Diante de baixos índices gerais de vacinação, infectologista do setor pediátrico do HU, Jaqueline Dario Capobiango, reforça importância e segurança das vacinas

Cecília França

O Ministério da Saúde prorrogou a campanha de vacinação contra a poliomielite e multivacinação até o dia 30 de setembro, em virtude dos baixos índices de cobertura. Os últimos dados divulgados mostram que menos de 40% do público-alvo (crianças até 4 anos) havia sido atingido. Em Londrina alcançou-se 45% nesta semana. Por que pais e responsáveis não têm levado seus filhos para vacinar?

O índice de cobertura vacinal vem caindo há alguns anos e atingiu seu menor nível em 2021 no Brasil, país que tem um Plano Nacional de Imunizações (PNI) referência mundial. O chamado movimento anti-vacina tem crescido em todo o mundo e já vemos o reaparecimento de doenças até então extintas, mas nunca se havia vivenciado um ataque tão severo à vacinação como durante a pandemia da covid-19.

Afinal, existe algum respaldo científico sobre riscos, sequelas graves ou óbitos causados por vacinas? Qual a importância da vacinação para a saúde de quem recebe e do coletivo?

“Se a gente olhar os dados, na década de 1950 você tinha 234 mil pessoas com poliomielite nas Américas; em 2019 o número foi desprezível. Você tem alguns relatos de casos de poliomielite na África, no Paquistão e no Afeganistão. É uma doença considerada eliminada e isso foi graças à vacina. Ninguém tem dúvida.”, enfatiza a infectologista Jaqueline Dario Capobiango, que atua no setor de doenças infecciosas pediátrico do Hospital Universitário (HU) de Londrina.

Nessa entrevista, a infectologista comenta como as vacinas revolucionaram a história da humanidade e pede confiança da população. Confira abaixo.

Lume: Como as vacinas agem no organismo das pessoas?

Jaqueline Capobiango: Para a gente entender isso tem que entender do que elas são constituídas. Na vacina você tem um antígeno, que é uma parte da vacina que vai estimular seu sistema imunológico a produzir defesa contra aquele microorganismo específico. Além disso você tem conservantes, adjuvantes, outras substâncias que vão evitar que o produto tenha contaminação, que mantém a estabilidade do produto, que facilita a absorção do produto administrado. Então para cada tipo de vacina você tem uma composição específica. Você tem vacina de vírus vivo atenuado, de bactérias mortas, de bactéria atenuada, vacina a base de proteína, vacina agora com vetor viral, toxóides, que são proteinas; então tem vários tipos de antígenos. Por quê? Porque existem pesquisas que foram realizadas com diferentes antígenos para ver a resposta a esse tipo de vacina. Então, após todas as etapas de um estudo consegue-se, para cada tipo de doença, um modelo de vacina mais adequado. Depois que você tem a produção da vacina, de forma regulamentada, segura, é aprovada pelos órgãos responsaveis e aí, então, pode ser utilizada para a população. Para que tudo isso aconteça existe bastante dedicação da ciência, dos pesquisadores, permitindo que você realmente acredite na vacina. É uma coisa já consagrada. As vacinas mudaram a história da humanidade. Depois do controle da água, da psosibilidade da gente ter uma melhor qualidade da água, a vacina foi o maior benefício que a humanidade pode ter tido.

Na vacinação contra a covid-19 um dos grandes pontos de questionamentos de quem não confiava na vacina era justamente o tempo de desenvolvimento. Diziam que as vacinas foram feitas muito rápido. Isso faz algum sentido?

Já havia pesquisas em andamento para coronavírus, já existia uma plataforma e só foi mudado para o SARS-CoV-2. Então não saiu do nada. Não existe essa preocupação de qua a vacina vai causar mal. Pelo contrário. Se a gente olhar os dados, na década de 1950 você tinha 234 mil pessoas com poliomielite nas Américas; em 2019 o número foi desprezível. Você tem alguns relatos de casos de poliomielite na África, no Paquistão e no Afeganistão. É uma doença considerada eliminada e isso foi graças à vacina. Ninguém tem dúvida. E é um vírus vivo. O próprio vírus passa por cultivo, é atenuado, diminui a virulência, o que faz com que o vírus fique ainda capaz de produzir resposta, mas não produz doença. Outro exemplo, sarampo: na década de 1980 a gente tinha 1 milhão de casos de sarampo nas Américas, entre 2014 e 2019 foram 20 mil casos. Isso aconteceu graças à vacinação. Rubéola foi uma doença controlada e depois eliminada. Tétano neonatal a gente não vê mais, graças à vacinação das crianças, a manutenção a cada 10 anos, a vacinação das gestantes. Então são doenças que a gente claramente sabe que foi o impacto da vacinação.

Há também uma difusão de informações inverídicas, sem fundo científico, que pode colaborar?

Infelizmente as pessoas hoje estão expostas a tantas coisas que têm capacidade de dar reação alérgica, de causar algum malefício, e aí, tomam uma dose de vacina, que tem uma quantidade tão pequena de antígeno e que vai dar uma resposta tão boa pro sistema imunológico, vai proteger contra doenças gravíssimas, que matam (e acreditam que a vacina fez mal). Com a pólio, a chance de você morrer pode chegar a 20%. Então uma vacina que a gente vê que teve um impacto enoerme nas Américas, no mundo…é um absurdo não confiar na vacina.

Considerando o que eu falei para você, da composição, que tem todo um controle, estudo, não há motivo para ter medo de vacina. Não entendo por que existe ainda pessoas que aderem a esse movimento antivacina. Talvez seja porque não viram essas doenças.

Existe um índice de sequelas ou de reações muito graves a vacinas?

Não, é outra coisa que as pessoas têm que desmistificar. Uma das principais reações da vacina são as reações alérgicas. Mas como eu disse, a quantidade de substâncias que tem na composição da vacina é tão pequena e tão específica que você pode ter uma reação alérgica para algum daqueles componentes e você não sabia, por exemplo, determinados antibióticos. Tem vacinas que têm antibióticos, como neomicina. Tem pessoas que nunca usaram antibiótico dessa categoria e não sabem que têm reação alergica. Aí tomam uma vacina e faz uma reação por esse componente. No futuro, quando vai tomar antibiótico lembra que já teve reação. Então você vê que existe aí uma interpretação, muitas vezes equivocada, do que está dando reação alérgica. A pessoa come uma bolacha doce, cheia de conservantes e corantes, tem uma reação alérgica, muitas vezes grave, e não é importante; agora, uma reação alérgica leve que a vacina causa, e que pode ser medicada, acaba dando uma repercussão inexplicável. Mas são muito pouco frequentes. Outra coisa importante a ser comentada: óbito por vacina é raríssimo, raríssimo. As vacinas são aplicadas em ambientes de saúde, então as reações costumam ser muito leves e as excepcionais já são medicadas. Até você confirmar que um óbito foi causado mesmo pela vacina é dificil dizer. Na maior parte das investigações você tem outros fatores associados.

Tem que tomar muito cuidado com a associação das reações à vacina. Essa associação temporal ela não quer dizer causal. Às vezes uma reação adversa põe abaixo o benefício que isso causa para milhares de pessoas. As vacinas são muito seguras, elas salvam vidas, e não matam, se matassem a gente não tinha esses números de redução de casos.

A gente viveu uma situação muito boa no Brasil, durante muitos anos, graças à nossa boa cobertura vacinal. E a gente está muito preocupada agora que muita gente deixou de vacinar com a pandemia, por “n” motivos, e já estão começando a aumentar emergências de doenças que estavam controladas.

Sequelas a longo prazo, como cardiopatias, em relação à vacina da covid, têm fundamento científico?

Sabe qual a grande dificuldade da covid? Separar em que momento a pessoa começou a ter problema cardíaco. A gente sabe que a covid causa comprometimento miocárdico, pericárdico, em coronárias, é uma doença sistêmica, com muita sequela a longo prazo, e muita gente acabou fazendo quadro sem diagnóstico de comprometimento cardíaco. Aí toma a vacina e vai dizer que foi por causa dela. Mas não é, é porque já teve a doença covid. Então o comprometimento de miocardite pós vacina é raro, associado a um tipo de vacina específica, de RNA, e leve. Na primeira semana os pacientes já revertem os sintomas com um tratamento simples, que é o antiinflamatório. É muito diferente da miocardite que acontece pós doença.

Esses casos de miocardite leve que acontecerem foram em adolescente que comprovadamente não tinham tido a doençae foram muito poucos. E foi por associação temporal, porque não confirmou outra causa. Então, talvez, daqui a algum tempo a gente diga “nossa, não tinha nada a ver com a vacina”.

Durante a pandemia ouvimos muito que a vacinação é uma estratégia de saúde coletiva. Por que quando eu não me vacino eu coloco o outro em risco?

Porque quando eu adoeço eu estou expondo as outras pessoas que ainda não receberam esquema completo de vacinação a adoecerem; estou colocando (em risco) outras pessoas, que por algum motivo ainda não completaram a vacinação ou não puderam tomar a vacina – ou até que não responderam à vacina, porque existe uma certa frequência, felizmente pequena, de falha vacinal. Se eu não ligo para mim, se eu acho que eu não vou adoecer – o que é uma ingenuidade – é uma falta de responsabilidade, de consciência coletiva sobre o que pode acontecer com aqueles que estão próximos.

A senhora acha que a pandemia em si, por termos ficado impedidos de circular, também contribuiu para essa baixa na cobertura vacinal, e não apenas uma recusa às vacinas?

Até mesmo a disponibilização de vacinas nas UBS foi uma coisa dificultada, porque teve que deixar toda a equipe de saúde voltada para o atendimento das pessoas e tratamento de covid. Então houve mesmo falta de recursos humanos, falta de estrutura suficiente para poder manter toda a qualidade de serviço de saúde na rede. Agora vai demorar um tempinho para colocar todas as carteiras em dia, mas eu acho que as pessoas atentando nessa questão que está aumentando o número casos de pólio no mundo, de sarampo, que agora os postos estão abertos, que está voltando a rotina, tem que vacinar e deixar de ter medo à toa.

Por que algumas vacinas a gente toma uma vez na vida, outras a gente toma a cada 10 anos, covid estamos na quarta dose…

Tem vacinas que a gente chama de microorganismos inteiros, vivos, que eles produzem um tipo de imunidade de célula mais duradoura, então, basta uma dose para você ter reconhecimento desse antígeno, em caso de re-exposição, durante muitos anos. É o caso da febre amarela. Outras vacinas são produzidas de proteínas, que é o caso das vacinas de covid, difteria, tétano, influenza. Essas vacinas são partículas que não são capazes de estimular os linfócitos (células de defesa) da mesma maneira, elas causam uma imunidade mais temporária. Então você tem que fazer reforços para ficar estimulando o seu sistema imunológico a reconhecer. Tudo isso a gente só foi sabendo por estudos.

Da covid ainda não dá para a gente precisar isso?

Não, a gente não sabe se vai ser reforço anual, duas vezes por ano, a gente não sabe. Vamos aprendendo no decorrer do tempo.

Como é para a senhora, que trabalha nessa área, estar vivenciando uma doença nova. Instiga vocês, apesar de toda a tristeza que foi?

Apesar de toda essa desgraça, eu digo que é uma experiencia que reforça para mim a importância que tem uma vacina que proteja de doença infectocontagiosa. Só reforça isso, a necessidade de você ter vacina, porque eu não vivi as grandes epidemias anteriores, como a de pólio. Sei das sequelas, mas não vivi na década de 1950. Mas eu vejo que, cada vez mais, a gente tem que reforçar que são as vacinas que vão resolver esse problema. Porque as pessoas migram, você tem facilidade de transporte; uma doença que está lá na Afria hoje, amanhã já está no Brasil. Uma doença que está na Ásia, no outro dia está na América do Norte. E o empobrecimento, os bolsões de miséria, são situações que estão favorecendo que as doenças infectocontagiosas voltem a aumentar. Então viver isso agora só reforça para mim a importância de que você tem que ter sempre desenvolvimento de vacina e tentar proteger a população.

A vacina, se ela não impede a doença ela atenua. Então tem que ser visto com esse olhar.

O que a senhora diria para quem ainda não vacinou seu filho, que ainda tem receio. Por que isso é importante como estratégia de saúde pública?

Eu diria que é para a pessoa tentar se colocar na situação daqueles que, infelizmente, estão num leito de hospital ou estão com uma sequela para o resto da vida, ou aqueles cujos parentes faleceram por uma doença que poderia ter sido evitada. E isso não escolhe cor, raça, religião, gênero, nada. As doenças infectocontagiosas podem atingir qualquer pessoa. E todos têm o direito de estarem protegidos. Se você não se proteger você vai estar riscando não só a sua vida, mas também a daqueles que estão ao seu redor, muitas vezes de entes queridos.

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