Por Vinícius Fonseca

Dizem que boa parte das pessoas usam a virada do ano como um momento de reflexão. Eu não sou muito afeito a datas comemorativas, no entanto, deixe-me “hipocritamente” lhe convidar a fazer uma: Quem é que te inspira? Ou, o que é que te inspira?

Sim, uma inspiração para se tornar alguém melhor pode partir de observarmos alguém por suas atitudes ou posições. A inspiração pode estar em um livro, uma canção ou qualquer coisa que te mova a ser alguém melhor.

Alguém ou alguma coisa inspiradora, no entanto, não nos toca do dia para noite. Tudo faz parte de um processo de construção de mundo. É o conjunto das suas vivências anteriores com aquilo que você está experimentando agora, logo, a inspiração depende de referências, relações e semelhanças. Possíveis similaridades ou identificação com uma obra artística, por exemplo, pode dar início a um processo de mudança na vida de alguém.

Eu sou fã de animação e recentemente assisti, na Netflix, “Samurai de Olhos azuis”, série que teve seus primeiros 8 episódios lançados em 2023. A produção franco-americana tem a seguinte sinopse: “Movida pelo sonho de vingança contra as pessoas que a transformaram em excluída no Japão do período Edo, uma jovem guerreira decide trilhar um caminho sangrento”. E foi por ela que resolvi assistir.

Não me lembro de ser muito comum histórias contadas do ponto de vista de uma mulher samurai, acontece que a série entrega muito mais.

Para além do protagonismo feminino, que está não só na óbvia protagonista, vê-se mulheres fortes e capazes de mudar o curso da história em vários núcleos. Mas, o que mais me chamou a atenção foi a presença de personagens com deficiência na série.

A protagonista é uma criança excluída por ter seus olhos azuis, diferentes dos japoneses, e acaba sendo criada por um ferreiro cego. Esse personagem tem uma questão filosófica latente na série toda. Embora não possa mais enxergar o mundo, ele pode ser visto, em vários momentos, como os olhos da sabedoria.

Já o ajudante e fiel escudeiro da protagonista não tem as duas mãos. Acaba salvando a protagonista algumas vezes, mostrando que pode ser útil apesar de suas limitações, pois tenta superá-las em nome do seu sonho de ser alguém grandioso. Também funciona muito bem como alívio cômico para uma série pesada, sangrenta e com classificação 18A.

Assistir à série me lembrou da importância do protagonismo da pessoa com deficiência e de como isso pode mudar a vida de quem é PCD. Quantos professores com algum tipo de limitação poderíamos ter se tivéssemos mais professores com deficiência lecionando. Quantos artistas, quantos médicos.

O nosso olhar muda quando identificamos semelhanças com quem nos é parecido. Nos dá a sensação de que também somos capazes. No meu livro “A floresta Organizada”, obra de 2023 lançada pela Caravana Grupo Editorial, fiz questão de fazer um conto em que todos os animais da história tinham algum tipo de limitação.

Meu livro dificilmente terá o alcance da série da Netflix, mas não importa, o que realmente importa é quem ambas as peças dão vez e voz às discussões acerca da pessoa com deficiência.

Hoje é o primeiro dia do ano de 2024 e o que eu mais espero é que nós PCDs possamos ter cada vez mais protagonismo e possamos inspirar pessoas de todos os lugares e em qualquer condição, mas principalmente aquelas que têm deficiência como nós. Sim, você pode ser quem você quiser ser!

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.