A maternidade é um possível futuro para as mulheres, mas, acima de tudo, a maternidade é ancestral!
Lua Gomes, especial para a Rede Lume
Fotos: Arquivo Pessoal
No último episódio da série sobre a maternidade solo, concluo dizendo que a maternidade é um possível futuro para as mulheres. Mas que, acima de tudo, a maternidade é ancestral!
Como fiquei com a missão de finalizar a série contando a minha percepção, dedico esse momento não só à minha história, pois essa não haveria enredo sem elas…as minhas mulheres. Ancestrais e descendentes: pois a filosofia africana mora em nós e o futuro é permeado de passado.
Por ser uma mulher preta mãe-solo-média à moda brasileira, também tive eu atravessamentos na minha história que poderiam me descolar da “maternidade romântica” com muita facilidade.
Mas o que fica ao considerar a premissa dessa ancestralidade e por todo o processo cíclico do que é a história de cada um. Ancestralidade que vem de uma matriz afro-indígena, caros leitores, que compõe meu existir; pauta e baliza fundamentalmente minha existência.

À minha prole: as 3 deusas que ressignificaram minha motivação de viver. Minhas mulheres foram capazes de forjar muito do que eu sou e do que eu pretendo deixar como legado.
Sou mãe de Cecília, Isis e Heloísa
Sou Lua Gomes, mulher preta rumo aos 40, mãe da Cecília (15), da Isis (13) e da Heloísa (11); neta de Rozilda, filha de Edinéa, irmã de Sol e Mar, sobrinha de mulheres tão potentes quanto cada uma das minhas raízes: Roziara (minha madrinha amada), Edinha, Morena, Rozeane, Daise: todas parte do construto da fortaleza que hoje preciso ser para ser…
Venho de uma de uma família onde o Dia das Mães era disputado (existia uma “competição saudável” para saber quem receberia primeiro o “feliz Dia das Mães”: se minha mãe, avó ou madrinha). Divertido lembrar essa contenda que a minha avó gostava de criar.

Demorei a compreender, mas leio agora que é reflexo do peso e valor que atribuía à maternidade. Para cada uma de nós, ela deixou um amor muito potente e a imponência sobre o que era ser mulher nas nossas relações. E, sobretudo, quem e como se marcar o papel de mãe no coração e no rumo de alguém.
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Há muito orgulho em minhas raízes. E poder transferir o aprendizado de cada um dos momentos difíceis que eu passei; cada lágrima derramada pelas cobranças sociais e familiares; seja pela maternidade solo; das expectativas que se depositam nos filhos; do peso e da responsabilidade que se tem numa sociedade tão injusta com as mulheres, nos impondo lugar de subalternidade e muitas vezes de escravização, animalização, expropriação do tempo; uma necessidade de entrega infinda da força de trabalho; de uma necessidade de amor, entrega e servidão permanentes a todas as pessoas as quais os nossos braços podem alcançar; aos homens da nossa existência; aos filhos que precisam ser amparados e blindados para que não tornem-se lágrimas, estatísticas das mazelas sociais.
Quase nunca para nós sobram braços de afago porque a gente não pode cair. Minha mãe repetia sempre uma frase que jamais vou esquecer: “Mulher não pode ter frescura: tem que ter amor e ternura”. Não podemos descansar o escudo jamais; não nos é permitido fragilidade, porque a necessidade diuturna da mãe solo é ser a guerreira. E viver na guerra também cansa, meus amigos…
“Às minhas filhas dedico cada uma das batalhas vencidas.
A elas também cada uma das derrotas que trouxe aprendizados.
O objetivo mais do que nunca hoje é construir um legado de orgulho, fé e coragem.
Para que cada uma das batalhas das quais estive
Amenize para elas o fardo de existir.
Feliz mês das Mães.
Feliz Mãe, feliz!”
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