Familiares de mortos em ações policiais fizeram ato silencioso no Cemitério São Pedro neste feriado de Finados
Nelson Bortolin
Dezenas de pessoas participaram na manhã desta quarta-feira (2), feriado de Finados, de um protesto contra a morte de familiares ocorridas durante ações policiais. O ato foi organizado pelo Movimento “Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta”. Os manifestantes se concentram no Zerão e caminharam até a frente do Cemitério São Pedro, onde fizeram um ato silencioso.
Entre eles, estava a cabeleireira Ana Paula da Silva, cujo filho Matheus Henrique da Silva foi morto aos 17 anos em maio de 2016, em Guaratuba. Ela conta que havia mudado de Londrina para o litoral naquele ano porque a PM tinha ameaçado o adolescente de morte. “Policiais entraram na casa da minha mãe e falaram que iam matar meu filho. Desesperada, eu peguei e vendi tudo da noite para o dia e fui embora para Guaratuba. No mesmo ano, meu filho foi executado por policiais de lá”, afirma.
A polícia alega que o adolescente havia participado de um assalto e que reagiu a uma abordagem. “Eles sempre alegam a mesma coisa. Mas há depoimento de que meu filho foi tirado de dentro do carro vivo. Os policiais disseram: ‘Agora é sua vez’. E o executaram com tiros na cabeça, no peito e nas costas.”
Ana Paula alega que nunca teve acesso ao inquérito do caso, que foi arquivado. E que só há alguns meses teve coragem de ver o laudo do Instituto Médico Legal (IML) sobre o óbito de Matheus. “Meu filho era negro e no laudo estava como branco.”
Segundo ela, os policiais militares gêmeos Ricardo Chiarello Marquesi e Rodrigo Chiarello Marquesi, do 9º Batalhão de Polícia Militar do Paraná (BPM), estavam na operação que culminou na morte do adolescente. Ambos foram presos no Litoral em agosto deste ano, durante a operação Fish, feita pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Junto com eles, foram apreendidos armas com munição raspada, drogas e R$ 275 mil oriundos de propinas cobradas de traficantes.
Em reportagem da RIC TV, o chefe do Gaeco, procurador Leonir Batisti, conta que os PMs são suspeitos, entre outros crimes, de fraude processual. Ele admite a possibilidade de que os policiais implantavam armas e drogas em “algumas situações” e simulariam confrontos que, na verdade, não ocorreram.
“Eu vivo à base de remédio. Tenho uma filha de 20 anos, que está no terceiro ano de enfermagem, e também faz tratamento psiquiátrico”, diz Ana Paula. Ela ressalta que, no Brasil, não existe pena de morte. E que pessoas que comentem crimes devem ser presas, julgadas e, se for o caso, condenadas e nunca executadas.
Há dois anos, José Valentim Colly vive o mesmo pesadelo que a cabeleireira. Seu filho Ângelo Gabriel Colly foi morto num alegado confronto com policiais na zona norte de Londrina, aos 25 anos. “Ele teve algumas passagens pela Polícia, mas tinha parado. Estava trabalhando. Mesmo assim os policiais começaram a rondar nossa casa”, conta.
No dia da morte do filho, Colly diz que viu a PM rondando a casa pelo menos três vezes. “Eu avisei que iriam matá-lo. Falei para não sair de casa. Mas ele foi dormir na casa da namorada.”
De acordo com o pai, a PM se escondeu num matagal e pegou o filho de surpresa. “Chegaram fuzilando.” Embora a polícia diga que reagiu a tiros, o pai tem convicção de que o jovem estava desarmado. “A investigação não deu em nada, o delegado não deu bola”, afirma.

RECORDE DE CASOS
Não é só o Gaeco que comprova a violência das forças de segurança em Londrina. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021 – elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – mostra que, em 2020, a cidade teve o 12º maior número de mortes em decorrência de intervenções policiais em TODO O PAÍS. Foram 57 naquele ano.
A justificativa para as mortes dadas pela polícia é sempre a mesma: mataram para se defender durante supostos confrontos. Mas os familiares alegam que há muito mistério cercando a maioria dos casos. Segundo eles, as investigações, quando realizadas, são marcadas pela falta de transparência e os parentes dos mortos sequer conseguem ter acesso aos inquéritos.
Há indícios de adulteração das cenas das ocorrências. As famílias alegam que armas são “plantadas” junto aos corpos para justificar as mortes.
O movimento reivindica que os casos sejam apurados por meio de uma força-tarefa e os responsáveis sejam punidos. Também querem que os policiais passem a usar câmeras em seus uniformes e nas viaturas para gravar as operações. E ainda que esses profissionais sejam submetidos a exames toxicológicos periodicamente.
