Que a esperança conduza nossos passos
Por Beatriz Herkenhoff*
Como a dor do outro me toca? Como exercito a sensibilidade e a empatia no meu dia a dia?
Coloco-me no lugar do outro? Acolho-o em seus limites e potencialidades?
Estou atenta àqueles que estão ao meu lado e passam por momentos difíceis?
Solidarizo-me com aqueles que não têm as suas necessidades básicas atendidas?
Mobilizo-me diante das enchentes que atingem o Rio Grande do Sul e outras inundações que ocorrem no Brasil?
Ou perco a esperança e fico paralisado diante de tantos desafios?

Foto: Molly Merrol/Unsplash
Como contribuo com um mundo ecologicamente sustentável em que as pessoas tenham condições de viver com serenidade, sem serem surpreendidas por catástrofes que poderiam ser evitadas?
Que sementes de esperança espalho por onde passo? Que contribuições ofereço para que seja possível construir a paz, o diálogo, o respeito entre os familiares, os vizinhos, os amigos, os povos e as nações?
Como vivo o respeito, a dignidade, a equidade, o equilíbrio, a afetividade, o acolhimento e a busca por estabilidade?
Ou considero que são mudanças que não dependem da minha participação?
Somos parte de um todo, unos e múltiplos, os meus gestos afetam o universo e vice versa.
Leia também: A construção de redes de afeto
Sou parte do movimento que possibilita que todos tenham o pão à sua mesa, uma moradia digna, educação, segurança e acesso à saúde.
A força do bem e do amor giram em espiral ascendente. A força do mal e do ódio também se espalham. Como me coloco nesse contexto? Como lido com as contradições internas e externas?
Muitos são os desafios para mudar a rota que nos leva a previsões tenebrosas para as próximas gerações.
A vida não é linear. Vivemos momentos de altos e baixos. Ora celebramos as conquistas pessoais, sociais, ecológicas, econômicas e políticas. Ora somos surpreendidos por acontecimentos que mudam o nosso cotidiano: adoecimentos físicos e psíquicos, depressão, ansiedade, dores musculares, perdas de pessoas queridas, desemprego, rupturas amorosas, catástrofes, entre tantos desafios que nos paralisam e entristecem.
Sozinhos não somos nada, por isso a vida exige construção de redes, lutas coletivas, resistência, compaixão, cumplicidade, comprometimentos e acordos mundiais para a preservação do nosso planeta. Medidas ecologicamente sustentáveis, cuidados com a natureza, com os povos originários, solidariedade com nossos irmãos que menos têm ou que sofrem com perdas provocadas por guerras, por inundações, pela violência, pelo preconceito, pela discriminação e pelo descaso público.

Foto: Voluntários em ação no Flores do Campo/Filipe Barbosa
A vida se esvai e perde o seu sentido mais profundo quando gira em torno do egoísmo, do individualismo, da autossuficiência, da ganância, da prepotência, do enriquecimento de alguns e empobrecimento de muitos, de ações que visam o próprio interesse em detrimento do bem comum.
Sou desafiada a cuidar de mim e do outro. Se cuido mais do outro do que de mim, adoeço. Mas, se só cuido de mim e sou indiferente ao outro, contribuo para o adoecimento coletivo.
Por isso volto sempre à temática do tempo. Como administro o meu tempo? Que porção do meu tempo dedico ao autocuidado, ao autoconhecimento, ao investimento interior para que desabroche o que de melhor existe em mim?
Que porção do meu tempo dedico aos amigos e familiares? Como fortaleço os laços? Como dou atenção especial àqueles que estão sofrendo e que precisam de um ouvido amigo, um ombro amoroso e gestos de solidariedade?
Que porção do meu tempo dedico às causas sociais? Como coloco meus dons à serviço? Como me envolvo em campanhas e na luta pela garantia de processos democráticos?
Leia também: Vinícius Fonseca lança livro de contos sobre as tragédias e belezas da vida
Como ilumino caminhos, acalmo corações, dissipo brigas e contendas? Como evito palavras que dividem e não constroem?
Como exerço o desapego financeiro? Como compartilho um pouco do que tenho para que não falte àqueles que nada têm?
Como envolvo-me em ações coletivas que visam deter a trajetória do aquecimento global e suas consequências?
Sozinha não mudo o mundo, mas sou parte de sua história, sou um pequeno grão de areia, que se une a muitos grãos de areia.
Que legados deixo no meu jeito de ser e estar no mundo?
O amor, a fé e a esperança guiam os meus passos? Protejo-me para não sucumbir ao desânimo, para não desistir e desacreditar da potência da nossa humanidade?
Fortaleço a minha fé para que o amor de Deus pela humanidade se manifeste através de meus atos e compromissos?
Sei que muitos pensam como eu. Precisamos reforçar as correntes da engrenagem que multiplicam o amor. Resistir e lutar contra as ondas negacionistas que nos submetem a uma visão de mundo que gera a destruição, a divisão, o ódio e a desestabilização.
Precisamos caminhar de mãos dadas. Ninguém solta a mão de ninguém.
Como você se coloca diante desses desafios? Que questões você acrescenta a essas reflexões?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
Relacionado
3 comments
Deixe um comentário Cancelar resposta
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Questionador e reflexivo, o texto de Beatriz Herkenhoff nos convoca ao importante debate sobre nossa competência humanística! Momentos tristes e dramáticos, como o que o Estado do Rio Grande do Sul está vivendo, colocam em cena a oportunidade de verificar nossa potência solidária e fraterna numa sociedade cada vez mais narcisista, egoísta e indiferente ao drama alheio. Obrigada Beatriz por sua acertada abordagem a todos nós, sempre nos acordando para nosso papel cidadão!!!
Muito inquietante a reflexão. Como assistimos a tudo que está acontecendo?
Lindo e profundo texto!
Fiquei pensando em como conseguir dividir melhor o meu tempo…
Obrigada pelas palavras que me levaram à reflexão!