Por Beatriz Herkenhoff e Carlos Monteiro*

Fotos: Carlos Monteiro

Amo mostrar a beleza do Espírito Santo, seus recantos e encantos. Sempre que recebo visitas, a passagem pelo Galpão da Associação das Paneleiras de Goiabeiras (APG) é imperdível.

Já levei amigos e familiares de várias partes do mundo e do Brasil: Suíça, Itália, Argentina, Estados Unidos, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo…

Todos ficam impactados com a originalidade e beleza contidas naquele lugar.

Sou apaixonada pelas histórias contadas pelas paneleiras. Já ouvi mais de 30 vezes, mas a magia do lugar inclui suas vivências carregadas de suor, lágrimas, lutas, alegrias, realizações e conservação de uma tradição.

Muito amor envolvido, dedicação, disciplina, união, cooperação, cumplicidade, solidariedade, conquistas e superações.

Elas vibram quando falam de suas experiências. Os olhos ficam iluminados, a voz transmite confiança, garra e entusiasmo. Não existe tempo ruim.  É como se recitassem um poema de amor à vida e à natureza. Falam com maestria sobre o significado de um trabalho que preserva a cultura capixaba.

A associação, fundada em 1987, conta com mais de 60 membros. O galpão foi construído pela Prefeitura Municipal de Vitória no início dos anos 1990 com o objetivo de garantir melhores condições de trabalho e a comercialização dos produtos.

Localizado em Goiabeiras Velha, bairro periférico de  Vitória, fica à beira de um canal que banha o manguezal e contorna a ilha da capital do Espírito Santo.

Fazer as panelas de barro forma a identidade cultural de um grupo social que reside neste bairro. Acrescentaria que além desse atributo, a população local realiza o manejo sustentável do mangue, incluindo atividades de limpeza dele, cuidado com a flora e as espécies de animais que ali habitam.

Ao chegar ao galpão, a vista do mangue é deslumbrante. Caranguejos, pássaros, beija-flores, saguis nos brindam com sua beleza, exuberância e liberdade.

Quando estou ali faço uma viagem turística, cultural e ambiental. Para captar cada detalhe é preciso estar com todos os sentidos em alerta. Viver a experiência cinestésica do sentir, tocar, cheirar, observar, aprender com a sabedoria ancestral das artesãs e dos artesãos.

A tradição das panelas de barro é um legado cultural Tupi-Guarani, Aratu e Una. Teve início há mais 400 anos e foi passada de geração em geração até os dias de hoje.

Esta atividade é um meio de vida para mais de 120 famílias. Apesar de ser tradicionalmente feminina, cresce cada vez mais a participação de artesãos ceramistas. São muitos os paneleiros que aprenderam a arte acompanhando suas mães.

O ofício envolve trabalhadores distintos: os escolhedores do barro, as paneleiras, as alisadoras de panelas e os coletores de tanino.

O barro é “colhido” no Vale do Mulembá. O seu manejo precisa ser cuidadoso e equilibrado, pois ele pode acabar em poucas décadas se isso não acontecer.

No galpão há um espaço para armazenamento da argila. O barro é amassado com os pés descalços, pois é preciso fazer a limpeza e deixá-lo liso e macio.

As panelas são modeladas à mão pelas artesãs e artesãos, utilizam uma cuia para dar o acabamento.

É lindo observar a habilidade, a harmonia, o envolvimento do corpo que, silenciosamente, dá forma às panelas. O diálogo entre as mãos e os olhos. A inteireza e unidade entre o corpo, a mente e o espírito, que preservam a tradição indígena.

Ao fim desse processo, as panelas são colocadas para secar ao sol. Entram em cena as alisadoras das panelas. Espalhadas ao redor do galpão, conversam animadamente enquanto aplainam as peças com um seixo rolado que dá brilho ao exemplar e a prepara para a queima. Esse trabalho tem que ser executado com perfeição, pois uma bolha de ar significará o risco de rachaduras.

A queima é realizada a céu aberto. Caminhões chegam trazendo sobras de construções cedidas pela prefeitura. As madeiras, depositadas próximas ao lugar da queima, são provenientes de fontes renováveis.

As artesãs e artesãos, que transformam o barro em panelas, fazem o processo de queima.

No entanto, devido à idade avançada, muitas não dão conta de um trabalho tão árduo com o sol queimando suas cabeças e o fogo ardendo em suas mãos e corpos. Por isso, pessoas mais jovens da família assumem essa tarefa ou terceiros são remunerados para realizar esse processo.

Recentemente, o fotógrafo Carlos Monteiro veio ao Espírito Santo com o objetivo de ilustrar, com suas fotos, o meu próximo livro Legados: crônicas sobre a vida em qualquer tempo.

A experiência com Carlos nas paneleiras foi muito forte. Ele conversou com Evanilda Fernandes Correa, uma das paneleiras mais antigas, solicitando autorização para fotografá-la. Ela permitiu e foram momentos muito emocionantes de interação entre os dois.

Carlos, no meio do fogo, numa temperatura que chega à casa dos 600ºC, clicou imagens belíssimas. Monteiro nos deu esse depoimento em relação à sua experiência:

“Aquele olhar de sabedoria penetrante, rosto engelhado, sorriso largo, escancarado e encantador: Evanilda traz no semblante a força da mulher, nas mãos rápidas, ágeis e calejadas a arte de ‘trabalhar’ o tanino, como ela descreve: ‘O sangue do mangue’, obtido do mangue-vermelho, colhido dessa árvore ali mesmo naquele manguezal, que de tão perto, na maré-cheia vem ‘lamber’ seus pés como numa reverência da Mãe D’água.  Fica contíguo ao seu ateliê e às fogueiras que acende diariamente, assim uma deusa das cores e do fogo, para a queima do barro colorindo-o de ébano.

Fiquei encantado com a intensidade de sua delicadeza, pelas expressões e enquadramentos que proporcionava em simbiose perfeita com minhas objetivas, na tamanha doçura empregada em seus movimentos intensos e certeiros, com a agilidade que impunha a pintura garantindo efeitos sem igual às imagens; ora junto ao lumaréu, ora junto aos fumos, ora na luminescência, ora como colorista. Sua imagem, refletida no espelho da câmera, dialogava incrivelmente com a estética que eu buscava para aquele ensaio. Ela, com habilidade, descortinava seu ofício, aprendido com suas antepassadas, para lentes maravilhadas ‘mergulhadas’ em imensa belezura. Foi mágico!”

Num momento de recuo, conversamos sobre a habilidade, energia, força, destreza e precisão de movimentos presentes nas paneleiras.

À medida em que as panelas são queimadas, são retiradas do fogo com vara e dois ganchos na ponta. Um processo rápido e dinâmico que exige atenção, saúde e disposição.

Após a queima, elas são tingidas e impermeabilizadas com tanino do mangue-vermelho. É feita uma tintura com sua casca — 30 litros de casca para 40 litros de água — sendo aplicado sobre a peça ainda em brasa com uma vassourinha de muxinga — planta rasteira nativa.

Essa é a grande diferença em comparação a outras panelas de barro confeccionadas fora daqui.

Para a realização desta etapa entra em cena o casqueiro — coletor. Ele adentra ao manguezal com sua canoa para a coleta do mangue-vermelho.

Panela de barro é que faz comida boa

Nós temos uma tradição gastronômica que é a moqueca e a torta capixaba. Todos os turistas que vêm ao Espírito Santo querem experimentar e saborear essas especiarias e preciosidades.

A frase do jornalista Cacau Monjardim**: “Moqueca só capixaba, o resto é peixada” virou um jargão que valoriza o potencial da nossa culinária.

Todos os restaurantes do Espírito Santo cozinham e servem os peixes e mariscos nas panelas de barro. E esse é um diferencial que marca a cozinha local.

As panelas são referência por sua qualidade, resistência, eficiência de cozimento e manutenção do calor. As moquecas chegam à mesa borbulhando e o calor é conservado durante o consumo.

*Em 2002 o ofício das paneleiras de goiabeiras foi reconhecido como Patrimônio Imaterial pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

**Nota de Carlos Monteiro: após conclusão da crônica recebi a notícia do falecimento do jornalista Cacau Monjardim, autor da frase “Moqueca é capixaba, o resto é peixada.” aos 93 anos, na última terça-feira, 18

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