Vinte e cinco mulheres privadas de liberdade na Cadeia Pública Feminina de Londrina prestaram a prova; índice de aprovação reflete empenho pela educação
Cecília França
Foto em destaque: Sandra com o livro Torto Arado/Cecília França
“Eu estou lendo Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior. Este é um dos dez livros que vai cair no vestibular na UEL”, conta Sandra (nome fictício), 38 anos, na cozinha da Cadeia Pública Feminina de Londrina, onde conversamos na última quarta-feira (22). “E você conseguiu ler todos os livros?”, pergunto. “Todos eles. Agora estou dando uma repassada”.
Sandra é uma das dez detentas da unidade aprovadas para a segunda fase do vestibular UEL 2024 e disputa uma vaga no curso de Letras. As provas acontecem neste domingo e segunda-feira, dias 26 e 27 de novembro. Alguns cursos terão prova também na terça-feira.
“Estou muito feliz e bastante ansiosa. Sexta-feira a professora vai dar uma aula para todas as meninas que passaram para a segunda fase. Vou prestar bastante atenção nas dicas dela”, garantiu. A aula de revisão aconteceu ontem (veja foto abaixo).

Sandra chegou a ser aprovada em uma faculdade na juventude, mas não conseguiu frequentar o curso por questões financeiras e acabou deixando a meta para trás.
“Eu ganhei meia bolsa na época, era Gestão Mercadológica. Mas eu não fui. Tinha que pagar metade e naquela época eu não trabalhava e minha mãe também não me incentivou. Daí eu comecei a trabalhar e não consegui fazer faculdade”.
No passado, ela conta que não gostava de ler. Via livros e torcia o nariz. Mas o projeto de remição pela leitura na unidade mudou seu olhar para a literatura. Sandra acredita já ter lido cerca de 35 livros.
Essa mudança de perspectiva trouxe de volta o antigo sonho de concluir a universidade. Hoje, ele está muito associado ao desejo de voltar a conviver e ser exemplo para o filho de 7 anos.
“Eu quero muito passar. Por mim, primeiramente, porque é um sonho que vou estar realizando, e por causa dele. Quero muito ficar com ele”, diz.
Além de se encantar com as histórias dos livros, Sandra enxerga identificação com as histórias pessoais dos autores. Cita Tomás Antônio Gonzaga, autor de Cartas Chilenas, outro livro da lista de leitura do vestibular UEL 2024.
“Ele tem uma história sofrida, foi preso duas vezes, perdeu o grande amor da vida dele. Cada um deles teve uma história. Aí fico imaginando eu: vim parar num lugar assim para conseguir realizar meu sonho. Vou ter história para contar”, espera.
Vestibular é resultado de empenho na educação das mulheres
Para a diretora da Cadeia Pública Feminina de Londrina, Soraya Ursi, o resultado do vestibular da UEL reflete o empenho dos profissionais da unidade na oferta de educação às mulheres privadas de liberdade.
“Particularmente eu espero o resultado do vestibular da UEL sempre com ansiedade, porque ele reflete uma série de ações no que diz respeito à parte educacional. Vemos algumas serem alfabetizadas, aprenderem a escrever o próprio nome dentro da Unidade, e fazer parte de um processo como esse é o ponto alto de tudo que tentamos proporcionar”, declara.
Para Soraya, o resultado da primeira fase, com dez aprovações dentre 25 vestibulandas, é motivo de orgulho.
“Todos os anos aumentamos o número de aprovadas e agora vamos aguardar a segunda fase. Se Deus quiser nós vamos conseguir várias aprovações. Elas são sempre um incentivo para que as demais se dediquem cada vez mais nas aulas”.
Na unidade de Londrina, mais de 100 estudantes estão matriculadas para continuidade dos estudos por meio do CEEBJA Prof. Manoel Machado. Segundo dados de 2022 do Departamento de Polícia Penal (Deppen), menos de 1% das detentas do Paraná têm curso superior completo.
Educação: direito humano fundamental
Pedagoga na Cadeia Pública Feminina, Polyane Primo acompanha os programas educacionais na unidade desde março deste ano e participou da preparação das vestibulandas.
“Quando consultadas sobre a possibilidade de participarem deste processo, todas demonstraram interesse pelos estudos; algumas em dar continuidade de onde pararam em sua formação, outras com novas perspectivas de estudos”, relata.
A equipe organizou materiais, como livros didáticos, e distribuiu com antecedência às detentas aptas e interessadas em fazer a prova.
“Entendemos que a educação é o instrumento de mediação para a transformação da realidade. Portanto, é um sentimento satisfatório alcançarmos, aqui nesta unidade feminina, este resultado”, completa Polyane.
Na antevéspera, sexta-feira, a aula de revisão versou sobre produção textual, os diferentes gêneros, e outros conteúdos que poderiam ser cobrados, de acordo com o manual do candidato.
“A aula desenvolvida pela professora do Programa de Remição pela Leitura apresenta a finalidade de fortalecer a escrita das candidatas, tirar possíveis dúvidas, bem como tivemos a intenção de estimulá-las na produção textual em temas contemporâneos”, explica a pedagoga.
Para ela, “contribuir com o processo formativo é contribuir para a construção de novas pontes na vida; de sonhos, de perspectivas, de oportunidades, de profissão, de trabalho”.
Se inicialmente muitas mulheres acabam aderindo aos programas de remição com foco apenas na redução das penas, com o passar do tempo eles se mostram mais que isso.
“Claro que num universo são diferentes contextos e realidades, mas muitas dessas mulheres desenvolvem uma nova lente para olhar o mundo”, diz Polyane. “Eu entendo que a educação é um direito humano fundamental”, conclui.
