Por Beatriz Herkenhoff*

Estudos comprovam que a convivência intergeracional repercute positivamente na vida das crianças, dos adolescentes e dos idosos.

A troca de experiências entre pessoas de diferentes gerações promove melhora no sistema cognitivo, eleva a autoconfiança e a autonomia, reduz o sentimento de solidão e amplia a sabedoria e a solidariedade.

Amo crianças. Sempre me ensinam algo, e cresço na interação com elas. Por isso, com frequência reservo um tempo em minha agenda para tê-las por perto.

Antes mesmo de ter filho, sempre fiz programações para crianças, levando-as a cinema, teatro, circo, shows, parque e praia, entre outras atividades recreativas.

Também fui voluntária na Casa Viva, um Abrigo de Crianças e Adolescentes em Vitória. Período de muito aprendizado e partilha do amor.

Convivência intergeracional traz benefícios para todos. Foto ilustrativa: William Krause/Unsplash

E, quando meu filho Stefano cresceu, incluí novas crianças ao meu dia a dia. Entre elas, destacaria Beatriz Bezerra Grijó.

Durante dois anos (2017-2018), Bia dormiu em minha casa toda segunda-feira. Dei um apoio aos seus pais que às terças-feiras, saiam cedo para trabalhar.

Foi um período de muita felicidade e intensidade. Marcante para mim e para ela. A vida transformou-se numa aventura sem fim. Bia tinha entre seis e sete anos e me transportava para um mundo de fantasias.

Criamos duas regras: eu não podia mexer no celular e ela não podia ligar a televisão.

A sensação é que entrávamos num livro de história em que os objetos inanimadosganhavam vida, falavam, cantavam e bailavam. Meu apartamento se transformava num palco de teatro, dança e música. Criávamos um mundo de faz de conta, que incluía heróis, bonecos e bonecas. Pinturas, desenhos, argila, sementes e panelas enfeitavam a casa.

Bia comandava as brincadeiras, e eu observava com admiração como ela elaborava as questões do mundo adulto.

Ao dormir, tínhamos uma conversa com Deus, agradecendo pelo dia e pedindo proteção para todos que amamos.

A sabedoria infantil e adulta dialogavam permanentemente.

Sempre fazíamos uma brincadeira que incluía elogios. Momento de reconhecimento e valorização das qualidades, competências e potencialidades de cada uma.

Entretenimentos simples e despretensiosos que possibilitavam o sentimento de inclusão e pertencimento, o fortalecimento de laços afetivos e a transmissão de valores.

Bia está com 12 anos e continua dormindo aqui em casa.

Nesse fim de semana propus que escrevêssemos uma crônica sobre nossas experiências.

Ela disse que teria que voltar na quarta-feira, pois, como na quarta ela tem aula de teatro na escola, sua criatividade desabrocha com força. Contou que a escola está preparando a apresentação de uma peça teatral e ela participa da equipe que fará o cenário.

Fomos conversando, permitindo que as palavras fluíssem num diálogo intermitente, como se fosse uma tempestade mental sobre o tempo em que convivemos semanalmente.

Sobre o amor que nos uniu e a criação que permitiu que fizéssemos a diferença uma na vida da outra.

As perguntas são minhas, as respostas de nós duas.

O que é criar?

Criar liberta a mente, permite voar, dançar, cantar, sonhar, fantasiar, encantar.

E a dança?

A dança é uma arte. A arte de se expressar, soltar o corpo, tornar-se leve. Permitir que os movimentos fluam.

Soltar o freio, as amarras, aquilo que prende e aprisiona. A dança nos transporta para outro mundo, em que o corpo fala.

A dança aguça os sentidos, a audição, a visão e o tato.

A dança equilibra, desperta, anima, alegra e acalma.

A dança dialoga com a música.

A música amplia a criação, a harmonia e o desejo de ser.

– E o desenho?

O desenho é uma criação muito legal. Reproduz a forma como vemos o mundo.

Contamos histórias com os desenhos.

Fazemos mosaicos, misturamos cores, damos vida aos personagens.

Após esse diálogo tão gostoso com Bia, convidamos para que vocês dancem, cantem, desenhem, bordem e criem espaços para a convivência intergeracional.

Quais os seus aprendizados como avó, como mãe e como tia? E como professora de escola infantil? Vocês visitam abrigos de crianças e adolescentes? E hospitais infantis?

Gratidão a todas crianças, adolescentes e jovens que passaram por mim e me ensinaram a amar.

Gratidão às crianças e adolescentes dos Abrigos de Vitória. Quando pensei que estava dando amor, descobri que estava recebendo muito mais.

Gratidão especial a Bia que desde o seu nascimento deu um sentido especial à minha existência.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)