Policiais alegam que houve confronto armado com Alisson Rodrigues, de Bom Sucesso; mulher acusa nova execução
Nelson Bortolin
Fotos enviadas pela família
Doze dias após ter o irmão morto pela Polícia Militar, a dona de casa Vanessa Moraes, de Bom Sucesso (95 km de Londrina), perdeu o marido nas mesmas circunstâncias. Alisson Silva Rodrigues, de 25 anos, foi baleado pelos policiais na última terça-feira (3) na BR-376, em Jandaia do Sul. O irmão de Vanessa, Cristiano Moreira de Almeida, conhecido como Barão, foi morto pela PM na casa dele, em Bom Sucesso, dia 22 de setembro.
A dona de casa diz que a versão de confronto armado apresentada pela polícia é mentira. Ela tem certeza que ambos foram executados e diz que os casos estão relacionados de alguma forma. “Nós estávamos fazendo protestos todos os dias na cidade por causa da morte do meu irmão. Num deles, o Neguinho (apelido de Alisson) me contou que foi fotografado por uma pessoa dentro de um carro vermelho. Ele viu a luz do flash”, afirma.

Vanessa acredita que a PM ficou incomodada com as manifestações realizadas na cidade durante cinco dias. “Na última, minha mãe falou no meio da praça que a família estava encerrando as manifestações porque já atingimos nosso objetivo, que era ter uma reportagem, e também porque conseguimos contratar um advogado”, alega.
A reportagem à qual ela se refere é a da Rede Lume, que foi a mais acessada durante todo o ano no portal. Leia aqui.
Terminado o último protesto, os familiares foram embora para casa e, segundo Vanessa, o carro vermelho os seguiu e ficou um bom tempo parado próximo à residência. Depois disso, ela não quis mais que o marido saísse de casa. Assim como Barão, Alisson respondia na Justiça por acusação de homicídio. Foi condenado, mas teve direito de recorrer em liberdade.
“No dia 3, o Neguinho insistiu comigo que precisava dar uma carona de carro para um amigo de Mandaguari. Eu falei para ele que estava com um sentimento ruim, que não queria. Ele disse que era bobagem e acabou saindo de casa.”
Vanessa ficou monitorando Neguinho pelo celular. A última vez que ela falou com ele foi por volta das 14h30. O marido disse que o amigo havia atrasado e que ainda não tinham saído de Bom Sucesso. A dona de casa acabou tirado um cochilo com o filho de oito meses.
“Acordei às 15h30 porque o rapaz que traz o meu outro filho da escola tinha chegado. Eu perguntei para ele se ele tinha visto o Neguinho e ele não respondeu. Eu comecei a estranhar”, explica. Logo, uma das irmãs chegou na casa contando que havia uma movimentação de polícia na BR e que uma pessoa teria morrido no local. “Eram os mesmos policias que entraram na casa do meu irmão.”
A notícia se espalhou nas redes sociais, mas não dava para ter certeza se quem havia morrido era mesmo Neguinho. A confirmação veio por meio de uma amiga que foi avisar Vanessa.
PM diz que carona seria matador de aluguel
A versão da Polícia registrada no Boletim de Ocorrências é de que houve denúncia anônima segundo a qual um homem estava portando um volume na cintura, que poderia ser uma arma de fogo. Por isso, uma viatura teria ido atrás desse homem, que estaria no carro de Alisson.
A abordagem teria sido feita como manda a lei, tendo a viatura ligado seus sinais sonoros e luminosos.
Ainda segundo o BO, o motorista teria se recusado a parar e a perseguição teve início. Num dado momento, Alisson teria parado o carro e corrido armado em direção a um policial que precisou baleá-lo com medo de morrer.
Como Neguinho ainda apresentava sinais vitais, os policiais retiraram a suposta arma de perto dele, atitude comum em todas os casos em que PMs atiram contra alguém, mas criticada por especialistas (leia aqui).
O BO segue afirmando que o carona de neguinho foi algemado e deu consentimento para os policiais gravarem um vídeo no qual confessa o que fazia no carro. Esse homem teria dito que Alisson foi buscá-lo em Mandaguari e o contratou para executar um desafeto dele (Alisson).
Vanessa teme pela segurança da família
Vanessa diz que recebeu informações que revelariam uma história bem diferente. Ela tem certeza que o marido foi levado para um matagal perto da rodovia onde teria sido executado. A dona de casa acredita que o outro ocupante do carro, preso na abordagem, vai confirmar essa versão.
Vanessa tem muito medo de acabar como o marido e o irmão. “Toda a minha família está se sentindo ameaçada”, conta.
A Rede Lume procurou o advogado de Vanessa. Ele também está defendendo o rapaz preso. “Os direitos e garantias fundamentais do outro acusado não foram respeitados desde o momento da prisão. A defesa está adotando as providências cabíveis, para a soltura de seu cliente, bem como proteção aos mesmos, para que a verdade seja revelada”, afirmou o advogado Antônio Silva Júnior, por meio de nota enviada à Lume.
A reportagem também procurou o 10º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento da cidade, para tratar das acusações feitas pela família. Por meio da assessoria de imprensa, o comandante tenente-coronel Edvaldo Isidoro Vieira afirmou que “ambas situações estão sendo apuradas por meio de Inquérito Policial Militar, e que não se pronunciará a respeito até que sejam encerrados os procedimentos.”
