Para ativistas, abandono e falta de apoio da família, da sociedade e do Estado leva a situações de desespero
Cecília França
Foto em destaque: Jenna Christina/Unsplash
No dia 9 de janeiro veio a público a notícia chocante de uma mãe e um filho encontrados mortos no apartamento em que moravam, em Águas Claras, no Distrito Federal. A mulher, de 63 anos, teria atirado contra o filho, de 27, e, depois, tirado a própria vida. O rapaz tinha Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a mulher sofria de depressão.
As ativistas Odette Castro e Saraí Brito, que já assinaram colunas na Rede Lume, comentaram o caso com destaque para a solidão da mãe atípica, invisibilizadas pela sociedade. Em sua postagem nas redes sociais Odette comenta:
“A notícia é chocante e triste, mas não rara. A solidão da mãe atípica existe e está muito perto da família, do Estado e da sociedade. O índice de pais que abandonam as mulheres depois do nascimento de filhos e filhas com deficiência beira a 90%”.
Assista: Live “A solidão das mães atípicas”
Sobre o índice de abandono, Odette explica à Lume:
“Não tem uma pesquisa direta de qual o nível de abandono. Por exemplo, tem uma pesquisa de um instituto aqui de Belo Horizonte, de crianças com síndrome de Down. Fizeram uma específica só para crianças com a síndrome e deu 78%. Tem uma específica só de criança com paralisia cerebral, que deu 97%. E tem uma outra de autistas e doenças raras, que deu 73%. Então é um apanhado, em torno de 90%. Na paralisia cerebral o índice é muito maior porque a deficiência é mais pesada. De crianças abandonadas por pai e mãe chega a uns 30%”, detalha.
Mãe de Beatriz, que tinha Síndrome de Rubistein-Taibi e faleceu em 2018, Odette é fundadora do projeto Linguagem Inclusiva, que luta contra o capacitismo por meio da linguagem.

Ainda sobre a solidão de mães atípicas e mães solo, Odette ressalta a quantidade de conselhos vindos de mães típica ou com maridos presentes, ou seja, que não entendem as peculiaridades de uma criança com deficiência.
Ela, por exemplo, diz ter ouvido mais de uma vez “Deixa na porta dele!”. Ele seria o pai da criança, que não participava da criação.
“Eu digo, sem a menor chance de erro, que é um dos conselhos mais errados de se dar”, diz a ativista. E completa: “Então, meu conselho é: pense antes de aconselhar uma mãe a fazer aquilo que você não sabe.”
Leia também: A luta de um deve ser a luta de todos
Sociedade precisa olhar para mãe atípica
Saraí Brito, fundadora da Autimizar, entidade de apoio a mães e famílias de autistas em Londrina, destacou nas redes como ninguém olhou para a mãe de forma a impedir a tragédia em Águas Claras. Conforme relatos em reportagens, ela estaria em profunda depressão.

“A falta de rede de apoio varia muito de acordo com a realidade de cada mãe atípica. Umas tem parceiro, familiares, mas não encontram rede de apoio nas terapias pelo SUS, na escola, que sempre está despreparada. Sem contar as mães atípicas que são mães solo, sem familiar em uma cidade, sem trabalho ou renda alguma, sem terapias pelo sistema, etc”, detalha a ativista.
Para Saraí é urgente a oferta de terapias e outros serviços a crianças com deficiência a fim de amparar essas mães. Ela aponta as principais demandas em Londrina.
“Escolas com professores de apoio a todos os alunos que têm deficiência e precisam desse apoio em sala de aula, terapias (muitas estão há meses e até anos aguardando a fila de espera das terapias pelo sistema público), centro de atendimento (em especial psicológico) especializado para atender as pessoas com deficiência e as mães”.
“Se as UBS (Unidades Básicas de Saúde), Caps (Centro de Atenção Psicossocial), escolas, Cras (Centro de Referência em Assistência Social), Conselho Tutelar, Clínicas, igrejas e familiares estivessem abertos e receptivos a olhar e ter atenção de cuidado com essa mãe atípica, não haveria invisibilidade, nem pelo sistema público, nem pelo humanitário”, finaliza.
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
