Por Beatriz Herkenhoff*
Viver não é fácil, muitos são os desafios e as adversidades.
Tem momentos em que não vemos saída, ficamos sem força, desanimados, com vontade de desistir.
Tenho escrito com uma amiga sobre a depressão e outros adoecimentos mentais e psíquicos tão presentes em nossa sociedade.
Como mãe de duas crianças, minha amiga fala sobre o seu esgotamento ao afirmar que: “Foi construído um imaginário em que cabe a nós mulheres o trabalho, o cuidado com os filhos e com a casa.”
Ela continua: “Atualmente temos uma carga tripla. Trabalhamos fora, pois em geral somos mães chefes de família, desempenhamos as funções domésticas com cuidados da casa, também somos as cuidadoras principais de nossos filhos(as), e em muitos casos ainda tentamos estudar para galgar outros espaços profissionais. Uma jornada que não tem hora para começar e nem para terminar.”
“É humanamente impossível não chegar à estafa se não houver com quem dividir essa dinâmica extenuante. A ideia de que somos guerreiras e heroínas, e que vamos aguentar tudo porque é ‘papel da mulher’, só cristaliza e naturaliza o machismo, e perpetua uma sociedade em que as mulheres estão cada vez mais adoecidas.”

O “Manifesto Antimaternalista”, de Vera Iaconeli. elucida bem essa sociedade anacrônica, que tem funcionado para manutenção desses papéis sociais. A autora realiza uma pesquisa e faz uma denúncia contundente da armadilha ideológica que responsabiliza as mulheres pelo cuidado com as próximas gerações.
Notória especialista no tema da parentalidade, a psicanalista Vera Iaconeli apresenta sua contribuição mais radical para a crítica da ideologia que considera as mulheres insubstituíveis no cuidado com as crianças. Com clareza e concisão, a autora sublinha a dimensão política do trabalho reprodutivo, já que cuidar das novas gerações é uma tarefa imprescindível para a manutenção da sociedade.
Neste “Manifesto antimaternalista”, ela lança nova luz sobre a teoria psicanalítica, revisitando autores como Freud, Lacan e Winnicott, e incorporando contribuições vindas dos estudos de gênero, das relações raciais, do pensamento decolonial e das reflexões sobre os efeitos do neoliberalismo na construção das subjetividades.
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O livro aborda a diferenciação entre gestar, assumir o parentesco e cuidar de uma vida, e, sem homogeneizar a categoria “mulher”, reconhece que a experiência da parentalidade é determinada por fatores como raça, classe, gênero e faixa etária.
Para Iaconeli, os embates sobre o cuidado e a reprodução da vida são políticos, e a psicanálise é uma arma da qual não podemos abrir mão.
Diante dos desafios vividos por minha amiga, como mãe e trabalhadora, formamos uma Rede de Apoio e Afeto que permitiu que ela enfrentasse o esgotamento advindo da tripla jornada de trabalho e se reorganizasse com esperança e confiança.
Alcir Santos (escritor e cronista), ao ler a última crônica, reforçou a importância do enfrentamento coletivo da depressão com o seguinte comentário: “Com sua sensibilidade inata, Beatriz toca, mais uma vez, num tema atual e muito delicado. Houve quem dissesse, ainda no início do século XXI, ter sido o século XX o da Depressão e este seria o da Solidão. Acertou, mas também errou feio pois a Depressão não se foi. Muito pelo contrário, parece estar crescendo na ordem direta do abandono, da indiferença e da falta de solidariedade que são a marca deste tempo. Portanto, a crônica é muito oportuna porque, além de nos tocar lá no fundo, fala da necessidade de apoio, do “chegar junto”, “do estender a mão e acompanhar.”
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Alcir tem razão, está predominando nas relações sociais a indiferença e o abandono. A sociedade e a família, muitas vezes, escolhem um membro para ser o depositário da loucura. Assim o doente é sempre o outro.
Quando nos classificamos como “sadios”, não desenvolvemos a empatia, nem a sensibilidade para caminhar junto, acolher, amar, aceitar, ouvir, apoiar integralmente. Esquecemos que o adoecimento mental é coletivo e não individual.
Conseguiremos reverter esse processo em que cada um está voltado para si mesmo, para suas preocupações e projetos?
A poesia escrita por minha amiga é fonte de esperança, pois faz um contraponto às posturas e crenças individualistas.
Poesia para o Recomeço
“Meu fôlego rotineiro
Minha válvula da Gratidão,
Minha base
Meu esteio
Meu milagre na imensidão
O amor mais puro que já vivi
A delícia dos desafios da maternidade
Podes crer que não é mimimi
Por aqui eu só falo a verdade
Nesse mundo furacão,
a gente vai prestando atenção
Em quem chega junto com maturidade
Pra deixar leve a vida nessa dura realidade,
Reerguer a cabeça,
Recalcular a rota
Refazer os passos
Este ano será o ano dos “RE”
Re-encontra-me na Fé
Reinventar-me pra ficar de pé
Recomeçar a cada amanhacer
Pra poder junto de meus filhos
Eu também me desenvolver
Acho que a magia está aí
Eu não perco a chama de crescer
Aprender
E se necessário me render,
E na mais divina transparência
Compreender que Receber:
Cuidado
Atenção,
E afeto
Fazem parte de eu me sentir novamente com vida
E de quebra ainda mais erguida
Pra então transcender, o amor que de mim pulsa e cintila
O amor que sou no mundo e por onde passei e que quase esqueci.
Bel Hooks, em ‘Tudo sobre o amor’,
deu o papo reto
‘O pessoal é político’
E eu tô |pelo certo|
E é nesse foco que vou me engajar
E perceber que pode sim ser concreto
O importante é você não duvidar
Que o seu movimento pode reestruturar
E fazer tantas coisas boas se achegar
Valorizar quem escolheu ficar,
dar as mãos, aos amigos, família, afetos,
E juntxs edificar
Uma vida doce, leve e equilibrada
Para dar passos mais firmes e assertivos
Em direção ao que a gente transborda de montão
Colo, ouvidos atentos,
E diálogos propensos
Ao que nos ajudar a remar
nas tempestades além mar
E a todxs que ao meu lado permanecem,
Eu desejo:
Amor, Fé, esperança,
Redes de apoio,
E uma vida com bonança
Alegrias e autoconfiança!
Sem isso a gente se perde
Entristece e a vida padece!
Por isso acertamos o prumo do barco,
Pra que o vento sopre a favor
E cada um encontre o seu valor!
E uma vida com sentido e muito mais cor!”
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Gostei muito quando minha amiga diz: “nesse mundo furacão, a gente vai prestando atenção em quem chega junto com a maturidade para deixar a vida leve nessa dura realidade.”
É verdade, faz muita diferença quando as pessoas chegam junto para deixar a nossa vida mais leve. Precisamos uns dos outros para superarmos os obstáculos e dores desse mundo.
Amei todas as conjugações que ela fez com o ano dos “RE”.
Esse é o grande desafio! Ela está nos convidando a recalcular, refazer, reencontrar, reinventar e recomeçar.
Como você se coloca diante desses desafios?
Nós que participamos da Rede de Apoio e Afeto somos curados e transformados ao caminhar de mãos dadas com nossa amiga!Somos parte do adoecimento dela. Quando assumimos a porção que nos cabe, tudo muda.
Ela deu um salto qualitativo quando compreendeu que receber cuidado, atenção e afeto fazem parte de se sentir novamente com vida.
Todos nós precisamos de cuidado, atenção e afeto. Mas muitas vezes queremos ser fortes e negamos receber tudo isso.
Assim permitimos que a solidão e a indiferença predominem em nosso cotidiano.
Por isso convidamos você a se inserir numa Rede de Apoio e Afeto e depois nos contar sobre essa rica experiência.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
