Por: Vinícius Fonseca*
O carnaval passou e como diz a máxima nacional, o ano do Brasil já vai começar. Pois bem, começarei o “ano” falando justamente de coisas que ocorreram durante a festa mais popular em terras tupiniquins.
O primeiro caso que trago aqui é o da passista pela escola Viradouro, Viviane de Assis, pessoa com nanismo e que foi vítima de capacitismo recreativo por parte de um suposto humorista, ao qual não citarei para não dar espaço. Saiba um pouco mais sobre o ocorrido e veja a opinião de Odette Castro no link a seguir:
https://www.instagram.com/p/DG_YGrrSS32/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Antes de dar o meu posicionamento gostaria de dizer que como uma pessoa bem-humorada, eu me tremo todo quando ouço discursos sobre o limite do humor. Para mim são duas coisas que limitam o humor, a graça da história contada e o palco. Passou disso não é mais humor e pode ganhar contornos de crime.
A graça porque precisa fazer os outros rirem para ser humor e o palco porque o que se faz no palco é trabalho. Quer dizer que se meu texto for capacitista e eu dizê-lo no palco está tudo bem para você, Vinícius? Mais ou menos. Como uma pessoa com deficiência (PcD) eu gostaria de ir a um show de comédia e me sentir incluído se o comediante brincasse comigo, mesmo que eventualmente a minha limitação fosse tema de uma ou outra piada.
Ele está no palco e é o condutor do riso, eu paguei para estar ali e rir das coisas. Eu aceitei brincar e não vejo problemas em ser parte da brincadeira. Não é o que acontece no caso de Viviane. O comediante em questão usou as redes para fazer piadas de uma pessoa que é passista da escola, há 17 anos. Ou seja, uma profissional talentosa e que se dedica ao carnaval há tempos.
Esse tipo de “gracinha” para conseguir likes, sem o consentimento da pessoa envolvida e que ainda diminui os seus esforços não são humor, são apenas ofensas desmedidas e gratuitas.
Outra coisa que aconteceu no carnaval, essa um pouco mais positiva, foi a vitória de Ainda Estou Aqui, na categoria de melhor filme internacional. Uma vitória de todos os brasileiros, mas principalmente de nós PcDs, afinal o filme é inspirado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, jornalista e escritor com deficiência.
Eu sei que nas últimas colunas tenho falado muito dele e que me lê com certa frequência já deve estar desconfiado que me falta assunto, mas a verdade é que esse é um feito extraordinário e mostra que nós pessoas com deficiência podemos chegar a qualquer lugar.
Fiquei tão empolgado com o feito que fui procurar uma lista de escritores que se declaram PcDs para saber quantos eu já havia lido e me deparei com um fato que aguçou a minha autocrítica, exceção feita ao Paiva, não conhecia nenhum. Compartilho a seguir um link com os nomes que coloquei entre as minhas próximas leituras:
https://iparadigma.org.br/celebre-o-dia-do-escritor-conhecendo-alguns-autores-com-deficiencia/
Esses dois momentos me trouxeram algumas reflexões e gostaria de compartilhar com vocês. Primeiramente, nem todo lugar é espaço para se dizer qualquer coisa, por mais engraçada que possa parecer. A graça depende muito de uma série de fatores, sua vivência e a vivência de quem ouve a piada deve sempre ser levada em conta, afinal sorrir de algo que é capaz de machucar um outro alguém nunca será um bom sorriso.
Uma outra reflexão é de que as pessoas com deficiência estão por aí. Somos a maior minoria do mundo e não vamos retroceder em nossas conquistas. Todo espaço pode ser ocupado, inclusive os espaços artísticos, seja com um escritor que acaba ajudando o Brasil a ganhar o Oscar, seja com uma passista desfilando seu talento na avenida.
E uma terceira reflexão, essa mais pessoal, mas gostaria de estender o convite a vocês: precisamos ler mais, sobretudo autores brasileiros. E que tal começar por autores com deficiência?
Bom 2025, agora de verdade!
*Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.
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