Por Vinícius Fonseca*

Foto em destaque: Andrea Piacquadio/Pexels

Não é de hoje que está na moda dizer que se você mostrar esforço e dedicação alcançará os melhores resultados, a sonhada promoção, um salário de respeito, uma vida de conforto. Enfim, os defensores dessa corrente empilham benefícios e atrelam isso apenas a dedicação do indivíduo.

Por atuar em ambiente organizacional, me vejo obrigado a fazer parte de redes sociais direcionadas ao mercado de trabalho. Ali, esse discurso da meritocracia não demora em aparecer. É extremamente popular, parece até propaganda de pasta dental, nove entre dez posts…

Recentemente, um post profissional, que nada tinha com a meritocracia em si, me chamou a atenção. Isso se deu em razão de um comentário que orientava o pessoal a parar de falar tanto de política e de reclamar das coisas porque para alcançar as coisas na vida basta que a pessoa se esforce. Olha a bendita meritocracia aí!

Os meus dedos começaram a coçar, não consegui ficar sem teclar ante o que se apresentava. Expliquei para a pessoa uma coisa que parece óbvia aos olhos humanos, mas que no mercado de trabalho parece passar por alto: meritocracia é o suco da mais pura ilusão que alguém pode ter!

Se você estuda e vai trabalhar em uma empresa familiar, fica ali por anos, se dedica e entrega bons resultados, almeja e cresce junto com a empresa, acha que o filho do dono vai começar em um cargo inferior ao seu só porque ele começou uma faculdade? Pode até acontecer, mas é exceção. Para ser um discurso vigente, meritocracia não deveria ser exceção.

Acha esse exemplo muito básico? Quase um princípio de discurso de quem é contrário à ideia do crescimento por mérito? E se eu te disser que a distância entre uma pessoa e o sonho da meritocracia pode aumentar a depender das condições desse indivíduo.

Foi o que tentei mostrar para a pessoa do comentário do post. Usei-me como exemplo, duas graduações, duas pós-graduações, com uma terceira especialização em curso e muitos planos para o futuro, por vezes me vi tendo que me sujeitar a vagas fora do escopo das minhas formações e com salários bem inferiores aos pagos para pessoas sem deficiência.

Expliquei pra ele, o ser humano do post, que só o esforço não adianta. Se você faz parte de uma minoria, no meu caso a maior entre as minorias, você precisa se esforçar muito mais!

Em tempo, o presente texto não pretende se apegar ao “coitadismo” para dizer que a meritocracia não existe e se existe é menos aplicável às pessoas com deficiência do que às demais. Só que reconhecer a existência de inimigos e como eles agem é o primeiro passo para vencê-los.

O discurso da meritocracia pura e simples é inimigo da verdade no que tange ao mercado de trabalho. Ou passamos a reconhecer isso e pensamos em maneiras de aplica-la como realmente deveria ser ou reconhecemos a incapacidade de sua existência e pensamos em outras formas mais justas de os trabalhadores alcançarem os seus sonhos profissionais.

* Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.

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