Por Beatriz Herkenhoff*

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As palavres têm poder para edificar, construir, reconhecer, estimular, qualificar, educar, libertar, alegrar, afagar, acolher, colocar limites, valorizar ou para dividir, desqualificar, desvalorizar, desestimular e destruir.

Palavras curam e adoecem.

As palavras são materializadas lindamente nas músicas, na literatura, na poesia, na arte, no cinema, no teatro, entre outras formas de expressão.

Palavras transformam e fazem refletir.

Sempre estive atenta às minhas palavras, pergunto-me: são fonte de sabedoria? Expressam amor? Criam vínculos? Articulam, unem e reúnem? Abençoam? Ou disseminam a fofoca, a desconfiança, o desencontro, a mentira, a raiva e o desamor?

Como mãe…

Com a maternidade li muito sobre educação infantil e o poder da palavra sobre a vida e o futuro daquele pequeno ser em formação.  

Fomos condicionados a educar destacando os erros e as dificuldades da criança. Acreditamos que ela busca melhorar quando tem consciência das suas limitações.

Nessa perspectiva, quando a criança tira uma nota 9, os pais afirmam que poderia ter tirado 10. Se arrumam o seu quarto e guardam 80% dos brinquedos, os pais não reconhecem o esforço e destacam os 20% dos brinquedos que ainda estão espalhados.

Atitudes que geram sentimentos e pensamentos negativos, como: “por mais que eu me esforce, nunca serei reconhecido pelos meus pais”; “para agradar e ser reconhecido tenho que ser perfeito”.

As palavras também têm poder quando os pais afirmam: “você não será nada na vida”, “você não irá vencer”, “nada do que você faz dá certo”, “com esta roupa você está parecendo uma prostituta”, “você é um desastrado”, “você é um fracassado”.

Palavras que amaldiçoam ao invés de abençoar. Palavras que paralisam ao invés de apostar no potencial da criança.

Se o filho não é bom em matemática, ele é bom em história, se não é bom em letras é bom na arte, no esporte ou na música.

Todos nós temos qualidades e potencialidades para encontrar um caminho de realização e fazer a diferença neste mundo com os dons que recebemos.

As palavras contribuem para que aquele ser que está crescendo e depende do reconhecimento dos pais dê esse salto qualitativo ou não.

Muitas vezes os pais agridem ao invés de usar as palavras com serenidade e assertividade.

Nas relações amorosas…

E o que falar da palavra nas relações amorosas? Usamos palavras de sedução, de reconhecimento e valorização do outro, expressamos amor com doçura e bem querer. Mas, tem situações em que desmerecemos e humilhamos aqueles que amamos. Momentos em que as palavras desestruturam e desqualificam, geram depressão, desamor e baixa autoestima. 

E quando o amor acaba ou as diferenças são tão grandes que não dá mais para continuar juntos? Às vezes temos dificuldade de dialogar e expressar sentimentos. Saímos da relação com um simples adeus, quando isto acontece, deixamos o outro elaborar sozinho o luto pela perda.

Aprendi em terapia que preciso usar a palavra para despedir. Tarefa nada fácil, mas a despedida é uma excelente oportunidade para exercitar a gratidão, falar do significado da pessoa em nossa vida, como crescemos e aprendemos naquela relação.

Palavras de reconhecimento e gratidão deixam um rastro de luz e a possibilidade de cada um seguir em frente com confiança. Reafirmam a capacidade de amar e encontrar um novo amor.

Como educadora…

Quando eu me tornei professora, tinha plena consciência do poder das minhas palavras em sala de aula.  Como trabalhava na formação de assistentes sociais, estava atenta para palavras que educavam para o compromisso com uma sociedade mais humana, justa e igualitária.

Estava atenta também para o poder dialógico da palavra. Valorizava a palavra dos estudantes, sua trajetória de vida, suas histórias e lutas ao ter que trabalhar para se sustentar, entre tantos desafios.

Além de partilhar conteúdos teóricos e metodológicos, simultaneamente eu me perguntava: como poderia contribuir para a autoestima dos estudantes? Como transmitir a força do afeto, da esperança e do amor por meio de minhas palavras? Como despertar os estudantes para o compromisso com os mais pobres e vulneráveis? Como contribuir com políticas públicas que garantissem a inclusão social, uma educação e saúde de qualidade?

Se as palavras expressam reconhecimento e valorização do outro, serão reproduzidas no ambiente de trabalho e na forma como o profissional age nos diferentes lugares onde atua.

As redes sociais…

Com o avanço tecnológico, a comunicação intensificou-se nas redes sociais, muitos deixam de lado a conversa presencial e passam a dialogar em whatsapps.

Canais que geram, muitas vezes, desencontros, pois, a palavra escrita nem sempre é compreendida e pode magoar e afastar aqueles que amamos.

Em muitos casos, a palavra torna-se silêncio, fechamento, isolamento, angústia e frustração. Perde o poder de transformação e interação.

Conversando com minha terapeuta Celeste Faria sobre esta crônica, ela acrescentou: “A palavra e a liberdade de expressão vivificam o sujeito, já o seu contrário, o silêncio é a morte do sujeito. E isso acontece pelo impedimento da circulação da palavra, como ocorre nos regimes de governos totalitários, quando a palavra é calada.”

Se a palavra vivifica, seu impedimento mata.

Como estamos usando a palavra? O que estamos fazendo para que ela circule livremente e garanta a verdade dos fatos? Como estamos cuidando do outro para que a palavra gere vida e esperança? Como estamos enfraquecendo o preconceito e a discriminação através de nossa palavra? Como estamos cuidando das formas de comunicação para que a palavra não seja deturpada por mentiras e fake News? Como estamos trabalhando as diferenças e a aceitação de pontos de vistas diferentes? Como estamos usando a palavra para despedir de pessoas que foram significativas em nossas vidas?

Desejo que a última palavra seja sempre de gratidão! Gratidão pela vida, pelo amor, pela intensidade do encontro, pela solidariedade, pelo prazer e alegria, pela sabedoria. Gratidão pela luta por um mundo mais justo, democrático, fraterno e igualitário.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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