O último dia do melancólico mês de maio me deu fome e pensando que um caldo quente poderia ajudar neste banzo, chequei mais cedo no restaurante de todo dia.
Na mesa ao lado dois senhores com seus 80 anos conversavam animados e não sem querer, prestei atenção no bate-papo.
Eles falavam de mulheres. De mulheres independentes, de mulheres solteiras, de mães solos, de mulheres gays. Foram rápidos no diagnóstico: “Elas são mal-amadas!”
Quieta no meu canto, a primeira sensação que tive foi de raiva e meu rosto esquentou mais do que o caldo.
Como os homens chegaram a conclusões de que mulheres “mal-amadas” são as que não têm um homem a seu lado? Que basta um macho viril para que nós, mulheres, nos tornemos pessoas felizes? Que a nossa felicidade se encontra em um mero gozo do homem, que na maioria das vezes, nem nosso gozo é? E quando estava quase engrossando o caldo, recebi a mensagem de um amigo.
Era um vídeo de uma mulher de 80 e tantos anos, elegante, bem-vestida, andando pelas ruas da cidade de Patos de Minas (MG), com seu sapato rosa-pink salto agulha.

Em silêncio, me dirijo à mesa dos senhores de 80 e tantos anos e lhes digo: “Olhem uma mulher bem-amada!”.
Eles riram amarelo.
Eu ri rosa-choque.
*Odette Castro é artista, escritora, ativista social. Através da sua experiência com a dor e o luto, mostra que é possível seguir em frente e ser feliz. Já foi servidora pública e também empresária. Hoje é cronista do cotidiano, criadora dos projetos “Uma flor por uma dor” e “Fale certo”, autora de “Rubi”, ativista de inclusão social, mãe e avó
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