Por Isabela Guilherme da Silva*
Foto: Filipe Barbosa/18.fev.2025
No fim do dia 18 de fevereiro, assisti um vídeo no canal da RICTV Londrina no YouTube, referente a um trecho do programa Balanço Geral do mesmo dia, sob o título “Protestos em Londrina: Secretário da segurança não descarta ligação com facções”. O vídeo se inicia com a fala do apresentador: “era necessário que o Secretário viesse para poder acompanhar de perto, para poder direcionar as ações da polícia, até para mostrar força, para poder mostrar que quem manda aqui é o Estado e a polícia […]”.
A vinda do Secretário de Estado da Segurança Pública para Londrina foi motivada pelas manifestações que estão ocorrendo desde o assassinato de dois jovens na cidade, no dia 15 de fevereiro, em razão de um suposto confronto com policiais. Em meio às notícias sobre as movimentações em torno do caso, chamou a minha atenção o referido posicionamento do apresentador do Balanço Geral, visto que seu vídeo foi repassado entre os meus familiares, os quais estão acostumados a acatar discursos únicos, sem questionamento. Segundo o apresentador, o secretário veio à cidade para mostrar que é o Estado quem manda aqui. E é mesmo?
De acordo com a Lei Orgânica do Município de Londrina, promulgada em 5 de abril de 1990, “Todo o poder do Município emana de seu povo, que o exerce por meio de representantes eleitos diretamente, nos termos da Constituição Federal, da Constituição do Estado e desta Lei Orgânica” (Londrina, 2022, art. 2º). Quem manda ou deveria mandar aqui, e em qualquer cidade brasileira, é o povo, desde a redemocratização do país, estando os representantes eleitos a serviço da população.
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No entanto, sabe-se que a população é diversa e segmentada por classes, cujos interesses são conflitantes e disputados constantemente, enquanto o Estado, historicamente, tende a privilegiar os “segmentos da classe dominante que, a cada momento, estão no poder”, apesar de defender os “princípios de equilíbrio social, econômico e espacial” (Corrêa, 1989, p. 26). Soma-se a isso o fato de que direitos sociais inalienáveis precisaram ser desrespeitados para o desenvolvimento do país, como explica o geógrafo Milton Santos (2012a), visto que os “comandantes” da nação atuaram e atuam colocando o progresso material acima das necessidades humanas, criando as condições de produção adequadas ao crescimento econômico, em termos quantitativos.
Como resultado, complementa o geógrafo, tem-se a figura do consumidor no lugar do cidadão, já que a cidadania é mutilada e permite “manter como pobres milhões de brasileiros” (Santos, 2012a, p. 15), ao passo que as possibilidades de consumo, para alguns, promovem a ascensão social baseada na acumulação, segregando os ascendidos para junto dos seus. Assim, na visão deste autor, não é apenas culpa do modelo econômico nacional a “economização da vida social”, mas da sociedade que aceita contemplar o abandono a que são submetidas essas milhares de pessoas, empobrecidas em vários sentidos. O valor de cada pessoa, inclusive, depende do lugar ocupado por ela – ou que resta a ela – no território (Santos, 2012a), o que nos leva a retomar o caso dos assassinatos em Londrina.
Sistema excludente
As vítimas dos policiais são oriundas de bairros marginalizados da cidade, desvalorizados pelo mercado imobiliário, tidos como favela pela população e estigmatizados pelos londrinenses quanto à violência. Aos seus moradores são negadas vagas de emprego e outras oportunidades em decorrência do lugar onde vivem, afirma uma moradora da favela da Bratac, para a qual o preconceito de quem é de fora impede a aproximação com as pessoas do local, conforme relatos publicados no perfil do Instagram do Coletivo Ciranda da Paz, ainda no dia 18 de fevereiro. Isso acontece porque o sistema que gera e reforça as desigualdades, do qual somos parte, precisa negligenciá-las para continuar existindo.
Nesta perspectiva, no que se refere à ocorrência recente em Londrina, são disseminados comentários, nas redes sociais e nas vivências cotidianas, em favor das narrativas de interlocutores que ao menos conhecem as histórias das famílias vitimadas, a exemplo da notícia midiática citada no início deste artigo. Durante o vídeo do Balanço Geral, o apresentador ainda enfatizou uma hipótese do Secretário de Segurança, a de que há possibilidade de participação de facções criminosas nos protestos. Na verdade, o apresentador muda, de certa forma, a fala do Secretário, apontando que “facções criminosas podem ter ordenado, orquestrado os protestos”, e continua argumentando que é isso o que todo mundo fala na cidade.

Percebe-se, então, uma tentativa de inferiorizar as manifestações, consciente ou não, e de continuar associando a população periférica ao crime, reforçando os estigmas e tornando pejorativas as suas ações. Assim como o discurso oficial defende que cabe ao inquérito policial militar julgar os policiais envolvidos no caso, o que faz o próprio Secretário de Segurança prevenir-se quanto às informações dadas na entrevista ao programa, também não deveríamos, nós, deixar de enquadrar as vítimas e pessoas próximas na “bandidagem”?
Aula de cidadania
Outrossim, lembrando que este não é um caso isolado em Londrina, mas que se repete, a propósito, no estado e no país, penso que tem sido uma aula de cidadania a organização popular na defesa de seus interesses, diante dos abusos de poder, da crueldade que caracteriza essas relações sociais verticais. Enquanto, de modo geral, preferimos fechar os olhos para as injustiças que permeiam as cidades, porque não nos afetam diretamente ou para não nos comprometermos, aqueles que pensam mandar na sociedade continuam agindo como bem entendem, sempre em favor dos que muito possuem, conforme já estudado por Corrêa (1989), Santos (2012a, 2012b) e diversos pesquisadores de variadas áreas. Conforme observado, na verdade, por qualquer um que se mantém atento à realidade.
A passividade que nos caracteriza e impede as manifestações coletivas é incentivada pelas instituições que se impõem de cima para baixo, também pela cultura de massas contrária à conscientização, de caráter homogeneizador, que tenta padronizar comportamentos em meio à diversidade populacional e cultural de cada localidade. Todavia, é com o grupo que “encontramos os meios de multiplicar as forças individuais, mediante a organização” de pessoas inconformadas (Santos, 2012a, p. 103), alargando o campo de luta e a possibilidade de desalienação.

Nada do que é para o povo foi dado gratuitamente na história do Brasil, mas conquistado por meio de luta popular, da organização fundamentada na solidariedade de quem sabe o que é viver nas margens, na cooperação dos que não são tomados pelo individualismo econômico, político, no território, na vida social e individual, característico do nosso tempo (Santos, 2012b). Em se tratando de individualismo, tendo como referência a fala do apresentador mais uma vez, ao final do vídeo, ele conclui que “o povo quer tranquilidade para trabalhar, para voltar para casa”, pois se entende que as manifestações estão a atrapalhar o cotidiano. A que povo ele se refere?
Provavelmente, às pessoas que querem garantir o seu nesta lógica egoísta e tida como “normal”. Àquelas que ficam alheias às decisões concernentes ao destino comum, e que não conseguem olhar para além de seus próprios círculos. De fato, todos queremos tranquilidade, a longo prazo, também para os favelados, o que só será possível depois de muita luta, de posicionamento, de participação, na defesa da maioria da população londrinense, que é sim pobre, ainda que a classe média queira se enganar. Por isso, para finalizar esta reflexão, só posso desejar vida longa e todo apoio às manifestações que iniciaram o ano de 2025, e que a história continue sendo escrita para além de narrativas únicas.
Referências citadas no texto:
LONDRINA. Lei Orgânica do Município de Londrina, de 5 de abril de 1990. Edição atualizada até dezembro de 2022. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www1.cml.pr.gov.br/cml/site/downloads/LOM.pdf. Acesso em: 19 fev. 2025.
CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática S. A., 1989.
SANTOS, Milton. O Espaço do Cidadão. 7. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012a.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 22. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012b.
*Isabela é Arquiteta e Urbanista, mestranda em Geografia pela UEL, membra do projeto BR Cidades Núcleo Londrina.
