a beleza do existir?

Excesso de imagens nas redes sociais ocupam nossa mente e muitas vezes nos adoecem.
Imagens que geram ansiedade, medo e insônia.
É preciso blindar o excesso. Parar para contemplar a natureza, resgatar nossa capacidade de amar e acreditar que a vida vale a pena.
Mudar a direção do olhar não significa negação. Mas, um processo seletivo para buscar um equilíbrio interior em relação a tudo que capto através do meu olhar.

Arnaldo Antunes através da canção “O Seu Olhar” nos convida a pensar sobre o poder do olhar:

O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar, seu olhar melhora
Melhora o meu
Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar, seu olhar melhora
Melhora o meu

O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar, seu olhar melhora
Melhora o meu …

Que questões você acrescentaria sobre o olhar?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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