Por Beatriz Herkenhoff*
Fotos: Carlos Monteiro
Amo viajar! A viagem transporta-me para outros mundos e lugares. Tira-me da zona de conforto. Abre-me para novos sentidos, sensações, percepções e sabores. Amplia horizontes e olhares.
Volto tão entusiasmada e renovada de uma viagem, que um amigo me disse certa vez: “Você sempre fala que foi a melhor viagem da sua vida”. Ri com minha intensidade e procurei identificar se todas as viagens foram iguais.
Como tenho uma relação visceral com a natureza, diria que algumas viagens ocuparam um lugar especial em minha memória afetiva e corporal. Principalmente aquelas que me colocaram em contato permanente com a natureza, com seus mares, praias paradisíacas, ilhas, lagos, rochas exuberantes, cachoeiras, rios, vales, montanhas, florestas, cânions, trilhas, manguezais, areias coloridas, grutas, pôr e nascer do sol inesquecíveis, entre tantas belezas.
Considero que algumas viagens foram mais marcantes pela harmonia e sintonia que vivi com naturezas impactantes: Tailândia, Chapada Diamantina (BA), Salvador (BA), Natal (RN), litoral e montanhas do Espírito Santo, Caribe venezuelano e colombiano, Suíça e Costa Amalfitana (Itália).
Quando conheço um lugar, gosto de observar os costumes, as crenças, os valores, a cultura e a arte. Visitar museus, igrejas e ruínas. Conversar com os moradores e ouvir suas histórias.
Podemos viajar freneticamente, desatentos a tudo que acontece ao nosso redor ou podemos viajar serenamente, dialogando com cada acontecimento e descoberta. Com o novo que se descortina de forma surpreendente.
A viagem que nos transforma e vira do avesso não precisa ser necessariamente para lugares distantes. Podemos viajar em nosso próprio estado e viver uma experiência inusitada de crescimento, transformação e aprendizagem.
Revendo minhas experiências, nada foi tão forte e arrebatador do que quando me propus a realizar uma viagem interior. Quando encontrei pedaços de mim que estavam escondidos, reprimidos e bloqueados.
Procuro fazer esse mergulho por meio da meditação, da oração, do silêncio, do relaxamento, da contemplação da natureza, da caminhada e da terapia.
Nesses momentos, fico de frente com minhas contradições: com minha beleza e feiura, capacidade de amar e de sentir raiva, bondade e maldade, generosidade e egoísmo, alegrias e tristezas.
Faço a experiência de sentir o amor de um Deus que habita em mim e que preenche todos os vazios, dando um novo sentido para a minha existência.
Quando me fecho para o meu próprio eu, não consigo perceber que a luz pode ser fortalecida e as sombras enfraquecidas. Não espanto os fantasmas que insistem em tornar a realidade mais cruel do que ela já é.
Essa é uma das aventuras mais desafiantes: a viagem que nos leva ao encontro de nós mesmos.
Quantas mágoas, decepções, frustrações e ressentimentos jogamos para debaixo do tapete ao longo de nossa vida.
Quantos amores mal vividos ou bem vividos, mas que foram interrompidos. Quantos fardos carregamos e que vão influenciando nosso jeito de ser.
Nessa jornada interior, podemos descartar os lixos, reduzir as cargas, desapegar daquilo que preenche vazios de forma superficial. Reduzir o excesso de roupas, de sapatos, de objetos que se transformam em obstáculos para um encontro mais profundo.
Quantas vezes queremos apagar fatos e acontecimentos que geraram sofrimentos, sem perceber que quando são negados, um dia explodem com força.
Quando passamos pelo lamaçal que há em nós, ficamos sujos, mas um banho nos renova e refaz nossas energias para estarmos mais inteiros nos desafios que se apresentam.
Por isso a viagem interior é mais curativa do que a exterior. Podemos mergulhar em nossas vivências, sentimentos e tomadas de decisões. Sair de cena para recomeçar, rever atitudes e reescrever a nossa história.


Gosto desse tema e pergunto-me com frequência: por que fugimos do nosso eu? Por que ocupamos nosso tempo de forma agitada e não reservamos um momento para o diálogo interior? O que há em nós que nos atormenta e afasta de nós mesmos? Por que duvidamos de nossas qualidades e temos uma autoestima e autoimagem tão negativas?
O processo de cura interior passa necessariamente pelo resgate da nossa criança que foi abandonada e rejeitada. Pela cura do desamor e da solidão. Pela valorização e aceitação do nosso jeito de ser.
Nessa experiência encontro a potência da minha criança, mas, também, suas fragilidades. Percebo as luzes e sombras que estão em mim. Acolho a minha humanidade. Libero o orgulho e a vaidade.
Por isso não é uma viagem fácil, pois o belo se apresenta em suas contradições.
Colocar esses sentimentos num balaio e misturá-los possibilita uma aventura desafiadora, mas, ao mesmo tempo, assustadora. Como é difícil perceber que tenho defeitos semelhantes aqueles que me cercam. Como é difícil admitir que a maldade está em mim.
Essas viagens possibilitam revisitar perdas, dores, frustrações, separações e tristezas, mas, também, de forma surpreendente, somos agraciadas com lembranças, fatos, acontecimentos, pessoas que nos mostraram que o amor vence, gera força e confiança.
Para que precisamos passar por tudo isso? Para evoluir e cumprir nossa missão no planeta terra. Para superar o egocentrismo, o egoísmo, a indiferença e aperfeiçoar nossa capacidade de amar e servir, de ser sensível e solidário com a dor do outro, de construir um mundo mais justo, humano, respeitoso e igualitário.
Vilarejo com Marisa Monte nos convida a essa viagem
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55)
