“Eles não me aceitam por eu ser mulher”, diz Luana Aparecida Correia sobre pessoas contrárias ao seu mandato; conflito no território já deixou ao menos duas mulheres feridas
Cecília França
Desde a última segunda-feira (12), a Kaingang Luana Aparecida Correia não consegue acessar a Terra Indígena (TI) Queimadas, em Ortigueira, onde é cacica há dois anos. Durante esses quatro dias ela também está sem contato com os filhos, de 2 e 4 anos, que estão no território. Isto porque grupos contrários a seu cacicado queimaram a ponte de acesso à TI e derrubaram árvores nos acessos secundários. Eles querem a destituição de Luana e a posse do atual vice-cacique. Duas mulheres foram baleadas durante o conflito, sendo uma gestante que precisou de atendimento hospitalar. A TI segue isolada.
Os contrários à cacica alegam que ela teria cometido irregularidades financeiras e desviado dinheiro com a promoção de um show no território. Luana, no entanto, apresentou todas as notas em reunião no Ministério Público Federal (MPF) e afirma que as denúncias têm a ver com preconceito de gênero.
“Eles não me aceitam por eu ser mulher. Desde o tempo que assumi de cacica, em 2023 – a primeira mulher cacique do Paraná – venho recebendo ameaça. Eu tenho a minha companheira, por isso também venho sofrendo preconceito. Já tentaram quatro vezes me tirar de cacique, não conseguiram por falta de provas. Agora, dessa vez, me acusaram de roubo, mas tenho as notas tudo aqui”, afirma.
Desde segunda Luana também não tem notícias dos filhos. “Não estou sabendo de nada deles. Está muito ruim pra mim”, desabafa.
Marcos Cesar Cavalheiro, chefe da Coordenação Técnica Local da Funai, diz que as lideranças da revolta já foram intimadas a desbloquear as estradas, pois está sendo cerceado o direito de ir e vir. Porém, até a manhã desta sexta-feira, ele ainda não havia recebido informações sobre o desbloqueio.
Versões
A repercussão do conflito na mídia fez com que Luana buscasse espaço para expor sua versão dos fatos. As notícias veiculadas chegam a dizer que os ataques dentro da TI teriam sido ordenados por ela, ou que os tiros que atingiram as mulheres partiram de apoiadores da cacica. Ela nega.
“Estão inventando de mim que estou fugindo, mas na verdade estou buscando meus direitos, pra voltar pra TI de cabeça erguida”, afirma. Na terça-feira, Luana foi escoltada pela polícia para tentar entrar no território, mas foram impedidos.
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A cacica garante que a maior parte da comunidade está do seu lado. “Quero concluir o mandato porque tudo isso que estão me acusando é mentira, não quero dar o gosto de me acusarem mais. E não é a aldeia inteira que está contra meu mandato, só umas cinco famílias”. Atualmente, mais de 380 famílias vivem na TI Queimadas.
‘Situação preocupante’
Na segunda-feira Luana esteve no Ministério Público Federal (MPF) em Londrina para prestar contas sobre as denúncias, na presença da Funai e do Conselho Estadual dos Povos Indígenas. Após apresentação das notas por ela e da ausência de provas por parte dos acusadores, ficou definido que ela continua no cacicado. Mas na volta para casa, Luana já não conseguiu entrar na TI.
De acordo com Marcos Cesar Cavalheiro, a situação é preocupante. “Inclusive já foram acionadas as forças policiais para que sejam apurados os fatos, tendo em vista que está chegando muitas informações conflituosas”, explica.
Marcos diz que está cobrando do Conselho Estadual que tome uma posição que possa pôr fim ao conflito. “Não pode a Luana continuar nessa situação de vulnerabilidade”, afirma. Mas a Funai não pode intervir para além da mediação, diz o representante.
Em relação aos filhos da cacica, permanece o impasse. Luana ainda busca saídas para tirá-los da TI em segurança.
AMIOR pede justiça
A Associação de Mulheres Indígenas Organizadas em Rede (Amior) emitiu nota sobre a situação na TI Queimadas na qual aponta a necessidade de os órgãos responsáveis buscarem resolução imediata do conflito e condena a violência que atinge mulheres e põem em risco crianças, como os filhos da cacica.
“Esse território já foi terra de muitos conflitos os quais teriam sido resolvidos sempre internamente, jogando para baixo do tapete inclusive um homicidio. A Amior tem uma posição clara, que é da justiça e pelo fim da violência. Não acreditamos em justiça feita pelas próprias mãos!”
Ataques anteriores
Marcos Cavalheiro diz que a Funai tomou conhecimento de outro conflito em Ortigueira em janeiro deste ano, pelo mesmo motivo, “mas sem tanta revolta e violência”.
Luana conta ao menos três ataques que sofreu nos últimos anos, como invasão à sua residência, violência física e tentativa de suborno. Tudo, de acordo com ela, foi denunciado à polícia.
