Reunião aconteceu no último sábado, em Londrina, como preparação para a V Conferência Estadual dos Direitos das Mulheres

Cecília França

Reportagem e fotos de Filipe Barbosa

Mulheres indígenas e representantes de entidades de defesa do direitos das mulheres realizaram, no último sábado (7), a Conferência Livre de Políticas Públicas para Mulheres Indígenas, com o tema “Mais democracia, mais igualdade e mais conquistas das mulheres”. A reunião aconteceu no Centro de Referência, Memória e Cultura Indígena de Londrina e elegeu delegadas para participação na V Conferência Estadual dos Direitos das Mulheres, agendada para 5, 6 e 7 de agosto, em Foz do Iguaçu.

A médica Guarani Nhandewa Valéria Lourenço Jacintho, representante da Associação das Mulheres da Terra Indígena Laranjinha (localizada no município de Santa Amélia, Norte do Estado), foi a delegada eleita para representar as mulheres Guarani na Conferência Estadual.

“A gente discutiu vários assuntos e demandas. Essas demandas serão debatidas em outras conferências e levadas a Brasília, na Conferência Nacional”, explica ela sobre os próximos passos.

Também participaram da Conferência a presidenta do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (CMDM), Sueli Galhardi; a representante do Conselho Estadual, Rosalina Batista; a presidenta da Amotia (Associação de Mulheres Originárias da Terra Indígena Apucaraninha), Genilda Maria Rodrigues; a presidenta da Unica (União Nacional Indígena das Comunidades Ameríndios), Ivonete Cordeiro; a vereadora de São Jerônimo da Serra Flávia Kaingang; a integrante do Movimento das Parteiras Tradicionais do Brasil, Thyara Kalahan, entre outras.

Nova realidade

A pauta da Conferência foi extensa, passando pelos direitos à saúde, à educação, aos direitos sexuais e reprodutivos, ao acesso a políticas de cuidado para idosos, pessoas com deficiência, entre outros. Genilda Rodrigues, militante há mais de 30 anos, lembra que a realidade da mulher indígena mudou e, com ela, as demandas.

“Antigamente a gente era dona de casa. Agora tem política, enfermeira, tem as professoras… a realidade mudou. Nós, mulheres, saímos para trabalhar e quem vai cuidar dos nossos idosos? Tem que ter espaço para os idosos, para as pessoas com deficiência, para os LGBTQIA+. Tem que ter creche, porque as pessoas saem pra trabalhar e quem fica com as crianças?”, exemplifica.

A Kaingang Jaisnara Claudia, professora de matemática na Terra Indígena Barão de Antonina, situada em São Jerônimo da Serra, apontou o descompasso entre as cobranças do sistema de ensino e a estrutura educacional nos territórios.

“A gente tem que cumprir metas, mas não nos dão o devido suporte, como um sala de informática acessível, com mais computadores; internet que funcione…porque tem internet na escola, mas é fraca. Então a gente tem que cumprir essas metas sem o suporte necessário”, detalha.

DELEGADAS ELEITAS

Conferência Estadual
1 Delegada: Elizete – Aldeia Apucaraninha
2 Delegada: Valeria – Aldeia Laranjinha
3 Delegada: Janaina – Aldeia Barão
1 suplente: Maira – Aldeia Apucaraninha
2 suplente: Leticia – Aldeia Laranjinha

Conferência Nacional
Delegada: Ivonete – Aldeia Apucaraninha
Suplente: Jaisnara – São Jeronimo da Serra

Machismo

Tatiele Guimarães, Kaingang da TI Laranjinha, ressaltou que a voz das mulheres ainda é silenciada em alguns territórios, refletindo o machismo que impera na sociedade. “Nós vamos aos poucos ganhando esse espaço, porque não tem como falar de território indígena e não falar da mulher; nós somos peça importante e fundamental dentro da comunidade”, define.

Primeira vereadora indígena eleita no Paraná, Flávia Kaingang sabe bem o que é enfrentar o machismo, tanto no território quanto na Câmara de Vereadores de São Jerônimo da Serra. Na Conferência, ela lembrou a herança matriarcal de sua família, com avós, mãe, e irmãs fortes, e convocou as mulheres presentes a contarem com seu mandato para alcançar direitos.

“Venham comigo para que nós possamos ter mais muheres vereadoras, prefeitas, nos nossos municípios. Eu não estou lá só pelas mulheres do meu território São Jerônimo, mas por todas nós”.

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Na cidade

As dificuldades das pessoas indígenas em área urbana também surgiram na Conferência pela fala de Ivonete Cordeiro, presidenta da Unica. Ela vive atualmente no Centro Cultural Kaingang Varè, situado às margens da Avenida Dez de Dezembro, em Londrina.

“A gente vive numa situação bem precária. Não tem saneamento básico, não tem remédio, não tem nada. A gente vive nos barraquinhos e não tem ninguém pra levar nem um saco de lixo pra gente. São muitas dificuldades que a gente tem ali no Centro Cultural”, resume.

Para Ivonete, nascida no território do Apucaraninha, a Conferência marca um momento inédito na mobilização das mulheres. “É uma coisa muito especial pra nós, pra gente se organizar, as mulheres da base, que muitas vees não têm onde chegar. É uma porta que está se abrindo para elas trazerem as demandas”.

Genilda, da Amotia, também se mostrou emocionada com o engajamento e envolvimento das parentes.

“Como uma pessoa já mais antiga na luta me sinto emocionada de saber que tem várias organizações que nasceram recentemente. É nois! Demarcaçao já! Nunca mais um Brasil sem nós, mesmo porque, antes do Brasil da coroa, já existia o Brasil do cocar”, finaliza.

Confira mais fotos da Conferência: