Jovens que participaram do projeto “Aos olhos de uma criança”, do coletivo Ciranda da Paz, vão lançar um livro e encenar uma peça sobre a história da favela da Bratac durante evento que acontece no Canto do MARL

Mariana Guerin

Publicada em 21 de junho de 2023

Neste sábado (24), a Vila Cultural Canto do MARL recebe uma programação especial, em comemoração aos sete anos do Projeto Cultura em Resistência e aos dez anos do Movimento dos Artistas de Rua de Londrina.

O Cultura em Resistência surgiu durante a pandemia, como uma alternativa encontrada pelo MARL para realizar o plano de trabalho das ações contempladas pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina (Promic).

“Naquele período, o Cultura em Resistência tinha um modelo de bate-papo, de roda de conversa com pessoas trabalhadoras da cultura, envolvidas com a produção artística e a fruição cultural. Era um momento em que a gente refletia bastante sobre a nossa sobrevivência enquanto classe artística e classe trabalhadora”, explica Renata Santana produtora administrativa do projeto.

Segundo ela, um segundo projeto do Promic, que tem sido executado na Vila Cultural, engloba as comemorações dos dez anos de existência do MARL e dos sete anos de Okupação artística e cultural do espaço, que antes era a sede da União Londrinense dos Estudantes Secundaristas (ULES). “O Cultura em Resistência é retomado dentro desse novo plano de trabalho, como uma ação de celebração do MARL e de resistência também.”

Ao longo dos sete anos, o MARL fez diversas ações na Vila Cultural, sempre multiculturais, como feiras, apresentações artísticas, além de ser a sede do Feirão da Resistência da Reforma Agrária.

“Tivemos a mostra MARL, que é uma ação de demonstração de trabalhos que são realizados pelos residentes da vila”, cita Renata, lembrando que eles são fluidos. “Cada ano tem novos residentes chegando e outros saindo.”

Conforme ela, a mostra se configura a partir de quem está ocupando o espaço. “O Cultura em Resistência e o Curso Livre de Teatro de Rua são ações estratégicas que acontecem dentro Vila. Estamos aí finalizando o terceiro módulo e vai ter demonstração de trabalho nesse evento de sábado.”

Renata destaca outras ações que são realizadas não só no espaço do MARL, mas em territórios, como o Festival Maré, que aconteceu nas periferias da cidade. “Geralmente as pessoas que participam da elaboração, da construção e da manutenção do projeto são as que estão diretamente envolvidas com a Vila.”

Entre elas, a programadora artística, Amanda Marcondes, e a própria Renata, como produtora administrativa, que, juntas, pensam a logística do projeto. “E a gente convida artistas para participar. Nesta edição do Cultura em Resistência, a gente pensou em fazer a celebração dos dez anos do MARL com vários eventos em parceria com coletivos artísticos da cidade.”

Este ano, já foram realizados três eventos: o primeiro foi o Fest MARL, que foi a retomada das festas no Canto do MARL, o segundo foi em parceria com o Quizomba e o terceiro em parceria com as Vilas Culturais, “todos dentro do projeto Cultura em Resistência – 10 anos de MARL”, reforça a produtora.

Leia também: Confira como foi a festa de dez anos do MARL

De acordo com Renata, a programação dos sete anos de ocupação da Vila Cultural já está acontecendo. “A gente iniciou a oficina de grafite para a feitura do muro externo, que vai até sexta-feira e, no sábado, a partir das 14 horas, começa a festa.”

Na programação, está previsto bate-papo com o grupo O Bonde, de São Paulo, em parceria com o FILO (Festival Internacional de Londrina). “Uma atração do FILO que vai acontecer lá no nosso espaço, dentro do nosso evento.”

Também vai haver demonstração do resultado da quarta edição do projeto Marcas no Corpo, “que é um projeto de oficina de teatro para mulheres cis, trans e pessoas com trans identidades, e o resultado do terceiro módulo do Curso Livre de Teatro de Rua, que é conduzido pela Fábrica de Teatro do Oprimido”, assinala Renata.

Crianças da Bratac lançam livro e peça de teatro

“Também vamos ter a demonstração de um trabalho do coletivo Ciranda da Paz, do Jardim Nossa Senhora da Paz, que é o projeto ‘Aos olhos de uma criança’, de oficinas de contação de história e teatro infantil. Dentro desse projeto, as crianças escreveram um livro e montaram um espetáculo que vai ser apresentado lá no nosso palco”, diz Renata.

O livro “Esmeralda” e a peça de teatro “A história favela da Bratac” foram frutos do projeto “Aos olhos de uma criança: o ponto de vista dos pequenos moradores da Favela da Bratac através do teatro e da literatura”, que contou com duas oficinas: de teatro infantil e de criação de história coletiva, com patrocínio do Promic.

Na oficina de criação de história coletiva, voltada à contação de histórias da literatura infantil afro-brasileira, as crianças e adolescentes que fizeram parte desta caminhada criaram uma história própria, que virou o livro “Esmeralda”. De forma lúdica, a obra traz a proposta de se pensar os reflexos do racismo na infância e, ao mesmo tempo, uma reivindicação por respeito e pela liberdade de poder ocupar todos os espaços que se quiser.

Já para a apresentação “A história favela da Bratac”, as crianças e adolescentes junto da oficineira montaram roteiro e figurino para mostrar ao público o ponto de vista deles sobre si mesmos e o local onde vivem, com o intuito de modificar a visão dos não moradores em relação ao bairro que é estereotipado pelas mídias sensacionalistas de Londrina.

A programação conta ainda com show da rapper Luli Rodrigues, que participa da ocupação desde o início e é figura importante para a história do movimento. “Ela vai trazer o seu show solo com dançarino. Vai ser um show superlegal e junto com a DJ Dani Black, que vai acompanhar o show da Luli, mas também vai ter o seu momento de discotecagem”, declara Renata.

Para encerrar a noite, a programação trará a discotecagem da DJ Shaitemi Muganga, de Belo Horizonte (MG). “A DJ é o pseudônimo da performer Nina Caetano, que está vindo para fazer sua performance urbana dentro da programação do FILO. É uma festa imperdível e vai ser bem legal poder contar com a comunidade londrinense.”

Cultura em Resistência

A ocupação artística do antigo prédio da União Londrinense dos Estudantes Secundaristas (ULES) ocorreu no dia 27 de junho de 2016, data que marca o Dia de Luta contra a criminalização de Artistas de Rua, em referência ao assassinato da atriz e produtora cultural Lua Barbosa, morta com um tiro nas costas durante uma blitz policial.

O MARL escolheu esta data simbólica para reverenciar a memória da Lua, das pessoas artistas que se foram, que resistem e que virão. É uma data que também celebra a luta e a resistência do MARL pela manutenção e sobrevivência do espaço e de artistas.

Confira a programação completa:

14h: Bate-papo “grupo o bonde” – FILO

14h – 18h: Feira cultural

14h – 18h: Live Paint com Priscila Johnson

15h30: Demonstração de trabalhos do Curso Livre MARL

16h30: Demonstração de trabalho do projeto MARCAS

17h: Palco livre

18h: Lançamento do livro do projeto Aos olhos de uma criança

18h30: Demonstração do resultado do projeto Aos Olhos de uma criança

19h30: Discotecagem com Dani Black

20h30: Show com Luli Rodrigues

21h30 – 23h30: Discotecagem com Shaitemi Muganga (MG)

Entrada gratuita até as 18h; após será cobrada contribuição de R$ 10

Endereço: Avenida Duque de Caxias, 3.241

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