Ação promovida por paroquianos e integrantes do sistema socioeducativo, do Ministério Público e Judiciário levou alegria e afeto às 170 mulheres da Cadeia Pública Feminina de Londrina

Cecília França

Sentada em uma das cadeiras brancas de plástico espalhadas pela sala, uma mulher chora ao ler o bilhete cuidadosamente escrito à mão e entregue a ela junto a um presente de Natal trazido por voluntários e voluntárias na tarde desta quarta-feira (21). “Tô chorando de alegria, porque é difícil a gente receber uma atenção dessa, com música e tudo”, explica à Lume.

Música, bolos, pudins e afeto fizeram parte da tarde proporcionada às 170 mulheres detidas na Cadeia Pública Feminina de Londrina. A ação foi promovida por voluntários, dentre eles paroquianos e paroquianas da Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida, o pároco José Cristiano Bento dos Santos, funcionários do sistema socioeducativo e integrantes do Ministério Público e do Poder Judiciário.

A ideia de promover uma tarde com o espírito natalino dentro da unidade nasceu a partir do livro “Encarceradas: Quando a Estrela de Natal não Brilha”, escrito pelas detentas. Após matéria publicada pela Lume sobre o livro, a assistente social do Centro de Socioeducação 2 (Cense 2) de Londrina, Andressa Candido, levou a obra para o Clube de Leitura, projeto desenvolvido com adolescentes dos Censes de todo o Estado.

“Naquele momento eu pensei ‘A gente vai fazer essa estrela de Natal brilhar’. Para mim era mesmo uma obrigação. A gente faz tanta coisa na unidade e elas não têm nada. Elas são parte da gente. Tem menino nosso que tem mãe aqui, então acho que é uma extensão”, conclui.

Andressa diz que várias doações viabilizaram a ação desta quarta-feira. “Tem muita gente que aposta, que acredita junto. Acho que a gente tem que divulgar, mostrar que atrás de um crime tem uma pessoa e quando a gente está junto ninguém fica pensando o que cada uma fez. É esse o sentido”.

Soraya Ursi, diretora da Cadeia Feminina, considera que o clube da leitura aproximou as unidades.

“Tudo surgiu através do livro, da matéria de vocês, inclusive. Nós chegamos à conclusão que estamos interligadas. Temos os menores lá (no Cense), as mães aqui, os pais nas penitenciárias. A gente buscava trazer uma humanização, um momento diferente, que trouxesse uma realidade de Natal como se elas estivessem na rua”, explica.

O padre Cristiano Bento conhece a realidade do cárcere por meio do projeto Esperançar que desenvolve no Cense 2 e de aproximação mais recente com a Cadeia Feminina, tanto como sacerdote quanto como docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Para ele, a ação voluntária simboliza o verdadeiro espírito do Natal.

“É um momento de colocá-las no centro. Natal é solidariedade, é tornar visível aqueles que são invisíveis, como as mulheres que estão privadas de liberdade. É um momento de mostrar para elas, também, que na sociedade existem pessoas que se importam com elas”, afirma.

O valor de um pudim de Natal

Apenas duas detentas envolvidas na escrita do livro “Encarceradas: Quando a Estrela de Natal não Brilha” permanecem na cadeia. Uma delas diz que foi a primeira confraternização nesses moldes na unidade.

“Às vezes tem algumas confraternizações, mas igual de hoje, de trazer o que a gente estava com vontade de comer, que era pudim, não. Hoje está bem legal, a gente está dançando…é bem gratificante saber que alguém se importa com a gente”, diz ela.

Ao microfone o padre Cristiano pergunta se o pudim está bom e ouve um sonoro “maravilhoso” das mulheres.

Soraya Ursi lembra que muitas delas não recebem visitas ou sacolas das famílias e esse sentimento de solidão se aprofunda no fim do ano. Nesse contexto, a oferta de um pudim tem muito significado.

“Esse dia também é para isso, para matar a vontade de comer um pudim, um bolo, que para quem está privado de liberdade tem um valor que a gente não consegue mensurar. E esse abraço das senhoras da Paróquia, do pessoal que veio sem nem conhecer ninguém, é de um valor incalculável para a gente”.

Momento de extravasar

Forró foi o estilo de música mais tocado e mais pedido pelas detentas. Com sanfona e violão, os paroquianos animaram a tarde em um lugar onde a alegria nem sempre está presente. A.P., 38 anos, era uma das mais animadas.

“Gosto muito de forró. Aqui nunca teve. Cinco meses que estou aqui, e por eu ser de fora, não tenho visita, ninguém aqui. Tenho que procurar me distrair ao máximo, mesmo que por dentro a gente esteja destruída”, declara.

S., 28 anos, diz que o Natal é uma data muito triste por ser próxima do aniversário dela e do seu filho, de 12 anos.

“Uma lembrancinha, uma palavra que trazem pra gente é um conforto. Ver as meninas dançando assim eu acho bem legal, quebra um pouco da tristeza, da tensão de estar dentro de um cubículo, um quadrado super pequeno, quente, sem nenhum tipo de atividade física. Já vi muita meninas chorarem, caírem em depressão, então quando tem eventos assim é um momento que a gente extravasa, coloca aquele desespero pra fora”, explica.

Muitas mulheres choravam ao falar do arrependimento pelos crimes cometidos que as levaram à prisão. Sentem saudade das famílias, em especial dos filhos. O período do Natal amplia o sentimento contraditório de solidão em um local onde nunca se está sozinho.

Duas amigas paraguaias choravam muito. Aos 24 e 21 anos, mães de meninos de cinco e três anos, respectivamente, elas foram presas há dois meses. “Já tivemos audiência, mas não temos advogado”, diz a mais velha, entre soluços.

A., 41 anos, também chora muito. “Queria passar o Natal com minha família. Deus me tirou da rua pra eu não morrer porque ele tem um propósito na minha vida”, afirma. Está há 2 anos e três meses presa e diz que a família comparece a todas as visitas – um privilégio diante da realidade da maioria.

“Nas ‘cadeia minha’, minha família nunca me abandonou. Sempre ficaram lado a lado comigo, mandaram Sedex, trouxeram meus filhos”.

“Chora não, minha preta”, consola outra detenta. “A cadeia passa, o que não passa é o caixão”.

Condenada a 13 anos, A. participa das remições pelo trabalho e pelos estudos. Concluiu o ensino fundamental dentro da cadeia. “Quando sair vou pra igreja e mudar de vida”, planeja.

Planos para 2023

A Cadeia Feminina de Londrina foi inaugurada em outubro de 2020 onde funcionava o 3° Distrito da Polícia Civil. Antes, entre 80 e 90 mulheres se aglomeravam em um espaço para 36; atualmente são 176 vagas e 170 presas. Ainda assim, há muito a avançar.

Soraya Ursi diz que as possibilidades de remição e capacitação profissional devem aumentar em 2023. Uma cozinha está sendo finalizada para abrigar aulas de culinária. “A gente não aprova o crime, mas a gente abraça as pessoas”, disse a diretora durante o café de Natal.

E os abraços foram muitos na tarde de ontem. Uns de consolo, outros de agradecimento. Uma das paroquianas, após servir bolos e pudins durante horas, destacou o incômodo de estar separada das detentas por grades. Ao fim, pode se juntar a elas para um louvor e mais abraços.

A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55)