Associação Defensora dos Animais (ADA) tem previsão de fechar as portas em dezembro por falta apoio

Texto: Cecília França
Entrevista e fotos: Filipe Barbosa

Em 2012, Anne Moraes resgatou um gato da rua. Pouco tempo depois já estava com quase 30 animais, entre cães e gatos, em sua casa na zona Norte de Londrina. Precisou buscar um lugar isolado, uma chácara onde pudesse cuidar dos animais sem incomodar a vizinhança. Assim nasceu a ADA Londrina – Associação Defensora dos Animais.

“Vim para cá em 2014 porque estava incomodando os vizinhos lá no Vivi Xavier. Aqui não tinha nenhuma casa, nenhuma chácara, era isolado” relembra a protetora. Hoje são cerca de 800 animais, entre cães e gatos, atendidos pela Organização Não Governamental (ONG), que planeja fechar as portas em dezembro próximo.

“Sou protetora independente, está tudo superlotado. Foram 10 anos, quase 11, de dedicação, onde eu vi que eu só enxuguei gelo”, lamenta Anne. A ADA é a única associação de defesa dos animais que oferece abrigo em Londrina e região. Nenhuma cidade próxima conta com canil municipal.

“A gente não atende só Londrina, mas a região. Eu tinha um cachorro chamado Ibiporã, porque ele foi resgatado em Ibiporã; tinha um que chamava Cambé, porque foi resgatado em Cambé; tive uma cachorra que chamava Amoreira, porque ela veio de São Sebastião da Amoreira; um gato chamado Bandeirantes, que veio de lá. A ADA é referência”, comenta.

Sede da ADA, na região da Warta, em Londrina/Filipe Barbosa

A protetora faz apelos diários nas redes sociais para tentar cobrir os custos da ONG, que gasta R$ 30 mil mensais somente com folha de pagamento. Da prefeitura, recebe 1,5 tonelada de ração por mês. Ela lamenta que muitas pessoas não tenham noção de como o trabalho é desenvolvido, acreditando que todos ali são voluntários.

“A gente começa a trabalhar às 6h30, limpando, trocando a água nos potes. Eu tinha uma gerente, hoje não tenho. Eu sou gerente, eu que administro todos os funcionários. As pessoas acham que recebo dinheiro da prefeitura, que recebo suporte, que recebo dinheiro do Estado. Elas têm uma visão errada da ONG; têm uma visão de que a ADA é depósito de animais, que tem veterinário gratuito”, explica.

Anne se diz cansada da falta de apoio diante da responsabilidade imensa que é garantir a vida de centenas de animais.

“Eu estou cansada, muito exausta, física e emocionalmente, de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias na semana, 365 dias no ano. Imagina a responsabilidade que eu tenho hoje, de alimentar 800 animais, de pagar um aluguel de R$ 7,5 mil, uma folha de pagamento de R$ 30 mil; responsável pela manutenção de cada canil, se quebrar; pelo animal que fica doente…Esse é o meu trabalho e é cansativo, exaustivo”, declara.

Sobre as condições dos abrigos Anne diz que faz o melhor que pode com as condições que tem. “Como diz o CRMV (Conselho Regional de Medicina Veterinária) não existe maus-tratos intencionais, mas as condições são precárias. É triste, mas é o que eu pude fazer com que eu consegui sem a ajuda da Prefeitura, sem apoio fiscal, sem o apoio do Estado e do Governo Federal. Foi o que eu consegui construir para ajudar os animais, porque eles não tinham nada”.

A protetora espera conseguir doar grande parte dos animais antes do fechamento da ONG. “Eu não vou deixar nenhum animal na rua, a gente vai doar eles e eu pretendo encerrar a instituição. Eu não vou mais dar suporte para ninguém, eu vou descansar minha cabeça”, garante.

Quem quiser contribuir com o trabalho da ADA tem duas opções: PIX Santander CNPJ 19.705.339/0001-11 ou PIX Itaú e-mail pix@adalondrina.org.br

Abandonos são frequentes

No início Anne costumava promover feiras de adoção de animais. Mas voltava com mais cães e gatos do que havia levado, já que as pessoas viam na feira uma oportunidade de abandono.

“Fiz uma feira de adoção e uma mulher abandonou 18 gatos. Tive que levar para minha casa. Foi quando eu desisti de feira de adoção”, explica. Infelizmente, a prática do abandono segue fazendo parte da rotina da ADA. Superlotada, a ONG não tem condições de acolher mais animais.

“O povo vem, eu falo que não posso mais pegar e a pessoa acaba abandonando no portão”, lamenta a protetora. E relembra uma situação recente.

“Eu fechei a ONG por volta de uma hora no domingo e entrei para tomar banho. Escutei os latidos, pensei que era briga, saí e olhei na câmera. Vi que a mulher chegou, parou o carro ali e deixou uma caixa com oito filhotes, como se tivesse feito uma boa ação. Eu saí, peguei a caixa, os cachorrinhos puro carrapato, aquela barriguinha de verme. Lembro que eu falei assim ‘O que eu faço agora? Não posso mais pegar, mas não posso dar fim nesses animais. Quem vai pegar esses oito cachorros?’ Não existe em Londrina ninguém que faça isso”.

“A gente precisava de um administrador, de um financeiro, de um marketing, de um centro de triagem. É muita coisa para uma pessoa que não tem suporte nenhum e chega animal todo dia no meu portão, porque a ONG é referência para uma cidade que não tem nada”, completa.

Também é possível contribuir com a ADA doando ração nos seguintes pontos:

‘Castramóvel é um braço da causa animal’

Desde a criação do castramóvel em Londrina, cerca de 30 mil animais já foram esterilizados. Na opinião de Anne, este pode ser um “braço” da causa animal, mas não pode ser encarado como uma solução definitiva.

“Castramóvel é caro e eu acho que poderia usar esse dinheiro nas clínicas em toda a cidade, na  zona sul, zona norte. Fazer o cadastro das clínicas e aí fazer as castrações. Porque tem que fazer o pré-operatório também e o animal poderia ficar internado para pós-operatório, para recuperação. Ele precisa de três, quatro dias para recuperar para os pontos não abrirem. Então assim, o castramóvel não tem esse tom, você termina de castrar o animal e ele já sai, meio que anestesiado”, afirma.

“Eu já resgatei animal que passou por castração e estava sangrando, aí eu tive que dar o suporte, o animal estava sofrendo. Ele passou pela veterinária, a doutora Maísa, nossa responsável técnica, que deu suporte porque ele tinha uma doença e ele não podia operar”, conta.

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