Para socióloga, a mudança precisa ser estrutural, com políticas públicas mais inclusivas, mas em cada dimensão do cotidiano há sexismo a ser desconstruído

Mariana Guerin

Foto em destaque: Fernando Frazão/Agência Brasil

Publicada em 16 de junho de 2023

Uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado nesta segunda-feira (12), mostra que 84,5% dos brasileiros e brasileiras têm algum tipo de preconceito contra as mulheres, como a desconfiança na capacidade de trabalho, na atuação política e até mesmo relativizam a violência física.

Segundo o relatório do PNDU, apenas 15,5% dos brasileiros não têm preconceito contra mulheres. Em 2012, o índice era de 10,5%. Os pesquisadores ouviram a população de 80 países. Os índices do Brasil ficaram próximos aos de países como a Guatemala, Bielorússia, Romênia, Eslováquia, Trinidad, Tobago, México e Chile.

No Brasil os dados são os seguintes:

Violência íntima ou direito de ter filhos ou não: 75,56% dos homens têm esse preconceito no Brasil, e 75,79% das mulheres também têm;

Política e direitos:  39,91% das pessoas acreditam que mulheres não são tão boas políticas como os homens ao desempenharem a função. Além disso, também acreditam que as mulheres possuem menos direitos do que os homens e;

Educação: 9,59% dos entrevistados acreditam que a universidade é mais importante para homem do que para a mulher.

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Preconceito de gênero está está atrelado a bases patriarcais

Para a professora da rede estadual de ensino e ativista feminista, Meire Moreno, doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), ainda falamos em preconceito de gênero em pleno 2023 porque vivemos em uma sociedade que se organiza a partir de perspectivas e ideias machistas e sexistas, a partir de bases patriarcais.

A depender do lugar onde essa mulher está em termos de gênero, raça, sexualidade e geração, a forma como ela sofrerá esse preconceito será distinta.

“Reverter esse quadro depende, sim, de mudanças estruturais, mas para que essas mudanças sejam alcançadas, nós também precisamos da presença, da organização e das articulações dos movimentos sociais, principalmente dos movimentos feministas.”

Meire explica que essa articulação dos movimentos sociais é necessária para provocar os governos, o Estado e toda a sociedade, cujas ações, tanto em grande escala quanto dentro das comunidades, nos territórios, são necessárias para alcançar a igualdade de gênero, de raça e de classe e a redução das desigualdades econômicas para superar as formas de preconceito que atingem as mulheres.

“Acabar com todas as formas de discriminação contra meninas mulheres envolve um esforço da sociedade, dos governos e do Estado, da sociedade civil, dos movimentos sociais e eliminar toda forma de violência contra as mulheres, nas esferas públicas e privadas.”

Segundo a pesquisadora, também envolve eliminar todas as práticas que forçam meninas aos casamentos, a mutilações e assim por diante, inclusive a serem mães. “Reconhecer e valorizar o trabalho que normalmente é associado às mulheres e que geralmente não é remunerado, todo o trabalho do cuidado, o trabalho doméstico, e garantir que as mulheres tenham participação plena e efetiva nas decisões importantes da vida política e econômica da sociedade.”

Para Meire, combater o preconceito contra a mulher envolve adotar políticas educacionais que considerem todos esses aspectos para promoção da igualdade de gênero e para o empoderamento de todas as mulheres e meninas, assim como é referenciado no quinto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da própria ONU. “Resumidamente, precisamos de políticas públicas.”

A professora reforça que tanto para integrantes dos movimentos feministas quanto para os mais de 190 estados membros da ONU, alcançar igualdade de gênero envolve a adoção de políticas educacionais e a participação efetiva das mulheres na política, nos cargos de decisão. Ela observa que a agenda 2030 dos ODS da ONU foi organizada e publicada em 2015: “Já se passaram quase dez anos e houve pouquíssimos avanços, não só no Brasil como no mundo”.

“Eu arriscaria dizer que o crescimento e avanço das vozes e práticas da extrema direita, de grupos reacionários e conservadores, tem um papel fundamental nessa dificuldade para superar todas as formas discriminação contra meninas e mulheres e avançar em políticas públicas de gênero”, opina Meire.

Pesquisa revela face violenta e machista da sociedade brasileira

Para a socióloga Silvana Mariano, integrante do Néias-Observatório de Feminicídios de Londrina, os resultados da pesquisa são reveladores de uma face violenta, preconceituosa e machista da sociedade brasileira, que muitas vezes buscamos disfarçar e é importante que nos confrontemos com o que somos.

“Os dados são aterrorizantes, ainda que não nos surpreenda, mas, trabalhar pela mudança de um problema requer, antes de tudo, o reconhecimento de que o problema existe.”

Ela recorda que a expansão do novo feminismo, a partir da década de 1960, contribuiu para a disseminação de visões igualitárias sobre as mulheres a partir da década de 1990. “Contudo, essas mudanças vêm acompanhadas da contrariedade de setores conservadores e reacionários, que são fundamentalmente sexistas e machistas e que estão se organizando pelo menos desde a década de 1990 e que ganharam enorme impulso nos anos mais recentes no Brasil.”

Silvana explica que, no passado, no Brasil, ser preconceituoso era motivo de vergonha, por isso nossa sociedade disfarçava seus preconceitos. “Hoje, ser preconceituoso é fonte de orgulho em muitos grupos sociais. Perdemos em termos de censura social contra preconceitos, incluindo o sexismo.”

“Em termos de avanços sociais, demos vários passos atrás, em um ambiente social altamente violento e desumanizado. Grupos sociologicamente minoritários, como as mulheres, são diretamente afetados negativamente”, declara a socióloga.

Ela cita que para reverter a violência contra as mulheres, os estândares internacionais projetam três vias de ação: a prevenção da violência contra meninas e mulheres, que inclui a desconstrução da cultura machista e racista, por exemplo, a punição justa aos agressores, pois a pena tem um efeito pedagógico, e a restituição dos direitos das vítimas.

“Avançamos muito em termos de proposição de ações nas mais diferentes esferas, mas, em países como o Brasil, estamos em fase embrionária na implementação dessas ações. A pressão política exercida pelo ativismo focado na incidência é importante força para mudança nesse quadro”, comenta Silvana.

Ela alerta que é fundamental ter em vista que essa responsabilidade é do Estado, de organizações sociais, das empresas e dos indivíduos. “A violência contra meninas e mulheres deve ser socialmente, individualmente e institucionalmente reprovada desde as suas manifestações cotidianas consideradas mais banais, como a piada machista.”

Silvana cita ainda o combate à desqualificação dos feitos das mulheres, às tentativas masculinas de controlar decisões das mulheres, à objetificação sexual de meninas e mulheres, à maior responsabilização das mulheres com filhas e filhos, família e cuidados em geral, à paternidade irresponsável, à dupla moral sexual, que julga distintamente comportamentos sexuais de homens e de mulheres etc.

“Em uma sociedade patriarcal como a nossa, em cada dimensão do cotidiano há sexismo a ser desconstruído.”  

Para a socióloga, a mudança também precisa ser estrutural, com políticas públicas mais inclusivas. “Precisamos de mudanças estruturais e intersubjetivas. Isso requer transformações dos valores, dos comportamentos e das normas sociais. As pessoas, no Brasil, pensam que as mulheres são seres inferiores e isso precisa ser modificado.”

“Vejamos a lei Maria da Penha, de 2006. Temos, hoje, uma geração que chegou nesse mundo após essa legislação que recrudesceu a punição em casos de violência doméstica e familiar contra as mulheres. Ainda assim, são jovens que seguem reproduzindo a sociedade patriarcal, o machismo e o sexismo. São jovens que desvalorizam e espancam as mulheres porque se consideram detentores do poder sobre a vida delas. Consideram-nas posse.”

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“Com isso, eu quero dizer que mudanças institucionais e legais não são suficientes, mas são fundamentais. Precisamos fazer as outras partes da lição, com destaque para o campo da educação, onde tivemos um tipo de interdição ao debate sobre gênero nos últimos anos no Brasil. Não haverá direitos e respeito às mulheres se não discutimos as relações de gênero e nos educamos para uma sociedade justa e igualitária.”

preconceito de gênero
Frente Feminista leva a luta para a rua no 8M/ Foto: Juliana Barbosa/MST

Resultado não surpreende, diz CUT

A secretária das Mulheres da CUT Nacional, Junéia Batista lamentou o resultado, mas disse não se surpreender, já que vivencia diariamente esses preconceitos por ser feminista e ativista do movimento sindical e político.

“Isto só confirma o meu a dia a dia dentro da luta do movimento sindical, formado por homens e mulheres. Mesmo com a CUT tendo uma política de igualdade temos de dialogar entre nós, mulheres, para que esse tipo de masculinidade não seja reproduzido entre nós”, afirma Junéia.

Na área política a dirigente relembra o impeachment da ex-presidenta Dilma que sofreu um ato machista, e cita que ainda hoje as mulheres são minoria no Congresso Nacional e sofrem retaliações, principalmente as parlamentares do campo progressista.

Juneia cita como exemplos as deputadas Sâmia Bonfim (PSOL-SP), que teve o microfone cortado por diversas vezes, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do MST; a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), que segundo os bolsonaristas, teria ofendido o deputado Ricardo Salles (PL-SP), ao acusar o ex-ministro do Meio Ambiente do governo de Jair Bolsonaro (PL) de ter falsificado mapas e o de ter vínculos com o garimpo e o comércio de madeira ilegal e, por fim, o Conselho de Ética vai investigar acusação sobre a deputada Juliana Cardoso (PT-SP), que teria chamado os apoiadores do projeto de lei do marco temporal das terras indígenas de “assassinos do nosso povo indígena”, durante a sessão de votação da urgência do projeto.

“É lamentável, mas a pauta das mulheres está em segundo plano, por que precisamos defender o governo Lula dos fortes ataques da extrema direita, que perdeu as eleições, mas que quer manter seus privilégios”, diz Junéia.

Reflexos até na luta sindical

Sobre o preconceito no mundo do trabalho, a dirigente CUTista afirma que embora as mulheres tenham tido mais oportunidades ao longo dos últimos anos, os cargos de direção não encontram paridade.

“Até mesmo na Central Sindical Internacional (CSI), na qual a CUT é filiada, e que tem paridade na direção, a maioria das mulheres ocupa cargos de suplência e um ou dois na titularidade e isso é reflexo de um mundo machista”, afirma a dirigente.

“Para a mulher chegar a ter os mesmos direitos de um homem levará pelo menos 350 anos”.

Embora a grande maioria aceite a violência íntima e de que as mulheres não podem decidir se terão filhos ou não, Junéia acredita que esse quadro pode mudar, e cita como exemplo a Argentina que começou o movimento “nenhuma a menos” após a morte de uma mulher, vítima deste tipo de violência.

“Creio que a ONU Mulher pode trazer esse debate para além da Convenção 190 [Organização Internacional do Trabalho], que trata do assédio no trabalho. Temos de estar sempre de olho nos extremismos do mundo e empoderar as mulheres”, conclui a secretária das Mulheres da CUT Nacional.

(Com informações da assessoria de comunicação da CUT)

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Frente Feminista leva a luta para a rua no 8M

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