Mãos Solidárias levou bolo, pizza e música para cerca de 300 mulheres encarceradas
Cecília França
A Cadeia Pública Feminina de Londrina recebeu, na segunda-feira, 16 de dezembro, mais uma ação do grupo Mãos Solidárias. A tarde natalina foi recheada de música, dança, bolo e pizza. Pelo terceiro ano consecutivo o grupo, liderado pelo padre Cristiano Bento dos Santos, pároco na São Judas Tadeu, visita a unidade nesse período com o objetivo de promover um momento de aconchego e dignidade às mulheres encarceradas.
E neste ano foram muitas, mais de 300, em uma unidade com quase 180 vagas. A superlotação, que inexistia no início das atividades da Cadeia, em 2020, agora é realidade.
As mulheres participaram da ação no pátio, divididas em cinco grupos. Se a pizza foi a melhor surpresa para muitas, a música proporcionou momentos únicos. Fátima (nome fictício) pediu o microfone e relembrou os velhos tempos cantando um forró da cantora Roberta Miranda enquanto as companheiras dançavam ao centro.
“A gente sempre cantava, mas tudo bêbado, era uma bagunça”, conta ela à reportagem da Rede Lume, lembrando do passado. Diz que tem vontade de aprender a tocar violão.
Presa há nove meses, Fátima perdeu filhos trigêmeos ainda adolescente, aos 15 anos; depois teve outros três. Soube pela mãe do nascimento de seu primeiro neto na semana passada.
“Sinto falta de tudo que perdi”, lamenta.
Leia também: Conexões Londrina promove mais um Natal da CUFA
Carol (nome fictício) pediu para o músico, o professor Moacir Szekut, tocar na sanfona uma música nativista e cantou toda a letra, emocionada, mas sem querer pegar o microfone. Pergunto de que a música lhe faz lembrar. “Me lembra da vida boa que eu perdi”.
Carol está presa há quatro meses. “Caiu” com um grupo de mulheres “por causa dos nossos maridos”, afirma. Aos 29 anos, ela espera conseguir a liberdade já no início de 2025.
“Eu pedi pra Deus que se não fosse sair esse ano que ele trouxesse calmaria pro meu coração e a palavra. No sábado esteve o pastor aqui e hoje o padre”, diz ela, referindo-se ao padre Cristiano. Para ela, as visitas dos sacerdotes foram sinais de que tudo vai ficar bem.
Padre Cristiano mobilizou paroquianos para a produção das pizzas e para estarem presentes na ação. Também participaram paroquianos da Nossa Senhora de Fátima, onde ele atuava quando o grupo iniciou as ações na Cadeia, em 2022. Para estes, ficou a missão de arrecadar doações para a produção dos bolos e a compra dos refrigerantes.
O Mãos Solidárias ainda é composto por professores, servidores do Judiciário e da Assistência Social, profissionais liberais, além de integrantes do Conselho Tutelar. Para conhecer melhor o grupo e contribuir nas ações, acesse a página no Instagram.
“Saio renovada”
Maria Ines Romagnoli é uma das paroquianas da Nossa Senhora de Fátima que esteve em todas as ações do Mãos Solidárias na Cadeia até hoje. Para ela, fazer o Natal para as mulheres encarceradas é gratificante.
“Lembro da primeira vez que fui. Eu não esperava ver tantos rostinhos tristes, saber que elas pensam que não são nada. E a gente dava o bolo, o refrigerante, e falava ‘Vocês são especiais’. Sentimos que fazia a diferença”, relembra Ines.
A emoção, segundo ela, começa no preparo do bolo, responsabilidade dos paroquianos da Nossa Senhora de Fátima.
“Não é apenas um bolo, mas sim cheio de carinho, de amor, de dedicação para que elas se sintam especiais. São vinte minutos de música que elas cantam, sorriem, se divertem e esquecem um pouquinho onde elas estão”, comenta Ines. “Saio de lá renovada”.
“Chorei de saudade”
No mês passado, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados votou contra a oferta de itens de higiene pessoal, como absorventes e papel higiênico, para mulheres encarceradas.
Em penitenciárias do Paraná, incluindo a Cadeia Feminina, elas recebem esses dois itens, mas a qualidade não é das melhores, como elas já relataram à Rede Lume. Algumas – poucas – recebem produtos extras das famílias, como xampus, inexistentes no sistema carcerário.
O veto à distribuição de itens tão básicos mostra o quanto a sociedade ainda confunde penalização por crimes, prevista no Código Penal brasileiro, com privação irrestrita de direitos. Em matéria publicada em 2023 sobre mortes no sistema penitenciário do Paraná, a defensora pública estadual Andreza Lima de Menezes, ressaltava:
“Temos que ter uma sociedade não tão tolerante a um sofrimento tão intenso. A privação de liberdade já tem uma consequência muito grande”.
Estar preso não significa estar alijado de direitos. Tampouco significa que se é despido de dignidade. Quando uma música toca e todos cantam em coro – como aconteceu durante a tarde natalina na Cadeia assim que os músicos entoaram sucessos como “Ainda ontem chorei de saudade” – lembramos que todos temos sentimentos, arrependimentos, saudades. Somos todos, por fim, humanos.
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
