Por: Vinícius Fonseca*

Por mais que tentemos manter distância daquilo que escrevemos, todo texto carrega em si algo intimista. Não é um reflexo exato de seu autor, mas há algo dele ali. Sempre há.

No jornalismo estudamos sobre os filtros da notícia, técnicas de escrita jornalística e depois vamos ao mercado de trabalho e somos arrastados pela demanda e pela pressão de entregar o material para ontem. Aliás, no mundo de hoje tudo é para ontem. Fato é que “esquecemos” que o que escrevemos é parte de nós.

Acontecimentos recentes em minha vida e a possibilidade de ter uma coluna na qual o pessoal da Rede Lume me dá liberdade para me expressar me fizeram pensar muito nisso nos últimos dias.

Todo texto aqui, por mais imparcial que busque ser, tem parte de mim. E há uma parte de mim que é “tenebrosa”, que vou compartilhar com vocês não para que tenham medo e menos ainda pena de mim, mas porque esse meu lado pode ser o lado de muitas pessoas, com e sem deficiência e, pior, estar no controle da vida de vocês, como me dei conta que está controlando a minha.

Nasci com deficiência e ser diferente em um mundo que valoriza tanto os padrões te torna uma presa fácil. Durante toda a minha infância e adolescência fui vítima de bullying. Eu tentava responder na mesma moeda, às vezes, descontava em alguém “mais fraco”, – não faço questão de ser o “santo” aqui. -, mas fato é que ter vivenciado isso abriu uma ferida enorme em mim.

Até hoje eu preciso lidar com esses traumas, o medo da rejeição, a insegurança de dar passos mais ousados e outros afins. Esse contexto me tornou um cara mais reservado, que evita a briga, que “estoura” sim, mas tenta não levar nada muito além. Afinal, gerar desgastes de relação só farão as pessoas se afastar de mim, nem que para isso usem a deficiência como desculpa.

Esse sentimento de insuficiência pode ter me protegido de algumas coisas, ter me feito buscar por mais, do meu jeito, mas sempre buscar por mais? Talvez sim, mas a verdade é que esse sentimento é muito danoso e extremamente perigoso.

Caí em mim recentemente, por evitar certas batalhas em busca de aprovação, ganhei vários tapas nas costas enquanto era sumariamente desvalorizado em várias relações, principalmente no ambiente de trabalho.

Acredito que muitos de nós PcDs passamos por isso. Somos elogiados, reconhecidos em reuniões, mas salários e outros benefícios ficam em segundo plano. Participamos de atividades acadêmicas, temos certa relevância, mas quase sempre os louros da glória estão acompanhados de uma pitada de capacitismo.

Eu me dei conta que algum de nós, incluindo eu, aceita bem esse cenário porque já estamos acostumados com o bullying e a indiferença que sofremos a vida toda, mas percebi que é preciso mudar, é preciso quebrar a corrente.

 

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…