Por: Vinícius Fonseca*
No último domingo, 10 de agosto, foi celebrado o “Dia dos Pais”. Para muitos, é o dia de celebrar aquele que é o primeiro homem das nossas vidas. O cara que é o espelho do que queremos — ou não queremos — ser. O primeiro herói das nossas vidas.
Essa, porém, não é a realidade de muitas crianças. As taxas de abandono de crianças por parte dos homens, sobretudo no Brasil, são altíssimas. Segundo a Associação Brasileira de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), em 2024, mais de 91 mil crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai na certidão de nascimento.
E, pasmem, o número está em queda em comparação com os últimos anos, de acordo com a entidade. Conforme os dados apresentados pela instituição, desde 2016, mais de 1,2 milhão de crianças foram registradas sem a identificação paterna.
Um dado que, por si só, já seria triste, mas, quando falamos de pessoas com deficiência, os números podem ser ainda mais chocantes. Segundo material apresentado no perfil do influenciador e ativista da causa das Pessoas com Deficiência (PcDs), Ivan Baron, 78% dos pais de PcDs deixam suas famílias ao descobrirem o diagnóstico de seus filhos.
Bem, no meu caso foi diferente. Eu tive a sorte de ser parte dos 22% que têm pais que ficam e encaram os “problemas” advindos da deficiência junto com suas famílias.
Olhando apenas com os olhos do que seria o certo a fazer, a escolha da permanência não deveria ser exaltada, pois era o mais correto mesmo. No entanto, o mundo real parece não se importar muito com o que é certo e o que é errado.
Não, meu pai não é perfeito. Até acho que ele se afundou no trabalho e deixou para minha mãe a parte mais difícil, que era acompanhar as fisioterapias e os médicos. Não que ele não fizesse isso às vezes, mas são poucas as minhas lembranças dele ali — exceto para grandes eventos, como cirurgias, por exemplo.
Esse texto, porém, não é de cobrança. Pelo contrário, é um texto de exaltação: exaltação pelo fato de que qualquer outro pai poderia fugir — e tudo bem —, mas ele escolheu ficar, mesmo diante de qualquer frustração que poderia ter.
Os impactos que isso teve em mim? Os melhores possíveis. Tenho consciência de que voei voos muito mais distantes do que a maior parte das pessoas com deficiência costuma voar, e uma das coisas que possibilitou isso foi a boa base familiar que eu tive. Uma base com um pai presente.
Se você é pai de um PcD e escolheu ficar, parabéns: você fez a melhor escolha que um homem pode fazer. Se você é um futuro papai e acabou de saber que seu filho ou filha terá deficiência, não desanime. Como toda criança, ele ou ela lhe trará alegria, frustrações e várias histórias para contar. Se você é pai de um PcD e acabou “fugindo”, reconsidere: você pode estar perdendo coisas incríveis.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos, com especializações nas áreas de comunicação, gestão de pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesias, além de entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com Deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente — ou quase…
