Gerson Kroker matou morador do Jardim São Jorge durante abordagem em março de 2018
Nelson Bortolin
O policial militar Gerson Kroker foi condenado nesta terça-feira (17), no Tribunal do Júri em Londrina, a 12 anos de prisão pelo homicídio de Nelson Júnior Militon Moura (foto em destaque), ocorrido no dia 27 de março de 2018, no Jardim São Jorge (zona norte). O PM pode recorrer da sentença em liberdade.
Seu colega Jorge Henrique Silveira de Lima era réu pelo mesmo crime, mas o júri popular o absolveu atendendo a pedido do próprio Ministério Público.
A condenação de Kroker é uma decisão rara, já que a maioria dos PMs que vão a julgamento por homicídio são absolvidos, como no caso do adolescente Gabriel Sartori, do Zequinha e da chacina conhecida como Noite Sangrenta.

Moura tinha 29 anos e também era conhecido como Júnior e Porquinho. Segundo familiares, ele tinha uma tabacaria e um restaurante no bairro.
O depoimento de duas pessoas que presenciaram a morte de Moura e o laudo do Instituto Médico Legal (IML) do cadáver foram as principais provas apresentadas no processo contra os PMs.
Versões da PM e da acusação
A versão da polícia é de que Kroker e Lima, da Rotam, faziam policiamento de rotina no São Jorge junto com um terceiro colega e pararam a viatura ao estranharem o comportamento de um homem que parecia avisar um parceiro da presença da polícia.
Depois de abordar essa pessoa, os dois policiais entraram na casa. O colega ficou do lado de fora. A dupla teria sido recebida por Moura com arma em punho. Por isso, Kroker precisou atirar.
Foram dois tiros, conforme laudo do IML: um entrou pela região infra escapular direita (costas) e saiu pela região esternal (peito). O outro entrou pela região “posterior do terço distal do antebraço direito” e saiu pela “região anterior do terço médio do antebraço direito”.
Essas lesões combinam mais com a versão dada pela acusação: quando a polícia entrou na casa, Moura teria levantado a camisa e depois virado de costas para mostrar que estava desarmado. Mesmo assim, foi alvejado.
A arma que foi encontrada posteriormente pelo perito ao lado do cadáver teria sido plantada pelos policiais.
O que dizem as testemunhas
Segundo testemunhas de acusação, Moura estava no imóvel que pertencia a Neusa dos Santos para entregar uma cesta básica. A dona de casa, que morreu há mais de um ano, morava com o filho Márcio dos Santos Bezerra, uma pessoa com deficiência física (PCD).
Antes de morrer, ela deu quatro depoimentos em inquéritos civil e militar sustentando a versão. Já o filho também depôs durante o julgamento desta terça-feira como testemunha da acusação.
A família alega que Moura havia feito uma promessa durante uma cirurgia cardíaca de uma das duas filhas que ele deixou. Se corresse tudo bem, ele passaria a ajudar uma família com PCD.
Posição do corpo
Durante o julgamento, o promotor Tiago de Oliveira Gerardi mostrou várias vezes fotos do cadáver extraídas do laudo do IML. Chamou atenção o fato de Márcio e a então mulher de Moura, Samantha Monteiro da Silva, afirmarem ter visto o corpo numa posição diferente enquanto as testemunhas arroladas pela defesa (PMs, policiais civis, socorrista e perito) terem dito que o encontraram como foi mostrado na imagem.
O promotor acredita que houve adulteração na cena do crime.
O atendente do Siate Maurício de Oliveira não confirmou a mudança de posição do corpo, mas disse que alguma manipulação é feita pelos socorristas para ver se há sinais vitais. E afirmou que pode ter levantado a camiseta de Moura.
Testemunhas relatam ameaças
As testemunhas de acusação relataram ter sofrido algumas ameaças por parte dos policiais. Márcio disse que depois de matarem Moura, os PMs ordenaram que ele e a mãe saíssem da casa. “Disseram para nós que nós não vimos nada.”
Segundo Samantha, Moura, que já teve passagem por roubo e tráfico, relatava ameaças sofridas de policiais. Mas negou saber o porquê.
Já a mãe da vítima, Vera Lúcia Moura, deu um depoimento firme apontando para um dos policiais que estavam no banco dos réus. “Ele extorquiu meu filho. Meu filho e minha nora levavam dinheiro para o Jorge.”
O motivo das ameaças, segundo ela, era o fato de o filho não ter habilitação para pilotar motocicleta. Se não desse dinheiro ao policial, o veículo seria apreendido.
Debate MP e defesa
Após o depoimento das testemunhas, o promotor e o advogado de defesa, Silvio Arcuri, fizeram suas sustentações orais. Segundo o promotor, desde que assumiu a função, em 2018, ele mandou arquivar 70 inquéritos referentes a mortes em ações da polícia. E só denunciou quatro casos, incluindo o de Moura.
“Em 70 vezes concordei com a polícia. Em regra, eles estão acobertados pela legítima defesa no cumprimento do dever legal.” Mas ressaltou que não tinha como concordar com os PMs neste caso. Chamou a versão dos policiais de mal contada.
O promotor ressaltou que ninguém nega o envolvimento de Moura com o crime, nem a mãe dele. “Entretanto se esse é o fundamento pelo qual vai se permitir a morte do Porquinho, é melhor que os dias finais cheguem logo.”
Ao final, o promotor pediu a absolvição de Lima e a condenação de Kroker.
Já o advogado de defesa procurou desqualificar a investigação do Ministério Público, as testemunhas de acusação e o próprio Moura.
Ele afirmou que o julgamento era uma inversão de valores ao dar mais crédito aos “envolvidos na criminalidade” do que na polícia.
Arcuri ironizou Moura o chamando de “benemerente” para depois afirmar que os criminosos distribuem cestas básicas em troca de favores como poder esconder “coisas” nas casas da comunidade.
A Rede Lume procurou o advogado após o julgamento. Ele não quis gravar entrevista, mas adiantou que irá recorrer da decisão do júri e que o cliente segue em liberdade.
O promotor não quis falar com a reportagem.
A Lume também procurou a assessoria da Polícia Militar para saber se Kroker segue na corporação, mas não obteve retorno até o momento.
