Por Beatriz Herkenhoff*
Essa é uma pergunta que muitos de nós que atravessamos momentos de depressão ou de algum transtorno mental, fazemos constantemente: Será que esta dor um dia vai acabar? Por que isso está ocorrendo comigo? Alguém será capaz de compreender que não é frescura?
Essas e muitas outras perguntas passam e repassam em nossa cabeça em um episódio depressivo, que envolve, em muitos casos, outras comorbidades como a ansiedade generalizada, a síndrome do pânico, a síndrome do stress pós traumático, entre outros.
Aumentou significativamente o número de pessoas com depressão e outras doenças psíquico emocional. Infelizmente, muitas vezes, enfrentadas sem o apoio da família e da sociedade.
Em julho de 2023, encontrei uma ex-aluna que tinha se tornado uma grande amiga. Com um filho de 8 anos e uma filha de 9 meses, ela me disse que estava passando por um processo profundo de depressão.
Mesmo morando em cidades diferentes, passamos a ter um contato constante, mobilizei alguns recursos para ajudá-la a lidar com a doença.
Paralelamente, alguns membros de sua família e amigas bem próximas também estavam acompanhando-a e dando uma atenção especial.
Sua irmã teve a iniciativa de formar um grupo no whatsapp denominado de “Rede de Apoio e de Afeto”. Passamos a caminhar de mãos dadas com nossa amiga que estava sem forças para levantar da cama, trabalhar, cuidar das crianças e fazer as atividades básicas.
Hoje a rede totaliza 16 amigas empenhadas com a mobilização de mais pessoas.
Temos vivido uma linda experiência de solidariedade, de amor, desprendimento, sensibilidade, diálogo, generosidade, gratidão, cumplicidade e doação.
Uma rede que inclui contribuições financeiras, expressões de amor e afeto, visitas (para aquelas que residem na mesma cidade), telefonemas, vídeo chamadas e apoio psíquico, espiritual e emocional.
Convidei minha amiga para escrever esta crônica comigo porque essa experiência tão rica poderá ser referência para outros que passam por problemas semelhantes e estão isolados em sua dor. Muitas vezes não sabem por onde começar e a quem direcionar suas dúvidas.
Vou compartilhar aqui algumas mensagens que ela escreveu para a Rede de Apoio e Afeto, pois expressam seu processo de tratamento e de cura.
“Venho nessa véspera de natal desejar a todos: TRANSBORDAMENTOS, RENASCIMENTO E MUITO AMOR! Assim me sinto hoje.
Esta semana, nas consultas terapêuticas e nas conversas com amigas queridas, cheguei à conclusão que essa *rede de apoio* que se formou para me ajudar neste período delicado de minha vida, me fez ver e confirmar mais uma vez, o quanto não sou/estou sozinha nessa jornada da vida.
Eu andei por alguns desertos, nestes meses atrás, e realmente, não estava com qualquer perspectiva; efeito de uma doença séria e crônica que precisamos desmistificar: a depressão, que associada ao Burnout, tem levado muitas de nós, mulheres, que acumulamos uma enormidade de funções, à exaustão nessa sociedade acelerada e patriarcal.
Mas hoje, chego a este *natal*, com esse transbordamento e amor, porque vocês destinaram a mim tudo isso. Seja em conversas, lembranças de tempos vividos, sustentação de necessidades básicas, afeto pra mim e meus filhos. E eu sou GRATA! GRATA! GRATA!
Vocês fizeram a diferença com suas palavras, vocês ajudaram minha alma a ‘renascer das cinzas’ como uma fênix. Como diz Matheus Aleluia, um grande cantor/compositor baiano na sua música: AMOR CINZA ‘na linha do horizonte tem um fundo cinza, pra lá dessa linha eu me lanço e vou, não aceito quando dizem que o fim é cinza… eu vejo o cinza como um início em cor. Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas.’
Quero agradecer ainda, a presença cotidiana, com as orações e tudo que tem chegado até mim e que é “invisível aos olhos”. Também a reaproximação de amigas antigas.
A Consultoria financeira de um amigo especialista no tema que está ajudando-me a literalmente voltar para um eixo de equilíbrio onde eu consiga me reerguer e tomar decisões sustentáveis para ser dona de mim novamente, e ofertar o melhor de mim para meus filhos, para vocês e para o mundo!”
Chorei quando li esta mensagem. Nós que fazemos parte da Rede de Apoio e de Afeto ficamos emocionados cada vez que ela nos fala sobre suas mudanças, curas e conquistas. Somos transformados na vivência do amor coletivo.
Vou compartilhar mais uma mensagem da nossa querida amiga que mostra a importância da formação de uma rede nesse processo:
“Queridxs amigxs e família de sangue e alma, estou muito, MUITO GRATA por todas as expressões de carinho, afeto e solidariedade! Por todas as mensagens e rede de apoio construída me fazendo ver o quanto vale a pena seguir!
Num tempo de tantas injustiças e coisificação da vida, encontrar e ser parte-centro de uma rede é realmente significativo. Eu ainda nem consigo realmente mensurar. Como nos ensina Bell Hooks, no seu livro TUDO SOBRE O AMOR: ‘o pessoal é também político’. Este livro tão potente que iniciei a leitura recentemente, e que reforça uma ideia que representa muito tudo isso que estou vivendo neste momento ‘Viver dentro de uma ética amorosa é uma escolha de se conectar com o outro.’
Escrever para vocês, é também um exercício de cura interior pra mim.
Ontem fui à rua. Há 2 meses atrás isso era quase impossível de se fazer. E há 1 mês, eu sequer saía da cama. Hoje já estou “ativa” e lidando com um cotidiano cada vez mais *presente* em cada ação, por mais banal que pareça ser, e percebendo o quão extraordinário é a vida e o quanto eu quero estar aqui para cuidar dos meus filhos.
Tudo isso está me ajudando a estar mais plena e inteira dando outros passos em direção à minha melhora e a restabelecer minha saúde psíquica/emocional/física/espiritual.
O que quero que saibam é que a mobilização dessa rede tem me deixado em estado de ânimo e graça, com uma força ancestral para acordar e viver o que tiver de viver. E toda essa potência do bem que tem se erguido ao meu lado para me levantar, me apoiando em diversos âmbitos, seja por mensagens, ligações, com cesta de café da manhã, com visitas especiais, com a psicoterapia gratuita e solidária, bem como o acompanhamento do CAPS, além do grupo de apoio online, e mesmo as homeopatias e alopatias… ou ainda o cuidado espiritual vindo de diversas fontes.
Sair com as crianças (filhos e sobrinhos), a nossa descendência de amor. Estar na natureza com meus filhos, alimentar-me melhor, dormir 2 noites inteiras seguidas, depois de 1 ano e 2 meses de maternagem.
Em tudo isso que tenho vivido, vejo mesmo a mão de Deus e o quanto Bell Hooks estava certa: “o pessoal realmente é político”. Claro que não vou problematizar neste momento, que boa parte de tudo isso deveria ser garantido com políticas públicas, e que o adoecimento psíquico de muitas de nós mulheres, mães-solos, chefe de família, é por falha neste sistema antimaternalista e anacrônico que mais parece uma “fábrica de moer gente” ou como diz Krenak – estamos imersos num modelo de humanidade desumanizante, e por isso precisamos ter *ideias para adiar o fim do mundo*. Senão seremos engolidos por ele.
Contudo, em tudo isso que tem acontecido comigo, eu vejo a política do afeto, da presença, da espiritualidade, da energia do Bem Viver, do Bem Ser, do Bem Amar, do Bem estar, do Bem Cuidar, da solidariedade, da intimidade, da amizade, do diálogo, da esperança em dias melhores, das trocas, da comunidade e coletividade, do amor desinteressado, do resgate de mim mesma, da reciprocidade, da cicatrização das feridas e do AMOR Revolucionário. Envolvendo-me e levantando-me, dia após dia.
E Eu voltando a dar as mãos para mim mesma. Tendo a oportunidade de revisitar a minha história, e recomeçar.
Nesse processo de autoconhecimento que inclui este tratamento que estou agora, percebo o quanto que me manifestar com integridade, bondade e amor foi/está sendo essencial para que todo este círculo de amigxs se formasse ao meu redor, e neste momento delicado, sustentassem o que não consigo.
Agora minha maior militância é ‘cuidar de mim, e dos meus filhos. Eu, uma ‘mulher-mãe solo’, criando duas crianças, depois de grandes tempestades, é a *obra social* que estou e preciso estar engajada.
Obrigada a cada um, por se engajarem nesta “obra” comigo, e por não soltarem a minha mão!”
Eu e minha amiga desejamos que o relato dessa experiência tenha tocado sua vida.
Se você passa por problemas semelhantes, não se feche, busque ajuda.
Se você tem amigos e familiares que precisam de ajuda, não se omita.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
