Por Beatriz Herkenhoff*
Como a dor do outro me toca? Como exercito a sensibilidade e a empatia no meu dia a dia?
Coloco-me no lugar do outro? Acolho-o em seus limites e potencialidades?
Estou atenta àqueles que estão ao meu lado e passam por momentos difíceis?
Solidarizo-me com aqueles que não têm as suas necessidades básicas atendidas?
Mobilizo-me diante das enchentes que atingem o Rio Grande do Sul e outras inundações que ocorrem no Brasil?
Ou perco a esperança e fico paralisado diante de tantos desafios?

Como contribuo com um mundo ecologicamente sustentável em que as pessoas tenham condições de viver com serenidade, sem serem surpreendidas por catástrofes que poderiam ser evitadas?
Que sementes de esperança espalho por onde passo? Que contribuições ofereço para que seja possível construir a paz, o diálogo, o respeito entre os familiares, os vizinhos, os amigos, os povos e as nações?
Como vivo o respeito, a dignidade, a equidade, o equilíbrio, a afetividade, o acolhimento e a busca por estabilidade?
Ou considero que são mudanças que não dependem da minha participação?
Somos parte de um todo, unos e múltiplos, os meus gestos afetam o universo e vice versa.
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Sou parte do movimento que possibilita que todos tenham o pão à sua mesa, uma moradia digna, educação, segurança e acesso à saúde.
A força do bem e do amor giram em espiral ascendente. A força do mal e do ódio também se espalham. Como me coloco nesse contexto? Como lido com as contradições internas e externas?
Muitos são os desafios para mudar a rota que nos leva a previsões tenebrosas para as próximas gerações.
A vida não é linear. Vivemos momentos de altos e baixos. Ora celebramos as conquistas pessoais, sociais, ecológicas, econômicas e políticas. Ora somos surpreendidos por acontecimentos que mudam o nosso cotidiano: adoecimentos físicos e psíquicos, depressão, ansiedade, dores musculares, perdas de pessoas queridas, desemprego, rupturas amorosas, catástrofes, entre tantos desafios que nos paralisam e entristecem.
Sozinhos não somos nada, por isso a vida exige construção de redes, lutas coletivas, resistência, compaixão, cumplicidade, comprometimentos e acordos mundiais para a preservação do nosso planeta. Medidas ecologicamente sustentáveis, cuidados com a natureza, com os povos originários, solidariedade com nossos irmãos que menos têm ou que sofrem com perdas provocadas por guerras, por inundações, pela violência, pelo preconceito, pela discriminação e pelo descaso público.

A vida se esvai e perde o seu sentido mais profundo quando gira em torno do egoísmo, do individualismo, da autossuficiência, da ganância, da prepotência, do enriquecimento de alguns e empobrecimento de muitos, de ações que visam o próprio interesse em detrimento do bem comum.
Sou desafiada a cuidar de mim e do outro. Se cuido mais do outro do que de mim, adoeço. Mas, se só cuido de mim e sou indiferente ao outro, contribuo para o adoecimento coletivo.
Por isso volto sempre à temática do tempo. Como administro o meu tempo? Que porção do meu tempo dedico ao autocuidado, ao autoconhecimento, ao investimento interior para que desabroche o que de melhor existe em mim?
Que porção do meu tempo dedico aos amigos e familiares? Como fortaleço os laços? Como dou atenção especial àqueles que estão sofrendo e que precisam de um ouvido amigo, um ombro amoroso e gestos de solidariedade?
Que porção do meu tempo dedico às causas sociais? Como coloco meus dons à serviço? Como me envolvo em campanhas e na luta pela garantia de processos democráticos?
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Como ilumino caminhos, acalmo corações, dissipo brigas e contendas? Como evito palavras que dividem e não constroem?
Como exerço o desapego financeiro? Como compartilho um pouco do que tenho para que não falte àqueles que nada têm?
Como envolvo-me em ações coletivas que visam deter a trajetória do aquecimento global e suas consequências?
Sozinha não mudo o mundo, mas sou parte de sua história, sou um pequeno grão de areia, que se une a muitos grãos de areia.
Que legados deixo no meu jeito de ser e estar no mundo?
O amor, a fé e a esperança guiam os meus passos? Protejo-me para não sucumbir ao desânimo, para não desistir e desacreditar da potência da nossa humanidade?
Fortaleço a minha fé para que o amor de Deus pela humanidade se manifeste através de meus atos e compromissos?
Sei que muitos pensam como eu. Precisamos reforçar as correntes da engrenagem que multiplicam o amor. Resistir e lutar contra as ondas negacionistas que nos submetem a uma visão de mundo que gera a destruição, a divisão, o ódio e a desestabilização.
Precisamos caminhar de mãos dadas. Ninguém solta a mão de ninguém.
Como você se coloca diante desses desafios? Que questões você acrescenta a essas reflexões?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
