Por Beatriz Herkenhoff*
Fotos: Carlos Monteiro
Esta semana fui visitar o Projeto Tamar em Vitória ES. Na saída uma placa chamou minha atenção:
“Gratidão, sua presença aqui já contribui para a conservação das tartarugas marinhas”.
Fiquei muito feliz por visitar um projeto tão lindo que faz a diferença na preservação de tubarões, tartarugas marinhas e outras espécies ameaçadas de extinção no litoral brasileiro. Iniciativas que apoiam também o desenvolvimento das comunidades costeiras, pois a ameaça à vida marinha reduz quando essas comunidades encontram alternativas econômicas mais sustentáveis.
Fiquei encantada com a vibração das crianças que estavam visitando o Projeto Tamar com suas escolas. Observei a realização de um processo educativo que desperta as crianças para a unidade entre as dimensões humanas, sociais e ambientais. Uma ecologia integral que começa a ser incorporada na mais tenra idade.
Ao sair do Projeto Tamar falei para uma das monitoras: “Gratidão por nos sensibilizar para novas formas de viver e conviver com a criação e restaurar nosso planeta”.

Não sei desde quando passei a utilizar a palavra gratidão com mais frequência, mas percebo que ela é tão abrangente e profunda que fiz uma ruptura entre um agradecimento mecânico e uma postura de reconhecimento em relação ao gesto do outro, ao seu cuidado, carinho e esforço para fazer a diferença em minha vida e de outras pessoas.
Nasceu o desejo de retribuir com amor quando alguém faz algo para mim, para os pobres, para a humanidade e para a sobrevivência do nosso planeta.
Acordo cantando louvores pelo dom da vida, por minha história, por todas as conquistas e também pelas dores e perdas. Tudo que vivi e experimentei foi transformado pelo tempo e permitiu eu ser o que sou, com meus limites e qualidades.
A gratidão afasta-me de pensamentos negativos e de mágoas que corroem o meu ser. A gratidão possibilita o perdão e permite relacionamentos mais saudáveis, pois cria um círculo positivo de valorização daqueles que nos cercam.
Sinto-me plena de gratidão por todas as trocas amorosas e solidárias que permeiam minha vida e o universo. Por todos os gestos de empatia, generosidade, de compaixão e solidariedade que movem o amor.
Gratidão por todos os grupos de pertencimento que geraram sentimentos positivos de: autoestima; confiança; enraizamento; identidade, intimidade; reconhecimento dos próprios valores e potencialidades.
Gratidão pelas possibilidades de partilhar o amor, a cumplicidade e a alegria. Por todas as convivências que determinaram a forma como lidei com a vida.
Gratidão por ter sido canal de esperança, de desejo de construção de um mundo melhor e mais justo na vida de muitas pessoas, especialmente de filho, nora, sobrinhas, afilhados e agregados.
Gratidão por ter marcado positivamente a vida de muitos no exercício da minha profissão como assistente social e como professora.
Gratidão porque entre os legados familiares aprendi sobre o valor do amor e do serviço aos mais pobres e desprovidos do necessário para sua sobrevivência. Aprendi que o amor acolhe e inclui. Que a felicidade é plena quando não há desigualdade e injustiça, quando não há fome ou desemprego.
Durante anos, após o fim do expediente do meu trabalho como assistente social da CVRD, eu ia para os bairros da periferia do município da Serra. Realizava um processo educativo, visitando os trabalhadores e suas famílias e participava de reuniões com as Associações de Moradores. Aprendi com suas lutas, com sua resiliência diante das adversidades, com sua alegria e gratidão mesmo recebendo tão pouco da vida. Aprendi a ser grata por tudo que eu recebi, mas também a desejar que todos tivessem um pão à sua mesa e uma casa para morar.
A gratidão toma conta do meu ser quando lembro de todas as conquistas naquela ocasião. Os moradores aprenderam a se organizar e lutar por seus direitos garantindo o saneamento básico (água, luz, esgoto) na maioria dos bairros da Serra; a regularização jurídica das terras; a implantação de postos de saúde nos bairros, a construção do Hospital Dório Silva, a conquista do sistema de transporte intermunicipal (Transcol), a ampliação de escolas públicas, entre tantos outros.

Sinto que a gratidão não é uma expressão individual, mas coletiva. A gratidão é social, traz consigo um sentimento de justiça para todos.
Expresso também a gratidão a Deus de infinito amor que se faz presente e ama cada um em suas diferenças. Cantar hinos de gratidão sempre enriqueceu o meu ser e elevou minha alma.
De acordo com Thaiana Brotto, a neurociência e a psicologia acreditam que a gratidão muda significativamente a qualidade de vida das pessoas. Agradecer ativa o sistema límbico, responsável por regular emoções. O Centro de Pesquisa da Mindfulness da Universidade da Califórnia descobriu que a gratidão modifica as estruturas neurais do cérebro ampliando sentimentos de felicidade e contentamento.
Vivemos momentos tensos no Brasil, de conflitos ocasionados pelas diferenças políticas e visão de mundo. É preciso proteger a energia para lidar melhor com a ansiedade, a tristeza e a raiva presentes nas relações. E a gratidão é um importante exercício de proteção.
Como vocês têm vivido a gratidão no dia a dia?
E nesse mês de outubro em que comemoramos a vida de São Francisco de Assis trago um pouco de sua história como exemplo de gratidão, amor, pobreza, entrega, doação total e serviço aos mais pobres.
Lembrei-me de Francisco ao visitar o Projeto Tamar. Seu amor pela natureza e pelos animais. Gostaria de agir como ele quando encontro um pobre dormindo nas calçadas do meu bairro e do meu país.
Francisco era filho de um rico comerciante e de família nobre da Provença. Era muito rico e esbanjou dinheiro com ostentações durante sua juventude.
Por volta dos 20 anos, Francisco sentiu em seu coração a necessidade de vender seus bens e passou a servir os doentes nos hospitais. Presenteava os pobres com suas próprias roupas.
Que possamos seguir os passos de São Francisco. Que possamos ser instrumentos da paz, levar o amor onde houver ódio, o perdão onde houver ofensa, a união onde houver a discórdia, a fé onde houver dúvida, a verdade, a alegria, a luz e a esperança onde houver erro, desespero e tristeza.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
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