Por Beatriz Herkenhoff*

Palavras que fazem parte de uma poesia escrita por minha amiga e expressam como ela está resgatando a vontade de viver e REcomeçar após passar por um processo de depressão.

Na semana passada escrevi com minha amiga a crônica “Quando a depressão nos paralisa, há tempo para ressignificar e recomeçar?” Muitos leitores foram tocados e sensibilizados com a reflexão sobre a depressão, ansiedade, transtorno bipolar e outras doenças psíquicas e emocionais que estão afetando a nossa sociedade.

Destacaria as palavras de uma leitora que lida com a depressão cotidianamente: “Vocês abordaram um problema muito sério e, por incrível que pareça, ainda tem muita gente que diz: ‘olhe para frente e deixe o passado para trás’; ‘entregue tudo nas mãos de Deus e você vai ficar bem’. Esses conselhos são uma tortura para quem está em depressão.” Análise que mostra a gravidade do problema, mas também a diferença que podemos fazer quando ampliamos nossos conhecimentos e nos colocamos ao lado de quem está passando por uma dor profunda.

Como afirma outra leitora: “Ideias para adiar o fim do mundo. Que imagem fantástica. Parabéns a sua amiga e a você pelo texto. Acho que existe um herói dentro de nós e podemos desacelerar o fim da humanidade com gestos cotidianos.”

O número crescente e ascendente de pessoas em depressão, ou que tentam ou executam o suicídio, aumentaram sobremaneira. Por isso, lançar um olhar sobre estratégias de cuidado é uma forma de corresponsabilizar a sociedade para o seu papel diante dessa doença.

Foto: Kristina Tripkovic/Unsplash

Se você conhece uma pessoa com sintomas depressivos, ou indicando estafa emocional e mental, acolha, escute-a, pergunte se ela ou ele precisa de ajuda no desenvolver das atividades diárias. Se você perceber desinteresse em coisas básicas como se alimentar, tomar banho, ir ao mercado ou falta de energia para ir trabalhar, desejo de se isolar e não interagir socialmente, você que está de fora se achegue e tente ajudá-lo ou ajudá-la a desenvolver as atividades sem julgamentos.

Se a pessoa tiver filhos(as), entra um componente de gênero importante que delimita uma carga mental e física extenuante, em relação aos corpos femininos e o acúmulo de funções que as mulheres têm.

Minha amiga afirma: “Com toda essa questão, da sobrecarga materna, e por não ter com quem dividir as multifunções e demandas cotidianas, desencadeou os agravos no meu estado de saúde mental, física e emocional.” Por isso a importância da rede de apoio e afeto que se criou posteriormente à crise aguda da depressão.

Para quem não tiver familiares por perto, eu realço aos amigos(as) de alguém que você saiba que está passando por isso: seja presente para ajudar com a rotina cotidiana dos filhos(as). Se ofereça para aliviar a carga do dia a dia. As vezes pode ser buscar um filho(a) na escola, fazer uma comida, ou estar ali junto, dialogando sobre formas de organizar melhor a vida e os pensamentos.

Oferte AMOR e CUIDADO! Isso já fará diferença na vida da pessoa em sofrimento psíquico. Procure junto com ela ajuda de profissionais também, ou outras terapias integrativas e espaços de socialização, principalmente se ela não tiver em condições de pagar.

Foto: Hannah Busing/Unsplash

Tem muitas universidades que ofertam terapia gratuita, e espaços ao ar livre para socializar e estar na natureza, que certamente ajudará muito. Chame outros amigos/as, familiares e pessoas queridas para compartilhar os caminhos de enfrentamento coletivo das inúmeras questões que podem ter levado a este esgotamento.

Vamos tentar atuar antes que aconteça o extremo. Vamos atuar na prevenção do suicídio e na Promoção do BEM VIVER! E entender que dialogar sobre saúde mental e suicídio e desenhar o enfrentamento a este sofrimento psíquico, é importante e necessário, pois quando nos sentimos amadas(os), quando percebemos a teia de afetos que se forma ao nosso redor, quando acessamos o cuidado genuíno e desinteressado do outro(a), percebemos o valor da vida, e aos poucos se abre um espaço que nem sabíamos mais que tinha dentro de nós, o espaço da ESPERANÇA, o espaço da FORÇA, e o espaço da VONTADE DE VOLTAR A VIVER!

Muitas dores são vivenciadas na solidão do próprio eu. Porque em geral é isso que ocorre. “Encalacramos” as dores da alma, como se elas também não fossem resultado de uma sociedade cada vez mais individualista, e com problemas crônicos que dizem respeito ao aspecto da vida social, e as ausências do estado e de políticas públicas, como moradia digna e de qualidade, água tratada e esgotamento sanitário, trabalho e renda que abarque as demandas reais das famílias, acesso a creche pública, e a alimentação, acesso à saúde e ao lazer.

A rede de apoio e afeto que se formou em torno da minha amiga trouxe concretude às ausências pelas quais ela perpassava.

Minha amiga continua sua jornada buscando a cura por meio da terapia individual, da terapia coletiva com um grupo de autoajuda coordenado pela Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos e Depressão), que são espaços potenciais para olharmos uns para os outros e no compartilhamento das vivências, nos fortalecermos.

Ela também acessa o acompanhamento da equipe multiprofissional do Centro de Saúde Mental, aonde tem sessões semanais com a psicóloga e sempre que necessário algum problema é reportado à psiquiatra da unidade de atendimento deste importante serviço prestado na atenção primária à saúde do SUS.

Além disso a presença permanente da Rede de Apoio e Afetos, que tem sido uma fonte de força, e ajudado a enxergar a potência de que a experiência de viver precisa ter sentido, e ela tem muito mais sentido quando nos atentamos uns aos outros. Quando rememoramos o Amor infinito que há é nós. E o quanto podemos entender que há uma “memória de Fogo” (como elucida Krenak fazendo referência a fala de um amigo), valorizando o que nos sustenta nessa vida.

Desejamos que nossos leitores se engajem também nesse processo coletivo em que o amor, a empatia, o diálogo, o respeito, o silêncio, o tratamento, a aceitação da doença, a esperança, a fé e a solidariedade são os pilares para reerguer, recalcular, refazer, recomeçar a cada amanhecer. Poesia da minha amiga que será compartilhada na próxima crônica.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)