Pistola e carregador entregues pela PM como sendo de Willian Nascimento, morto pela PM em Ponta Grossa, são incompatíveis, diz laudo
Nelson Bortolin
Foto: Willian e a família/Arquivo pessoal
Willian Lucas Souza Nascimento foi morto aos 25 anos em um suposto confronto policial no dia 17 de abril de 2021, em Ponta Grossa (PR). As versões do Boletim de Ocorrência contrastam com o que foi levantado pelo pai do jovem, o mestre de obra Claudmir Ferreira do Nascimento, e por peritos contratados por ele.
A arma que teria sido usada por Willian para atirar contra a equipe da PM era uma pistola Glock 17o GEN 4, calibre 9 mm. Já o calibre do carregador era .40 S&W. “Logo que eu tive as informações, eu questionei o Ministério Público sobre essa incompatibilidade das armas”, conta o pai.
A história de Cladmir na busca por provar a inocência do filho é uma das retratadas na série Incansáveis, publicada pela Rede Lume esta semana.
A Justiça determinou que um perito oficial fosse consultado para sanar a dúvida apresentada pela família. Afinal, a pistola é compatível com o carregador? Em resposta ao juiz, a perita escreveu: “Não é possível informar de forma geral se, em condições normais, uma pistola calibre 9mm poderia realizar disparos estando a ela acoplada um carregador feito para pistolas de calibre .40 S&W, uma vez que existem marcas e modelos com padrões diferentes…”

No entanto, no caso específico, ela garantiu que testou o conjunto enviado a ela pela Polícia e que a arma teve “funcionamento normal”.
O pai do jovem morto não confiou no laudo e reclamou novamente ao MP. “Me disseram então que eu contratasse um perito particular”, conta. Ele não teve dúvida e recorreu aos serviços de um escritório especializado no Espírito Santo.
O novo laudo ao qual a reportagem teve acesso é taxativo: “Os dados dimensionais mostram que o carregador .40 S&W é ligeiramente maior em todas as dimensões. Embora pareça similar em forma, o carregador de calibre .40 S&W é projetado para acomodar munições com diâmetro e comprimento maiores, resultando em diferença significativas no funcionamento e na compatibilidade.”
Nascimento diz estar cansado, mas não vai desistir. “Eu fiquei um tempo sem poder trabalhar, minha esposa vive em tratamento. Então, me sinto muito traído pelas autoridades que não me dão uma resposta.”
O inquérito civil aberto para investigar o caso caminha a passos lentos mais de três anos após a morte.
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História confusa
O Boletim de Ocorrência registrado pelos PMs na Polícia Civil no dia da morte do jovem relata uma história confusa. Policiais da Rone teriam recebido pedido de apoio para encontrar um veículo Celta que havia se evadido de uma blitz. O carro foi achado em frente ao “Bar do Leandrinho”, na Vila Francelina, com uma munição no seu interior.
Os frequentadores desse bar teriam se insurgido contra os policiais. A equipe da PM acabou revistando todos os cerca de 30 frequentadores que, segundo o BO, estavam embriagados.
Um dos homens do bar teria chamado um soldado de lado e denunciado que o dono do Celta, Wilian Rodrigues Costa Ferreira, possuía uma arma em sua residência. Ao ser questionado pela PM, Ferreira teria admitido ter a arma para sua defesa pessoal e convidado os policiais a irem até a casa dele conferir.
No caminho, ao passarem em frente a um determinado imóvel, Ferreira teria contado aos PMs que ali funcionava uma “biqueira”. Os policiais resolveram então parar para verificar. E ouviram barulho de “mato quebrando”, “como se alguém fugisse nos terrenos vizinhos”. Depois, teriam escutado estampidos semelhantes a disparo de armas de fogo.
Todos os policiais, segundo o BO, passaram então a procurar os autores dos tiros. Um dos PMs subiu num muro e avistou um “indivíduo” correndo com arma em punho e disparando. Para contê-lo, atirou em sua direção “não sendo possível saber” se o homem foi atingido ou não.
A perseguição continuou. Outro agressor teria sido avistado em cima de um muro, empunhando arma em direção à polícia. A PM alega que deu voz de abordagem e mandou o homem largar a arma, pedido que teria sido ignorado. Pelo contrário, o homem teria atirado contra os policiais, que revidaram e o levaram ao chão do outro lado do muro.
O homem, segundo relato do BO, era Willian Lucas Souza Nascimento. Junto do corpo, a PM alega ter encontrado a pistola. Os PMs alegam ter retirado a arma do local porque o rapaz ainda apresentava sinais vitais, morrendo na sequência.
Pai acredita em execução
A versão do pai é bem diferente. Segundo ele, William Nascimento estava no “Bar do Leandrinho” e filmou a abordagem violenta dos PMs. E esse fato teria deixado os policiais irritados. Para ele, o filho foi pego fora do bar, executado, e levado para o local onde a cena de um falso confronto teria sido forjada.
O jovem não tinha passagem pela polícia e trabalhava com carteira assinada. O pai nunca soube de algum envolvimento dele com atividade ilegal. Esse fato, além da diferença entre a pistola e o carregador, fazem o mestre de obras acreditar na inocência do filho.
Mas não é só isso. Ele acha estranho o fato de o cadáver não apresentar ferimentos nas mãos assim como os calçados do rapaz não terem sido perfurados. É que o muro, sobre o qual a PM diz ter atirado nele, é cravejado de pregos. Tanto é que as fotos feitas pela Polícia Científica mostram o corpo do jovem pendurado, preso pela camiseta que ficou enroscada em um desses pregos.
Um dos PMs da Rone envolvidos na morte de Willian, segundo o pai, está afastado das funções em virtude de investigações de outro caso.
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