Familiares de mortos pela polícia em Curitiba se organizam e pedem investigações de casos

Nelson Bortolin

Foto em destaque: Divulgação

Assim como em Londrina, familiares e amigos de pessoas mortas pela polícia vêm se organizando em Curitiba para pedir investigações dos casos e punição de culpados. E criaram a Rede Nenhuma Vida a Menos .

Somente na Capital (excluindo os municípios da região metropolitana), foram 70 mortes pelas forças de segurança em 2017, 76 em 2018, 78 em 2019, 101 em 2020 e 105 no ano passado. Os dados são do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual.

“A polícia dá sempre a mesma justificativa para as mortes. Diz que estava fazendo operação para combater o tráfico de drogas. Que as pessoas reagiram e por isso foram mortas”, conta a técnica de laboratório e apoiadora do movimento Patrícia Herman.

Ela também ressalta que é comum os parentes dos mortos afirmarem que houve adulteração do local dos óbitos e que armas foram plantadas por policiais junto aos corpos para simular que as pessoas teriam reagido.

É importante lembrar que esse modus operandi adotado por determinados policiais resultou em duas operações recentes realizadas pelo Ministério Público. Uma delas no próprio Paraná. Foi em Guaratuba, no litoral do Estado, no final de agosto.

Dois irmãos gêmeos e integrantes da PM foram presos suspeitos de vários crimes, entre eles de executar pessoas e de fraudes processuais por simularem falsos confrontos. Veja na reportagem da TV da RIC TV:

Outro caso foi registrado em março desse ano. Nada menos que 60 policiais militares foram alvos de operação, suspeitos de matar 24 pessoas e alegarem confrontos em Mato Grosso. Clique aqui para ler.

As mães também mantêm grupos nos WhatsApp, nos quais trocam informações sobre as mortes e sobre possíveis casos de violência policial na Capital.

Maioria dos casos acontece na periferia

Em Curitiba, a maioria dos casos acontece na periferia. O bairro do Parolin é um dos que têm mais ocorrências.  “Quando reclamam das mortes, os parentes sofrem intimidação”, conta Patrícia. As viaturas ficam passando em frente das casas dos familiares ou mandam recados.

Falta transparência nas investigações. E as autoridades só dão satisfação aos familiares quando eles realizam protestos. No dia 21 de outubro, o procurador Leonir Batisti, chefe do Gaeco, atendeu integrantes do movimento após uma manifestação pela morte do menino Dalyson, de apenas 17 anos .

Reclamação constante dos familiares também é o tratamento dado pela imprensa aos casos. “A imprensa está sempre preocupada em saber se a pessoa morta tinha passagem pela polícia, como se isso fosse suficiente para justificar as mortes.”

Os veículos de comunicação, segundo Patrícia, também só ouvem as famílias dos mortos quando elas fazem algum tipo de protesto público.

Caso Dalysson: familiares são ameaçados pela polícia

No dia 2 de setembro, o jovem Dalysson, de 17 anos, foi morto pela Polícia Militar no Parolin, onde residia com sua família. Desde então, foram realizadas manifestações pedindo justiça para ele e pelo fim da violência policial.

A polícia alega que houve confronto, mas moradores e familiares contestam, dizendo que o jovem não estava armado e sequer reagiu à abordagem. Contam ainda que, após os disparos, ficou mais de meia hora sem nenhum tipo de socorro.

A mãe de Dalysson e seus familiares também passaram a receber diferentes tipos de intimidações. No dia 21 de outubro, logo após protesto em frente ao Ministério Público do Paraná, policiais que participaram da operação que resultou na Dalysson tentaram invadir a casa da família.

Já no dia 9 de novembro, um homem não identificado apareceu em frente à casa e disse para ela “não procurar mais o Gaeco”.

O caso mais grave, porém, foi no dia 4 de dezembro. Policiais que supostamente estariam na região para efetuar prisões entraram na casa da mãe de Dalysson e de outros familiares, agrediram ela, o marido, além de vizinhos. Um dos policiais teria dito: “Fui eu quem matou seu filho.”

Chacina na Capital

Quem sofre da mesma dor é a mãe de Ezequiel Claiton da Silva, morto pela PM na capital dia 11 de agosto. “A polícia entrou na casa da tia dele, fez todos de refém”, conta a mãe, Inês Somariva.

Duas irmãs dela e dois sobrinhos, com armas apontadas para eles, foram obrigados a se ajoelhar e a colocar a mão nos ouvidos. A sobrinha teve de levar a PM até a cosa onde Ezequiel morava, no mesmo terreno da tia. “Estouraram o portão. Fizeram uma série de torturas que durou duas horas. Sem dó nem piedade, mataram todas as seis pessoas que estavam na casa, enquanto eles imploravam pela vida”, conta Inês.

De acordo com ela, Ezequiel estava quites com a Justiça. Tinha acabado de cumprir pena.  

Um dos jovens demorou a morrer. “Ficou agonizando e a polícia, enquanto isso, tirava sarro, negando atendimento médico a ele. Morreu por escolha da polícia.”

Prova disso, de acordo com Inês, é que todos os corpos deram entrada no IML às 18 horas, com exceção desse homem, que só foi para o instituto às 22 horas.

Londrina tem drama semelhante

Em Londrina, o drama é semelhante. Segundo o Gaeco, foram 32 mortes pelas forças de segurança em 2017, 58 em 2018, 36 em 2019, 23 em 2020 e 27 em 2021.

Neste ano, o número de casos voltou a disparar. Não há dados disponíveis do Gaeco, mas a PM afirmou em reportagem que foram 52 mortes de janeiro a novembro.

Clique aqui e leia mais.

Os familiares e amigos dos mortos também vêm realizando uma série de manifestações, num movimento chamado Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta.

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