Seis ônibus fretados, um londrinense condenado e outro denunciado por financiamento dos atos golpistas; o que levou ao extremismo?
Cecília França
Foto em destaque: Invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro/Marcelo Camargo-Agência Brasil
*Atualizada em 08/01 às 15h
“A coisa foi tensa, cinematográfica, tudo ao mesmo tempo. Bonita, emocionante, certo? E nós invadimos. Prometemos que ia invadir e invadimos”, declarou um londrinense em áudio recebido pela reportagem da Rede Lume no dia dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Um ano depois, ao menos um morador da cidade foi condenado por participação na depredação da Praça dos Três Poderes e outro denunciado por financiamento dos atos antidemocráticos.
No mesmo dia dos atos a Lume revelou que ao menos quatro ônibus haviam partido de Londrina rumo a Brasília. Dias depois houve a confirmação de que haviam sido seis. De acordo com denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), apresentada no dia 14 de dezembro, quatro foram financiados pelo empresário Pedro Luis Kurunczi ao custo de R$ 59,2 mil.
A articulação para a viagem ocorreu tanto no acampamento bolsonarista, que permaneceu montado por 70 dias no entorno do Tiro de Guerra, quanto nas redes sociais. Postagens chegavam a falar em 20 ônibus com destino à capital federal e participação gratuita. Os manifestantes buscavam depor o governo Lula (PT), eleito em outubro de 2022.
Após a escalada de violência do que deveria ser uma manifestação, londrinenses foram orientados a buscar formas de retornar para a cidade, sem os ônibus, e evitar prisões, como mostra áudio recebido pela reportagem na época e mensagens trocadas em grupos. Dois dias depois, os seis ônibus da Viação Garcia que fizeram a viagem foram localizados em uma garagem em Goiânia (GO).
Mais de 1.900 pessoas de todo o país foram detidas logo após os atos, que incluíram a depredação dos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao menos oito londrinenses foram presos e um deles, Orlando Ribeiro Júnior, condenado. A sentença de 3 anos de prisão foi anunciada no dia 13 de outubro.
Um ano depois, em 8 de janeiro de 2024, a Polícia Federal executou nova fase da Operação Lesa Pátria em diversos estados e, em Londrina, um estudante foi alvo de busca e apreensão.
Ao todo, 66 pessoas seguem presas pelos atos, de acordo com o STF. Entre estes, oito já foram condenadas pelo Supremo; 33 foram denunciadas como executoras dos crimes praticados em 8/1 (duas foram transferidas para hospital psiquiátrico); e, a pedido da PGR, seguem presas 25 pessoas investigadas por financiar ou incitar os crimes, até a conclusão de diligências em andamento.
Em 14 de dezembro a PGR noticiou o indiciamento do primeiro financiador dos atos, o londrinense Pedro Kurunczi. Ele teria pago R$ 59,2 mil pelo fretamento de quatro ônibus e, segundo a denúncia, também incitou a realização dos atos de depredação. A PGR pede que o suspeito seja julgado por golpe de estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa, deterioração de patrimônio tombado e dano qualificado pela violência contra o patrimônio da União.
O cientista político Elve Cenci lembra que o Partido dos Trabalhadores (PT) nunca contou com apoio expressivo no Paraná e outros estados que compõe o “cinturão do agronegócio”, como Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do sul e Mato Grosso. Londrina está situada nesse contexto.
“Enquanto a disputa acontecia entre PT versus PSDB a conduta dos eleitores permanecia apenas no campo eleitoral. Passada a eleição tudo voltava ao normal. Com o advento da extrema direita, em 2018, tudo mudou. Bolsonaro passa a fazer o discurso que vê o adversário eleitoral como inimigo. Os eleitores mais radicais entenderam que as urnas eram suspeitas e o resultado eleitoral de 2022 deveria ser mudado. A ideia era provocar o caos em Brasília para que os militares fossem chamados a intervir para manter a lei e a ordem. Com isso o golpe aconteceria e Lula seria deposto. Alguns londrinenses acreditaram nessa tese”.
Do lavajatismo ao 8/1: Londrina nos holofotes
O que levou parte do país (e londrinenses) ao extremismo que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro? A postura de destruição do “inimigo” – e não mais adversário político – encontra ecos no período ditatorial, mas se solidificou mais recentemente, com contribuição decisiva da Operação Lava Jato.
O fato de um londrinense ser o primeiro denunciado pelo financiamento dos atos golpistas chama a atenção para o protagonismo da cidade em episódios de relevância nacional, ainda que de naturezas distintas, como a Operação Lava Jato, que teve sua primeira fase em Londrina, em março de 2014. Na data, propriedades de Alberto Youssef foram alvo de busca e apreensão e o doleiro acabou preso no Maranhão.
A operação que começou com foco no combate à corrupção acabou “avançando o sinal da legalidade e se tornando fenômeno midiático e de pretensões políticas”, destaca Elve Cenci. “O fato de Deltan (Dallagnol) e (Sérgio) Moro estarem na política é a consequência de algo que já era perceptível à época”, afirma.
Em outra dimensão, Cenci analisa que a Lava Jato implodiu o sistema político-partidário. “Dos grandes partidos existentes quando a Lava Jato começou o único que sobreviveu até certo ponto ileso foi o PT. Os demais partidos se tornaram, hoje, coadjuvantes. PSDB e MDB são uma sombra do que já foram.”
No mesmo momento histórico, os protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff uniram diversos grupos de oposição ao PT, destacando movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre). Todo esse ambiente tornou-se propício para o fortalecimento da extrema direita.
“O PSDB, que esperava colher a fatura dos protestos e da Lava Jato, foi sumariamente abandonado como mais do mesmo. Os protestos permitiram o surgimento de lideranças que passaram a usar a estrutura partidária apenas como espaço institucional necessário, não como projeto estruturado para o país. Também fortaleceu candidatos com perfil populista e de extrema direita. É nesse espaço que podemos entender o surgimento do Bolsonaro. Bolsonaro é somente o nome que deu vazão a um movimento mais forte. Com ou sem ele a extrema direita continuará forte no Brasil”, ressalta Cenci.
O cientista político lembra, ainda, que uma cultura histórica autoritária e antidemocrática perdura no Brasil, ainda sob efeito dos 20 anos de Ditadura Militar. “O discurso dos grupos mais radicais da extrema direita é o mesmo de 1968: fim do comunismo, ameaça às instituições, defesa dos valores tradicionais”, pontua.
O jornalista Fábio Silveira, especializado em cobertura política, concorda que o ambiente político resultante da Lava Jato contribuiu para o avanço e a chegada ao poder da extrema direita. Para ele, esse movimento remete à crise do capitalismo, originada nos Estados Unidos a partir de 2008, e as demandas dos donos do capital naquele momento.
“É a história da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) de ‘não vamos pagar esse pato’, jogando ‘o pato’ para cima dos trabalhadores. E aí fica difícil, no meio de uma crise distributiva, em uma democracia, dizer ‘Nós vamos fazer um ajuste e a conta vai para os trabalhadores’. Ninguém ganha a eleição prometendo isso”, exemplifica.
A Lava Jato serviu de munição para os discursos de que toda corrupção encontrava-se no estado e possibilitou a implementação de projetos antipopulares, como a reforma trabalhista do governo Michel Temer, e os desmontes do governo Bolsonaro.
“Esse discurso da corrupção tira o eixo da discussão do país, de como resolver a crise. E aí alguém entra para arrochar salários, fazer a reforma trabalhista, como o Temer fez. Mas claro que ninguém ganha eleição dizendo isso, então fala que vai tirar as pessoas que estão roubando. E tem esse discurso moralista, que extrapolou também para os costumes”, ressalta.
Pautas anti LGBTQIA+, contra o aborto, pela família tradicional, ganharam eco entre a população conservadora do país – e de Londrina.
Londrina ‘tem perfil conservador’
Muitas vezes apontada como uma cidade de vanguarda, Londrina deu vitórias absolutamente expressivas a Bolsonaro nas duas eleições presidenciais que disputou, a primeira com vitória, em 2018, e a segunda derrotado por Lula, em 2022.
“A postura progressista de Londrina sempre esteve atrelada a grupos de vanguarda na cultura, educação e movimentos sociais. Nunca foi conduta da cidade como um todo. A cidade tem perfil conservador, basta ver a votação do Bolsonaro nas duas últimas eleições, os protestos contra Dom Geremias ou os ataques feitos à UEL. As três eleições vencidas pelo PT foram circunstanciais”, destaca Elve Cenci.
Fábio Silveira acredita que o fato de a primeira denúncia pelos atos golpistas de 8/1 ter sido contra um empresário londrinense é circunstancial, por ter mais provas, ou algo semelhante. Ele acredita que existam financiadores maiores.
“Uma coisa que eu constatei é que essas lideranças conservadoras não estavam no radar da política local. Talvez estivessem nos confins da internet, de onde surgiu o Olavismo, com teorias conspiratórias. Eles nunca estiveram nessa política formal. E isso me remete a Hannah Arendt (filósofa política alemã de origem judaica), em ‘As Origens do Totalitarismo’, em que ela fala o seguinte: Quem eram as pessoas, essa massa que virou militância do totalitarismo, do nazismo, na Alemanha? Eram pessoas que não se interessavam por política. Pessoas, até então, aparentemente neutras, que nunca foram a uma reunião de sindicato, de condomínio, em que tivessem que argumentar, que defender uma ideia. Então são pessoas que nunca fizeram parte pelo debate público. Essa massa, aparentemente despolitizada, é que foi a base de sustentação do movimento totalitário nazifascista”, compara.
Nos “confins” da internet, discursos de ódio acabaram se encontrando e resultando em “mundos paralelos”.
“Uma pesquisa divulgada no fim do ano mostrou que, na bolha bolsonarista, a gasolina está mais cara, o dólar mais alto, a carne está mais cara agora, no governo Lula, que no governo Bolsonaro. A gasolina está cara, mas já bateu 8 reais no momento do governo anterior. E é interessante que as pessoas não conseguem ter consenso nem mesmo sobre isso, o preço das coisas, então é muito difícil a gente construir um mundo comum”, ressalta Silveira.
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