Contadora Samara Rosa, participante do 12º Ecoh, entende como um movimento de resistência resgatar a ancestralidade africana por meio das histórias

Cecília França

Foto em destaque: A contadora de histórias Samara Rosa/Rede Lume

A contadora de histórias Samara Rosa busca, por meio da contação, conectar a cultura popular brasileira com sua ancestralidade africana. Na última semana, durante programação do 12º Encontro de Contadores de Histórias de Londrina (Ecoh) ela promoveu esse encontro na Vila Cultural Casa da Vila, um espaço de resistência e perpetuação da cultura afro e afro-brasileira.

Curitibana, Samara relata que cresceu em um ambiente de contação de histórias. De ouvir seu avô nasceu o desejo de conhecer sua ancestralidade para poder dividir.

“Chegou um momento que eu falei ‘Eu quero essa fascinação de conseguir fazer as pessoas terem paixão pela palavra’. Eu trabalho com educação também, sou professora, aí comecei a levar a prática da palavra nesses ambientes educacionais. E comecei a participar de eventos de produtores de histórias, busquei uma especialização e, profissionalmente, estou há 13 anos contando essas histórias”, relata.

 

Como mulher negra Samara sentiu a necessidade de se conectar com sua história ancestral e compreender como a cultura popular brasileira também é regada de referências da cultura africana. A lenda sobre como o casco da tartaruga tornou-se “remendado” – uma das contadas por ela durante o encontro – por exemplo, ecoa por aqui como a conhecida Festa No Céu.

“E quando eu escuto que na Nigéria tem toda uma história de como ela também tem um casco remendado eu vou pensando como essas histórias chegam até aqui, como a cultura popular brasileira está carregada de outras culturas e, principalmente, das culturas negras, que foram apagadas. Então é um movimento de resistência trazer essas narrativas para que a gente possa se conectar”, explica.

Para a contadora, o Ecoh é um evento inovador, que consegue trazer contadores de diversas regiões do país e ocupar espaços diversos. “Trazer essas conexões das histórias em diversos ambientes (bibliotecas, escolas, vilas culturais) é algo ainda pouco articulado no Brasil. É bem importante e inovador no sentido de aproximar a comunidade dos contadores, porque a gente conta história, mas ouve muita história também”. 

Samara Rosa com Fernanda Nasser (à esq.), Leandro Palmerah e Vanessa Morais

A ‘vila’ da resistência

O local utilizado por Samara para contar seus contos africanos não poderia ser mais apropriado. A Vila Cultural Casa da Vila, fundada em 2006, tem como propósito difundir a cultura afro e afro-brasileira. Existe como um espaço de resistência dentro de Londrina.

“O carro chefe da casa é a capoeira Angola, foi assim que começou, em 2006. Um dos professores de capoeira, que também é gestor aqui da casa (Marcelo Pinhatari), tinha voltado da Bahia, queria dar aulas de capoeira e montou esse espaço. Logo ele acessou o edital do programa de vilas culturais e aprovou como Vila. Ficou mais ou menos 6 anos como antiga Vila Cultural Brasil, depois a gente ficou com uma gestão autônoma (por alguns anos)”, relata uma das programadoras culturais da Casa, Fernanda Nasser.

Atualmente a Casa da Vila se mantém com recursos do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e, além da capoeira, tem diversas outras atividades, como oficina de costura, aulas de ioga, aulas de canto para mulheres e outras atividades focadas na difusão da cultura popular e da Lei 10.639, que trata do ensino da história e cultura afro-brasileira.

O bibliotecário Leandro Palmerah

Espaço ganha ‘Biblioteca Preta’

A biblioteca permanente da Vila Cultural Casa da Vila atrai a comunidade do entorno e também o público universitário. O espaço foi batizado de Matilde Maciel, em homenagem a uma antiga vizinha da casa e assídua frequentadora.

“Hoje ela (Matilde) não está mais aqui com a gente, mas tem muito trabalho de registro da memória dela, tem até um livro com relatos da vida da dona Matilde. Até em um documentário tem imagens da última vez que ela cantou. Ela cantava uma cantiga quando a gente levantava o mastro (da Folia de Reis). No último ano, estava bem velhinha”, relembra Fernanda.

Agora, a biblioteca ganha como reforço o acervo da Biblioteca Preta, criada pelo bibliotecário, rapper e produtor cultural Leandro Palmerah.

“O Leandro é nosso parceiro antigo aqui da casa. Ele falou que ia mudar a biblioteca de lugar e falamos para ele trazer pra cá, porque tem tudo a ver com o trabalho da casa. Daí agora a gente está com esse super acervo, que está muito especial, livros assim que são pérolas”, diz Fernanda. “É um espaço de resistência”.

Palmerah explica a concepção do espaço e como ele dialoga com o acervo pensado para difusão da cultura e da história africana e afro-brasileira. Pergunto se o empréstimo dos livros é aberto à comunidade e ele diz que sim: “O livro é livre”, brinca. Livre como deve ser o conhecimento para todas, todos e todes.

Confira programação da semana no Ecoh (os eventos que acontecem nos CMEIs são fechados para a comunidade escolar):

Terça-feira, 29 de agosto
Histórias Sertanejas – Cordel para Crianças, com Mari Bigio, de Pernambuco
Horário: 9h30
Local: Biblioteca Ramal Padre Adelino de Carli

Histórias de Nossas Memórias, com Cia CLAC, de Londrina
Horário: 10h
Local: CMEI Vanderlaine Aparecida Rodrigues Ribeiro

Tá no livro!, com Cia Zoom, de Londrina
Horário: 14h
Local: CMEI Vanderlaine Aparecida Rodrigues Ribeiro

Oficina “Da boca pra fora na ponta da língua”, com Zé Bocca
Horário: 19h30
Inscrições a R$ 20 pelo link

Quarta-feira, 30 de agosto
Histórias Sertanejas – Cordel para Crianças, com Mari Bigio, de Pernambuco
Horário: 9h30 e às 14h30
Local: Biblioteca Infantil

Gênese Yorubá, com Sire Orin, de Londrina
Horário: 21h
Local: Bar Valentino (parceria com a Feira OKUPA)