Marco Aurélio Onishi foi condenado a 11 anos e seis meses pela execução de Jadson José de Oliveira, de 17 anos, em Sarandi (PR)
Nelson Bortolin
Depois de dois dias de julgamento no Tribunal de Júri de Sarandi (região metropolitana de Maringá), o policial militar Marco Aurélio Onishi, 44 anos, foi condenado a 11 anos e 6 meses de prisão no início da noite desta quarta-feira. A pena deve ser cumprida em regime fechado. A condenação é pela morte do adolescente Jadson José de Oliveira, de apenas 16 anos, ocorrida no dia 10 de agosto de 2016 naquela cidade.

Já Jonatan Vinícius Goulart, 38 anos, que fazia dupla com Onishi na abordagem que resultou na execução de Jadson, foi inocentado. Ele respondia por ocultação de cadáver. Expulsos pela PM, ambos haviam sido denunciados em Inquérito Militar.
Edna Aparecida da Silva Pedro, mãe de Jadson, comemorou o resultado do julgamento, mas lembrou que a justiça precisa se estender a outras famílias. No vídeo, ela mostra os rostos de jovens mortos pela polícia na região. Os retratos foram afixados em frente ao Tribunal do Júri pelo Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto.
Sthefany Oliveira, irmã de Jadson, diz que a sentença é um alívio e chega na véspera da morte do irmão completar 7 anos. “O que a gente esperava era a condenação do assassino, agora nós podemos usar a palavra certa: ‘assassino’. A dor não vai passar, mas esse resultado é um alívio.”
No vídeo abaixo, a avó do jovem, Aparecida Justina da Silva, e o amigo Diego Leonardo Rosa Garcia falam sobre a saudade de Jadson.
No dia 10 de agosto de 2016, Jadson e dois outros amigos adolescentes foram abordados na área urbana de Sarandi pela dupla de policiais. Os outros dois foram liberados e só Jadson levado para a zona rural onde foi executado. O corpo jogado na mata.
Uma semana depois, um motociclista passou perto do local, sentiu um cheiro forte e descobriu o cadáver. A família havia passado os últimos dias à procura do jovem. A mãe chegou a convocar a imprensa porque achou que as autoridades não estavam tomando providências para encontrar seu filho.
Dias depois do enterro de Jadson, a Polícia Civil encontrou a arma do crime escondida na casa de Onishi. Goulart admitiu ter participou da abordagem aos garotos e contou que esteve no local do crime. E garantiu que só o colega teria executado o adolescente. Onishi se diz inocente até hoje.
Acusação e defesa
“Foram dois longos dias de julgamento. Estamos cansados, mas com sensação de dever cumprido e de que a justiça foi realizada. A promotoria pediu a condenação do réu Onishi pelos crimes de homicídio, ocultação de cadáver e posse ilegal de arma de fogo. Ao mesmo tempo, pediu a absolvição do réu Goulart”, disse o promotor do caso, Wilson Masseli, ao final do julgamento.
“O conselho de sentença se reuniu e acatou integralmente a tese do Ministério Público”, complementou. Para o promotor, Goulart foi coagido por Onishi a participar da ocultação do cadáver.
Ele ressaltou que a defesa deverá recorrer e que o réu condenado vai aguardar em liberdade até manifestação do Tribunal de Justiça.
Questionado sobre a motivação do crime, o representante do Ministério Público diz que não foi possível chegar a uma resposta. Onishi nunca admitiu a autoria do homicídio. “Levantamos algumas hipóteses. A tese com mais razoabilidade é que o solado Onishi teve um comportamento higienista. É como se ele quisesse fazer uma faxina social. Na cabeça dele, a vítima era envolvida com a marginalidade e não merecia viver. A morte do jovem representaria um problema a menos para a polícia e a sociedade.”
“Não precisa ter medo da polícia”
Durante o julgamento, a defesa de Onishi, tendo à frente o advogado Eduardo Miléo, buscou colocar sob suspeitas as investigações e as provas do processo na tentativa de convencer o júri de que seu cliente era inocente.
Miléo tem se destacado na defesa de PMs acusados de homicídios em todo Estado. A Lume conversou com ele sobre o crescente número de pessoas mortas pela polícia no Paraná, inclusive de adolescentes como Jadson.
De 2017 a 2022, as forças de segurança (principalmente a PM) mataram 2.194 paranaenses, sendo 215 deles menores de 18 anos. Os números são do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público.
A reportagem questionou o advogado se não há nada errado com a segurança pública no Estado. Ele não hesitou em negar. “Os números não podem ser divorciados da realidade do mapa criminal do Paraná. Não podemos divorciar os números como se falássemos de um estado que não tem criminalidade.”
A Lume também confrontou Miléo sobre a estatística da Defensoria Pública de que quase 40% dos mortos pela polícia em 2022 não tinham passagem pela polícia e que, em mais de 50% dos casos o cenário do crime foi alterado. “Se observamos todo universo da criminalidade, os números apresentados pelo Gaeco e pela Defensoria Pública são pequenos.”
Para ele, o número de mortes decorrentes de intervenção policial é grande porque o Paraná é um estado que combate a criminalidade. “Você fala do número de mortes (de civis), mas quantas abordagens o policial faz ao ano, quantas pessoas ele prendeu?”, questiona.
Miléo a alega que a Polícia Militar é a única instituição presente nos 399 municípios paranaenses. “Qual o número de abordagens sem disparo, sem necessidade de uso de força que se faz nessas cidades todas? Temos mais de 800 viaturas rodando todo dia no Paraná e quantas entram em confronto armado? Às vezes nenhuma.”
A reportagem também perguntou a ele sobre a queda no número de mortes em ações policiais em São Paulo após a adoção de câmeras nos uniformes dos agentes. “O número de mortes diminuiu não é porque os policiais ficam inibidos com a câmera. É porque os bandidos ficam inibidos. A câmera inibe o marginal que está sendo filmado.”
Para ele, os paranaenses não precisam ter medo da polícia que é “muito técnica e muito atuante “.
