Por Beatriz Herkenhoff*

Foto em destaque: Pixabay

“Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor. Naquela mesa ele contava histórias que hoje na memória eu guardo e sei de cor…. E nos seus olhos era tanto brilho que mais que seu filho eu fiquei seu fã…” (Sergio Bittencourt).

A dor da saudade às vezes é tão intensa que a transformamos em poesia, em conto, em prosa e versos, em letra de músicas, entre tantas outras formas que temos de recordar os legados que nos deixam aqueles que amamos e não estão mais entre nós. 

Um dos maiores medos do ser humano é a morte. E por isso ignoramos a única certeza que temos de que um dia iremos morrer. Negamos essa realidade e evitamos refletir sobre ela.

Vivemos como se fôssemos eternos. Pautamos nossa existência de forma frenética, egoísta, egocêntrica e autocentrada. Brigamos por pouco, rompemos relações sem considerar a dor do outro, geramos divisões, usamos a palavra com agressividade, magoamos e ferimos desnecessariamente. Temos dificuldade em perdoar e pedir perdão. Não cuidamos de nós mesmos, daqueles que nos cercam e do nosso planeta.

Somos sombras e luzes, amor e ódio, perdão e rancor, misericórdia e crueldade, solidariedade e indiferença, fé e descrença. Os contrários habitam em nós. E por isso, temos também atitudes opostas às que descrevi acima.

O diálogo entre a vida e a morte aflora a consciência de nossa finitude, impotência e brevidade na passagem por esse mundo.

E diante dessas constatações damos o melhor de nós. Somos generosos, éticos, desprendidos, amorosos, geramos vida por onde passamos, espalhamos sementes do bem, investimos no diálogo, na partilha da alegria, no serviço aos mais pobres e vulneráveis. Aperfeiçoamos gestos de perdão e compreensão, fortalecemos a fé e nos humanizamos. 

Somos convidados por Chico Buarque e Milton Nascimento a “Afagar a terra. Conhecer os desejos da terra. Cio da terra, propícia estação. E fecundar o chão”.

E deixamos um rastro de amor, de dignidade, de respeito, de contribuição para um planeta onde todos possam ter o pão de cada dia, o direito à saúde, ao trabalho, à moradia, ao amor, aos estudos, entre tantas outras atitudes que tornam a vida digna, justa e prazerosa.

Como eu perdi pessoas queridas desde a mais tenra idade, sempre tive mais medo de perder aqueles que amo do que de morrer. Tive que passar por um longo processo terapêutico para curar medos que geravam angústia, ansiedade, paralisia, insegurança, incertezas e que me impediam de viver só por hoje. 

Medos que se constituíam em obstáculos para acreditar que eu poderia gerar vidas e desfrutar da alegria de caminhar lado a lado. Medos que me impediam de acreditar que eu não iria perder aqueles que amo. Medos que me levavam a viver em função de um futuro que não existia.

Na convivência com minha amiga que é negra e mora na periferia, meu medo se tornou minúsculo. Ela relata que as mães negras vivem diariamente o medo de seus filhos não voltarem para casa, pois, estão mais sujeitos a serem mortos do que o meu filho que é branco. Um medo real.

Quando perdemos aqueles que amamos passamos por um longo processo de escuridão, de desânimo, de vontade de morrer, de tristeza e depressão. A vida perde o sentido e queremos desistir. A sensação é de que nossos sonhos e projetos foram sepultados com aquele que não está mais aqui.

Passamos a viver em função daquele que se foi e esquecemos quantos ficaram, quantos me amam e precisam do meu amor, da minha atenção, carinho, toque, olhar, cumplicidade e cuidado.

Para superar o luto é preciso vivê-lo com intensidade, ir ao fundo do poço para renascer das cinzas. Fazer a despedida para recomeçar com inteireza e amor. 

Quantos pais, mães e filhos assumem causas sociais depois que perdem seus queridos. Canalizam sua energia para dar continuidade a seus legados. 

Ao compor “Tempo Rei”, Gilberto Gil nos convida a traçar um paralelo existencialista, entre a finitude e o que é eterno, o momento presente e o passageiro. 

“Mães zelosas, pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam, não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei.”

E entra em cena o tempo, tão precioso ao ser humano, responsável por nossas dúvidas, esperanças, medos, alegrias, tristezas, conquistas e metamorfoses.

Tempo que tudo transforma, que nos ensina a viver só por hoje eliminando a ansiedade de um futuro que não existe.

Entra também em cena a fé, a crença de cada um em relação à vida eterna. A vida que tem continuidade, que não termina.

Em 2017 fui ao cinema com Bia assistir “A vida é uma festa”. Animação dirigida por Lee Unkrich e Adrian Molina que enaltece a cultura mexicana e sua tradição no Dia dos Mortos. 

Além de consolidar preceitos, como, o valor da família, o filme desperta para a importância de não esquecermos de nossos mortos, de termos gestos de gratidão e reconhecimento por tudo que nos ensinaram e nos convidaram a dar continuidade. 

Nessa linda história Miguel acaba brigando com sua família em pleno “Dia de los Muertos” e vai parar na Terra dos Mortos. 

Como o filme tem muitas caveiras, quando saímos do cinema eu estava preocupada com a percepção da Bia que tinha apenas 7 anos. E perguntei o que ela tinha achado do filme. Ela me respondeu: “Esse filme mostra que não podemos esquecer os nossos mortos, eles são importantes porque damos continuidade ao que eles nos ensinaram.”

Fiquei emocionada com a resposta da Bia, e por isso despertei para esse diálogo e escrevi o livro: “Legados: crônicas sobre a vida em qualquer tempo”, que lançarei em dezembro de 2022.

No livro resgato as histórias de familiares queridos que marcaram profundamente o meu jeito de ser e estar no mundo, também histórias de pessoas que dão continuidade aos legados individuais e coletivos. Conto histórias sobre lugares e acontecimentos que são marcantes e que alertam para essa dimensão da existência em que a vida sempre vence a morte. 

Estamos vivendo tempos difíceis em que nossa sociedade está dividida, a relação entre amigos e familiares está sendo marcada pela raiva e pelo ódio.  

Convido a todos para resgatar o amor, construir novos caminhos e possibilidades em que a vida possa vencer, florir, renovar e trazer esperança de que tudo irá passar e que unidos iremos construir uma sociedade mais justa, humana, amorosa, igualitária e democrática. 

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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