Por Vinícius Fonseca*
Na última coluna eu falei sobre a importância de se criar espaços para as Pessoas Com Deficiência (PCDs), não só na esperança de que nos enxerguem como um público consumidor, mas também como produtores de conteúdo, vozes da causa da maior minoria do País. De lá para cá muita coisa aconteceu e eu me peguei refletindo ainda mais sobre os espaços, gostaria de dividir com vocês, leitores, alguns pensamentos e algumas dores que essas reflexões me trouxeram.
Acontece que o mês atual é conhecido como Abril Azul, mês da conscientização sobre o autismo. Não vou entrar no mérito dos tipos de espectros autistas ou dos desafios de pessoas atípicas e daqueles que as cercam, nos cuidados e tudo mais que o autismo envolve. Eu quero mesmo é falar sobre a forma como a mídia tem se comportado neste mês.
Uma enxurrada de matérias tentando explicar o autismo, falando com pais, profissionais especialistas na temática, contando as histórias de autistas pelo Brasil e pelo mundo. Não duvido da boa intenção de alguns pauteiros, mas estamos no dia 22 de abril e parece que o autismo e suas características e desafios deixaram de ser um tipo de deficiência, que expira sim compreensão e aceitação social, para se tornar mais um produto de mídia.
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Viram os espectros de ponta cabeça, “espremem” o tema até não poder mais. Para completar o show de notícias tivemos ainda o caso do aluno autista que morreu em Santos, poucos dias depois de ser agredido por colegas na escola que estudava na cidade do litoral paulista.
Quanto à morte ter relação direta com a agressão e se isso será tratado como um crime pela polícia, eu prefiro esperar mais para saber. No entanto, aqui está uma das dores: saber que o bullying com PCDs segue firme e forte ainda hoje. Talvez isso até mereça uma coluna nas próximas semanas.
Outra dor é a de saber que se aproveitando do Abril Azul, o autismo seja tão explorado pela mídia e no mês que vem, como será? Provavelmente esquecido e voltamos à nossa programação normal.
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Precisamos de espaços que sejam mais permanentes, não apenas dos que se valem de uma data ou mês específicos. Precisamos discutir sobre outras deficiências, mostrar toda a pluralidade e capacidade de PCDs. Precisamos combater crimes contra PCDs, como o possível crime de Santos.
Enfim, ainda temos muitos espaços para gerar, coisas a conquistar, temos muito para pensar e, principalmente, dores para curar.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a Lume em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.
