Por Vinícius Fonseca*

Sim, o texto de hoje começa com uma pergunta já em seu título. Uma pergunta muito pertinente, afinal: As empresas estão interessadas em promover a inclusão, ou querem apenas cumprir a lei de cotas no mercado de trabalho?

As palavras inclusão e diversidade estão muito na moda hoje em dia. A Lei nº 13.146, também conhecida como Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência, trata de diversas temáticas voltadas às Pessoas com Deficiência (PcDs), inclusive sobre o trabalho.

Lá está definido que empresas a partir de 101 funcionários devem ter profissionais com deficiência em seus quadros funcionais. Essa porcentagem é pequena, começando em 1% e podendo chegar a 5% do quadro. Também diz que pessoa com deficiência só deve ser substituída por pessoa com deficiência, entre outros pontos. Um avanço para a promoção da equidade no mercado de trabalho, certo?

Bom, a resposta mais adequada parece ser: depende.

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Vou ilustrar com um caso recente que aconteceu comigo. Uma recrutadora de empresa especializada em contratar PcDs me procurou por telefone dizendo que viu meu currículo em uma plataforma na internet e que tinha uma oportunidade interessante para mim; a vaga: Auxiliar de Cozinha.

Nada contra auxiliares de cozinha, toda profissão é digna e uma forma de garantir o sustento, mas tem certeza de que viu meu currículo? Sou formado em jornalismo, também gestão de recursos humanos, tenho especializações voltadas à educação, comunicação e gestão empresarial e atuei em praticamente todas as áreas nas quais me formei, de forma direta ou indireta, no entanto, nunca atuei na cozinha.

Será que a recrutadora viu mesmo o meu currículo? Se tivesse realmente visto saberia dos meus interesses e das minhas experiências profissionais e procuraria um perfil mais adequado à vaga.

Aliás, a busca por perfis mais condizentes à vaga é o caminho comum de todo processo seletivo, desde seu início, logo, presumo que meu perfil não deveria nem ser cogitado para a vaga. Por que isso acontece?

Meu palpite é que o mercado, empresas e recrutadores, estão mais interessados em fechar vagas do que oportunizar vagas condizentes com os profissionais com deficiência. Pedem qualificação, mas oportunizar coisas na área de formação é bem pouco provável.

Cumprir o percentual de cotas a todo custo parece ser a ordem, a inclusão mesmo fica apenas para o discurso, Se essa não for a resposta mais provável para isso, então a recrutadora que me abordou deve ter descoberto por alguém, algo sobre a minha habilidade em fazer ovo cozido e macarrão instantâneo.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.