Por Beatriz Herkenhoff*

Sou o que sou porque estou aberta para as relações intergeracionais. Minha intensidade, alegria, criatividade, animação, amor pela vida, empatia e solidariedade têm como fonte principal a interação permanente com as crianças e com os jovens.

Estudos comprovam os efeitos dessas interações para a saúde psíquica e emocional tanto dos jovens (e crianças) quanto dos mais velhos.

Abordei esse tema na última crônica e conclui afirmando como fui impactada pelos jovens que se apresentaram no Sarau de lançamento do livro “V.I.P.I.A versos imprecisos para infantilizar adultos”, de Diego, o Cavaleiro Andante.

Pedi que Diego falasse sobre cada jovem que se apresentou no Sarau.

Jovens Negros e Periféricos que, mesmo diante dos preconceitos, violência e ameaças da vida, não recuaram ou desistiram de seus sonhos, transformando a dor em poesia, luta e resistência.

Jovens que se apresentaram no sarau/Fotos: Diego Cavaleiro Andante

Ao ouvir suas músicas e poesias fiquei profundamente tocada e emocionada e percebi quantas vezes desanimo e me entristeço por tão pouco!

Perguntei-me: Como posso renovar minha energia de vida e esperança na convivência com esses jovens?

Convido você a fazer essa jornada comigo, temos muito a aprender com Jânio, Felipe Rocha, Liel, Do Carmo, Júlia, Bruna, Zampa, Joe Caetano, Brás e Luciene Pratti (coral do Morro do Quadro – Serenata da Favela).

Diego relata que conheceu a maioria desses jovens no Núcleo Afro Odomodê.

Um espaço onde se encontram jovens poetas, MCs, artistas que dialogam com a cultura periférica, do Rap e com a literatura marginal.

Jânio Silva era orientador social do Núcleo Afro Odomodê.

Jânio é excelente escritor e poeta. Foi contemplado num edital de fomento à literatura e publicou seu primeiro livro “O Bonde”. Escrito dentro do ônibus nas suas idas e vindas da Serra para Vitória.

“Jânio é uma referência para a juventude negra e periférica do ES (Espírito Santo). Existem muitas coisas em comum entre eu e Jânio, seja o amor pela palavra, seja a maneira de existir e resistir através da palavra. Estive à frente da organização do lançamento do seu livro ‘O Bonde’. Ajudei na produção do livro ‘Pedaços da noite’. Dividimos idas às escolas e organizamos o Sarau Empretecendo”, conta Diego.

Filipe Rocha compôs “Ser preto é foda”. É uma referência nas batalhas de poesia falada no Slam. Foi campeão estadual em 2019. Diego e Filipe Rocha dão palestras em escolas e realizam oficinas de escrita criativa.

Liel participa dos Slans das batalhas de rima. Por meio dele vemos como a poesia é acolhedora e permite nossa evolução. Liel tem amadurecido na poesia e se destacado em sua potência criativa.

Diego conta: “Eu percebia que Liel era meu fã, curtia meu trabalho, mas eu tinha medo de receber elogios, achava que não era digno de reconhecimento. Liel me ensinou a entender e aceitar que posso ser uma referência para alguém.”

Do Carmo é um poeta da nova geração, tem uma capacidade de escrever coisas profundas, doces e resilientes. Encontrou na poesia a sua morada e o impulso para voar. Ele tem feito a diferença. Jovem sábio, disposto a aprender, uma humildade sem igual.

Diego relata que Do Carmo tem ido às escolas com ele, “mais do que uma poeta, tem se transformado num educador, educAMOR.”

Julia foi aluna de Diego em uma das oficinas que ministrou no Marista Social de Terra Vermelha. Diego a define assim: “Júlia atrevida, tirou as palavras para dançar e entendeu que podia usar as palavras para lutar. Se destacou no Sarau do Marista Social. Quis mais e com a professora Daniela montou o coletivo de poesia Nísia. Espaço de incentivo à produção literária, à leitura, ao empoderamento das mulheres que se manifestam através da palavra. Júlia encontrou no Slam, na competição da poesia falada, o caminho para construir um projeto de vida mais saudável.”

Bruna “é uma artista potente, poeta, compositora, cantora. Uma sonhadora como eu. Musicou meu poema ‘Na ponta do pé’”, diz Diego. Bruna enfrentou muitos desafios pessoais e se encontrou na arte. Diego complementa: “Esse mundo convencional não nos cabe! Não conseguimos ser convencionais, ser duros como as cidades. A resposta que encontramos para existir é a arte. Precisamos da arte e da poesia para FloreSER.”

Confiram no Spotify a apresentação da música Educamores com Diego, Bruna, Cesar MC e Noventa.

Zampa é um cara de luz, solidário e espiritualizado, de uma humildade e disponibilidade única. Muito talentoso e competente no que realiza! Está despontando e entendeu “que não somos competidores, estamos no mesmo barco, dependemos uns dos outros para vencer os desafios. Não precisamos competir, mas cooperar. Se navegamos juntos, chegamos nas praias que almejamos” (Diego).

Confiram também suas lindas músicas no Spotify.

Joe Caetano é um cantor acima da média, já está pronto, não precisa lapidar! Toca bateria, violão, guitarra. É da mesma comunidade de fé que Diego.

“Quando eu o ouvi cantando na igreja, percebi que ele estava pronto para deslanchar como músico. Deus deu esse dom para ele e é por esse caminho que ele tem que existir e encantar as pessoas. Lançamos em agosto de 2022 sua primeira música ‘Flor’, uma música linda, nasceu com um clipe lindo. Lançamos em 2023 ‘Se você quiser’, ‘Motivos de Sobra’”, confiram no Youtube.

Brás foi poeta a vida inteira, mas não sabia. Para sobreviver foi pedreiro, pintor e porteiro. Encontrou no César Mc a motivação para seguir em frente no universo da poesia.

Descobriu que só existia por meio da poesia e saiu poetizando todo o morro. Escrevendo poesia onde tinham marcas de balas. Os moradores saiam para trabalhar e passaram a consumir a poesia dele nos muros. Só os livros não dão conta de expressar a poesia, ela precisa estar em todos os lugares, em todas as ferramentas.

Brás foi alfabetizando poeticamente o morro dele. Usando muros, pedras, quadras, armários, tudo que estava à disposição para escrever poesias. Isso elevou a autoestima dos moradores, expandiu o amor e a vontade de ler mais. Diego diagramou recentemente o livro de Brás “Pô e Rimas”.

Diego cita Leminsk para mostrar a potência de Brás. Leminsk afirma que ser poeta aos 17 anos é fácil, eu quero ver alguém continuar acreditando na poesia aos 22, 35, 41, 60 anos. O difícil é ser poeta quando se é pai, sem dinheiro, com demandas de consumo, sem reconhecimento. E Diego complementa: “Brás é a prova de que é possível ser poesia sendo esposo, pai, pastor. Brás é uma lição de vida, me inspira muito.”

Confiram no Youtube “Eu sou favela” com César Mc, no final tem uma fala do Brás.

Apresentação do Coral Serenata da Favela/Foto: Diego Cavaleiro Andante

Foi muito linda também a apresentação no Sarau do coral Serenata D’Favela. Constituído por crianças e jovens do Morro do Quadro. Nasceu em 2009, a partir da observação da professora Luciene Pratti Chagas sobre o impacto da música na vida de seus moradores.

Na próxima crônica escreverei sobre a rica experiência do coral Serenata D’Favela.

Temos que divulgar essas experiências. Fazer um contraponto aos meios de comunicação e redes sociais que só divulgam tragédias e mortes e reforçam um olhar negativo sobre os jovens.

Eu encontrei neles e com eles o amor, a potência e a garra pela vida, a capacidade de ressignificar e fazer da poesia luta, resistência e superação.

Quero encerrar com o lindo testemunho de Diego, o Cavaleiro Andante: “Às vezes penso porque sonho tanto os sonhos das outras pessoas, concluo que é porque eu queria que alguém sonhasse o meu sonho também. O sonho é o que nos mantém vivos, se as pessoas não sonham os nossos sonhos, se não botam fé, se não nos estimulam, se falam que não vai dar certo, elas matam os nossos sonhos. E se acreditamos no pessimismo das pessoas, sem perceber, morremos. Sou ativista da vida e a melhor maneira de permitir que pessoas vivam é sonhar com elas.”

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora dos livros: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo” (2022)