Ana Lúcia Yvoty-Guarani *

(Publicada em 8 de junho de 2023)

Sou Ana Lúcia, sou mãe, pertenço ao povo Guarani e estou no curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Hoje, mais uma vez, venho falar de uma denúncia escandalosa. O ataque brutal que sofre o povo Ava-Guarani, na região Oeste do Paraná.

Desde a criação da Organização Nacional de Garantia ao Direito de Propriedade (Ongdip), em 2013, uma campanha anti-indígena tem sido desenvolvida na internet estimulando a segregação e a violência. A partir disso, as lideranças indígenas vêm sofrendo ameaças direta e indiretamente.

Em diversas situações os não indígenas chegam a mostrar armas de fogo para intimidar lideranças Avá-Guarani (Sousa, 2019). A hostilidade mais comum é por meio de carros, principalmente na beira da rua, estrada, sobretudo na redondeza das aldeias.

Conforme o Relatório Sobre Violações de Direitos Humanos Contra os Avá-Guarani do Oeste do Paraná (CGY, 2018), ocorreram dois casos de violência extremamente grave contra os Avá-Guarani em 2013. Um deles, no dia 2 de agosto de 2013, refere-se ao sequestro e abuso sexual cometido contra uma jovem indígena moradora da aldeia Tekoha Marangatu, de 17 anos, que trabalhava como secretária estagiária na CTL da Funai, em Guaíra. E outro foi o assassinato de Bernardino Ortega, morador da aldeia Tekoha Porã, morto ao voltar de um jogo de futebol realizado em uma outra comunidade, em Guaíra.

Essa perseguição e incitação de ódio contra os Ava-Guarani tem trazido adoecimento psíquico aos jovens. Sem perspectivas, isolados, maltratados e sentindo-se indesejados, muitos acabaram se suicidando.

Conforme Palagano (2018), desde 2013 ocorreram, pelo menos, dez casos de suicídio de adolescentes e jovens guarani em Guaíra e Terra Roxa, na região Oeste do Paraná.  Já os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), mostram que, de janeiro a junho de 2021, houve 18 tentativas de suicídio e 11 óbitos naquela região, a maioria de jovens com menos de 20 anos. Além dos suicídios e das tentativas de suicídio, estão ocorrendo casos de automutilação entre os jovens das escolas (Bem Paraná, 2022).

Para Masuzaki (2015), “a perda de territórios e de área para plantio, racismo, pobreza a falta de assistência social na área de saúde e educação contribui para adoecimento psicológico, consequentemente para o suicídio”.

Tenho procurado compreender, como psicóloga em formação, como a projeção de imagens de marginalização e preconceito estão articuladas com o sofrimento psíquico dos jovens Ava-Guarani, principalmente pela vulnerabilidade em que se encontram os guaranis e a presença constante do ódio, racismo e preconceito.

A Ongdip utiliza seu perfil nas redes sociais para provocar e auxiliar grupos armados a agirem contra as retomadas indígenas em Guaíra e Terra Roxa.  Para alcançar esse objetivo, divulga imagens do que denominam de “invasões Indígenas”, ataca a Funai, apoiadores da causa indígena, como também universidades que realizam ações juntamente com os indígenas.

Esse padrão de atuação pode ser observado pelas postagens da Ongdip nas redes sociais, as quais contribuem para a marginalização e a prática racista contra os Avá-Guarani na região.
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No dia 13 de abril de 2013, foi publicada na página da Ongdip uma foto com o emblema do grupo e do lado uma foto de uma mão pintada com a bandeira do Brasil na qual estava escrito a palavra “progresso” e a frase “CPI da Funai Já”.

A CPI Funai Incra foi criada em 11 de novembro de 2015 com intuito de beneficiar os interesses da bancada ruralista, pois essa comissão pretendia “desvalidar direitos de comunidades etnicamente diferentes pela Constituição Federal de 1988, criminalizando movimentos sociais e profissionais que atuam no cumprimento de sua profissão”.

O grupo de Ongdip realiza movimentos junto a agricultores da região e de outros estados brasileiros. A organização desse grupo coincide com a criação da frente parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional, que é um movimento contrário à demarcação de terras indígenas no Brasil.

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A imagem com a frase “O Brasil acaba com a Funai ou a Funai acaba com o Brasil” foi colocada sobre a mesa em uma reunião de ruralistas na cidade de Marechal Candido Rondon, a 70 quilômetros de Guaíra. O encontro ocorreu dia 13 de março, quando os agricultores de várias regiões, estados e políticos discutiram a demarcação de terras.  Essa imagem foi compartilhada na página de Ongdip no dia 12 de abril de 2013.

A frase acusa diretamente a Funai e incita ataques aos seus funcionários, pois dá a entender que a Funai tomaria posse de todas as terras para devolvê-las aos indígenas. As lutas indígenas foram distorcidas a partir dos interesses ruralistas, para gerar revolta das populações não indígenas e, consequentemente, contribuir para que as pessoas da região atacassem os Ava-Guarani.

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Em 30 de junho de 2017, a página de Ongdip publicou essa imagem com a legenda: “No último dia 22 e 23 de junho, aconteceu em Guaíra um encontro bem interessante, diversos professores da Universidade Estadual de Maringá, e de outros de Cascavel, como também o já bem conhecido Paulo Porto, vereador em Cascavel pelo PCdB. Interessante o evento foi em uma área de Itaipu, invadida desde 2006. A Ongdip não se cansa de repetir que não temos aldeias e nem índios, temos áreas invadidas e invasores”.

A partir dessas publicações, os fazendeiros tentam amedrontar os apoiadores de lutas indígenas e assim deixar mais vulneráveis as condições de luta dos Ava-Guarani. A Ongdip nomeia a área como “invadida” para criminalizar a nossa retomada de terras ancestrais diante da população da cidade.

Ao dizer que não tem aldeias e nem índios, mas sim áreas invadidas e invasores, estão negando a existência, a história e a identidade indígena, construindo narrativas mentirosas que contribuem para a miséria, a fome, a pobreza e adoecimento psicológico como também para o preconceito em relação à nossa presença na região. 

O site indicado na legenda é compartilhado somente com funcionários da Secretaria da Educação de Guaíra, portanto não foi possível acessá-lo.

As organizações para atacar as retomadas indígenas estão atreladas a ruralistas, mas também às estruturas políticas do município.

O vereador citado pela Ongdip, Paulo Porto, apoia a nossa luta na região, pela demarcação de terras, educação, criando projetos juntamente como professores da universidade para trabalhar com as comunidades indígenas que estão abandonadas pelas políticas públicas e marginalizadas pela sociedade não indígena na região.

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A negação da existência dos Ava-Guarani na região, juntamente aos processos de etnocídio, contribuem para dificuldade de elaboração de políticas públicas desde a saúde, educação e condições de vida. Palavras como “invasores” e “terrorismo” colocam indígenas como agressores, violentos, quando, na verdade, o nosso único objetivo é ter um espaço para morar e direito a saúde, educação que estão garantidos na Constituição de 1988. 

A nossa luta nessa região não é somente por território, mas, também, contra preconceitos, racismo que foram promovidos a partir das campanhas anti-indígenas por esses grupos políticos.

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Essa imagem publicada no Instagram da Ongdip mobiliza e incita os grupos, tanto de agricultores como também as populações, a agirem contra as retomadas e demarcação em Guaíra e Terra Roxa.  Colocando medo nas pessoas para que haja repressão contra a nossa presença, como também estimulam as populações, que já são preconceituosas e racistas, a praticarem ações racistas contra os Ava-Guarani, principalmente com as crianças e jovens em ambiente escolar.

Postagens como essa nas redes sociais em Guaíra e Terra Roxa levaram o Ministério Público Federal a instaurar inquéritos policiais para apurar eventuais crimes de racismo. A partir disso, algumas pessoas foram denunciadas e condenadas.

Após a decisão do Ministério Público, a Ongdip foi obrigada a excluir diversas postagens que incitam ódio e preconceito contra os Avá-Guarani.  Atualmente, a página no Facebook e no Instagram estão ativas, continuam publicando conteúdo relacionado à demarcação e retomadas de terras indígenas, sejam regionais, estaduais ou nacionalmente. No entanto, após a intervenção do MP, as páginas fixaram um aviso de que as opiniões da Ongdip não devem ser interpretadas como discriminação ou preconceito étnico contra os indígenas, alertando que os comentários de seus seguidores não seriam de sua responsabilidade. Como mostra a imagem seguinte.

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Essa comunicação exposta na página foi exigência do Ministério Público Federal para que páginas continuassem ativas. Contudo as páginas continuam publicando conteúdo que gera preconceito e ódio contra Ava Guarani na região até os dias atuais.

Essa é uma denúncia escandalosa. Com essa participação neste espaço, busco apresentar nossa história e denunciar como a comunicação do ódio impacta na vida dos jovens Avá-Guarani, levando-os a atitudes extremas devido ao sofrimento psíquico.

*Ana Lúcia Yvoty-Guarani é estudante de Psicologia na UEL

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