‘Por que meu corpo chega antes?’, perguntava-se a pesquisadora e autora do livro Lute como uma gorda
Cecília França
Foto em destaque: Malu Jimenez com seu livro sobre gordofobia/Ju Queiroz
A filósofa e doutora em Estudos de Cultura Malu Jimenez, 52, compreendeu a estrutura gordofóbica na qual estava inserida ao longo de sua trajetória acadêmica, quando descobriu o conceito de gordofobia. Mas garante: desde a infância sente os impactos de ser uma pessoa gorda.
“Sempre houve um incômodo na forma como a sociedade me tratava como mulher gorda, mas eu não sabia elaborar o que acontecia. Então, meu corpo sempre chega antes do que eu. Meu corpo chega antes numa entrevista de trabalho; meu corpo chega antes numa entrevista de bolsa; meu corpo chega antes num relacionamento, amoroso ou não. Chega antes na minha família, e assim por diante. Então, quando eu descubro esse conceito, começo a entender o meu lugar no mundo, porque que eu sofri tanta violência por ser uma mulher gorda. E aí eu penso ‘Vou querer estudar isso’”, conta ela à Rede Lume.
Na última sexta-feira (8) Malu esteve em Londrina para uma roda de conversa sobre gordofobia na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e, à tarde, autografou seu livro “Lute como uma gorda”, que está na segunda edição, na Livraria Olga.

Malu trabalha com pesquisa gorda, um contraponto às pesquisas de obesidade, ligadas à saúde (e à doença).
Confira entrevista completa concedida por ela à Lume.
REDE LUME: Malu, conte sua trajetória profissional e acadêmica até chegar à pesquisa que resultou no livro “Lute como uma gorda”.
MALU JIMENEZ: Eu fiz filosofia na UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Marília. Depois eu fui para a Espanha, fiz filosofia na Universidade de Granada, e lá eu tive contato com duas disciplinas que mudam o meu caminho, porque eu não me sentia muito pertencente àquela filosofia europeia que eu aprendi aqui no Brasil. Lá eu tive contato com Antropologia Cultural e Antropologia Filosófica, que abriu o meu contato para estudos decoloniais, filósofos latino-americanos e isso mudou meu rumo de identificação como pesquisadora. Eu prestei doutorado em Antropologia Cultural para estudar a juventude indígena no Mato Grosso. Eu cheguei a ir para lá, mas, por problemas pessoais, eu tive que trancar.
E lá na UFMT eu comecei um Mestrado em Estudos de Cultura, onde eu estudei a relação entre patroas e empregadas domésticas a partir da alimentação. Essa pesquisa foi muito importante porque foi nela que eu comecei a perceber o horror que aquelas mulheres, tanto as domésticas quanto as patroas, tinham ao engordar. E como elas se organizavam focadas no emagrecimento. A escolha da alimentação, da atividade física, do vestuário, da trajetória dos filhos, tinha a ver com emagrecimento. Aí isso transbordou para fora da pesquisa. Comecei a perceber que as mulheres falavam muito em emagrecimento, no ponto de ônibus, na sala dos professores, e eu comecei a pesquisar. Aí eu tive uma sacada: tem algum fenômeno, não pode ser social, que atinja principalmente as mulheres quanto a essa ‘caça às gorduras’, digamos assim.
Quando eu tive essa sacada, falei ‘vou dar uma pesquisada, ver se já não tem alguém falando sobre isso’. Aqui no Brasil, em 2014, a gente não ouvia quase falar em gordofobia. Hoje a gente já ouve, mas naquela época não se ouvia nada. Então eu comecei a pesquisar ‘na gringa’ e eu descobri que existiam pesquisadores do mundo todo, mas principalmente uma concentração nos Estados Unidos, principalmente mulheres, feministas, gordas, que pesquisavam o corpo gordo de um outro ponto de vista, um ponto de vista cultural, humanizado. Isso me interessou muito, mudou minha perspectiva de um monte de coisas, principalmente de mim mesma, que sou uma mulher gorda, fui uma bebê gorda, fui uma jovem gorda, uma adolescente, uma criança, uma adulta, e, provavelmente, vou ser uma velha gorda. Então o contato com esses estudos mexeu muito com a minha história e com a forma como eu entendia meu corpo, como eu me entendia no mundo.
“A partir disso eu comecei a pesquisar o que essas mulheres estavam produzindo enquanto ciência e eu descobri o conceito de gordofobia. Tudo começou a fazer sentido pra mim. Sempre houve um incômodo da forma como a sociedade me tratava como mulher gorda, mas eu não sabia elaborar o que acontecia”
Então o meu corpo sempre chega antes do que eu. Meu corpo chega antes numa entrevista de trabalho; meu corpo chega antes numa entrevista de bolsa; meu corpo chega antes num relacionamento, amoroso ou não; chega antes na minha família, e assim por diante. Então, quando eu descubro esse conceito, eu começo a entender o meu lugar no mundo, porque eu sofri tanta violência por ser uma mulher gorda, e aí eu penso: eu vou querer estudar isso e presto um doutorado na UFMT, também em Estudos de Cultura.
Naquele momento, as pessoas davam risada quando eu falava que ia pesquisar o corpo gordo. Não foi tão fácil, mas eu passei em segundo lugar num programa super disputado e comecei, então, a pesquisar o corpo gordo dentro do doutorado.

Meu foco era o corpo gordo feminino. Então eu fiz uma etnografia e uma auto etnografia. Eu começo a partir do meu corpo a falar sobre o que significa ser uma mulher gorda no mundo, as minhas dores, as minhas vulnerabilidades. Mas também eu trago depoimentos de mulheres gordas, principalmente do Brasil, que (mostram que) não acontecia aquelas violências só comigo, acontecia com as Marias, com as Joanas, com as Paulas, com as Rafaelas, e assim por diante.
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Só que no meio desse caminho eu percebo que as pessoas não sabem o que é gordofobia, poucas pessoas gordas acessam esse debate, e aí eu penso que preciso criar um projeto para levar essa discussão além dos muros da universidade. E aí eu crio um projeto que se chama Lute como uma gorda, que existe até hoje. Num primeiro momento a gente ia em bares, em Cuiabá (MT), onde eu estava, e a gente fazia rodas de conversa, mas isso começou a transbordar para outros Estados, para outras formas de falar sobre gordofobia – palestras, fotografia…Também faço um trabalho que a gente ganhou prêmios, inclusive, sobre fotografia de resistência, que inclusive está na minha tese.
Eu não separo muito conhecimento, ciência e arte, para mim está tudo junto, então a gente fez vários trabalhos no Brasil, fora do Brasil, com fotografias, com texto, roda de conversa, palestras, oficinas, cursos, e esse nome que eu dei ao projeto acabou virando o nome da minha tese e, depois, virou o nome do meu livro, que está agora na segunda edição. A primeira saiu em 2020, esgotou. Em 2022 saiu a segunda.

RL: Quando você compreendeu as opressões sociais pelo fato de ser uma mulher gorda?
MJ: Eu sempre entendi que tinha alguma coisa errada por eu ser gorda, já na minha infância. A forma como a minha mãe falava comigo, as minhas irmãs, como eu era, às vezes, repreendida pela família, na escola, com amiguinhos. O meu corpo estava errado e eu precisava fazer com que ele emagrecesse para eu ser aceita, para eu ser amada, para eu conseguir as coisas, um bom emprego, uma boa amizade, um bom relacionamento. Então, sempre me incomodou isso, sempre me machucou, obviamente, mas eu não sabia elaborar porque o meu corpo chegava antes de mim.
Eu só fui entender, compreender tanta violência comigo quando eu começo os estudos do corpo gordo, a pesquisa gorda, e aí eu começo a entender que existia um preconceito com pessoas gordas, um preconceito estrutural, institucionalizado. O que significa isso? Que a forma como a gente pensa é gordofóbica, eu sou gordofóbica, você, as pessoas que vão ler a gente são gordofóbicas. Isso está nos móveis, está na forma como as pessoas olham, pensam, constroem saberes, se organizam.
Então a gordofobia é estrutural. Ela é sistemicamente organizada na nossa sociedade, em todos os lugares acontece gordofobia. Acontece na saúde, acontece na educação, acontece na comunicação, na mídia, em todos os lugares, em todos os momentos.
RL: As entrevistas para sua pesquisa te descortinaram outros impactos que, talvez, você não tivesse vivenciado?
ML: Eu não trabalhei muito com entrevista formal, era mais nas redes sociais. Eu tenho um Instagram, na época se chamava Estudos do Corpo Gordo, onde eu fazia perguntas: “Você já sofreu gordofobia no mercado de trabalho?”, por exemplo. Aí as mulheres entravam e respondiam. E eu também seguia alguns fóruns, alguns grupos, onde eu ia lendo esses depoimentos e trazendo para a minha tese e analisando. Até hoje eu faço isso.

Acho importante dizer que hoje no mundo existem duas formas de estudar o corpo gordo. Os estudos da obesidade, que são estudos ligados à saúde, nos quais, a partir de um cálculo do IMC eles colocam aquele corpo gordo, se ele passa de um número, de um “limite”, vai ser considerado doente, vai ser considerado obeso. E existem os estudos transdisciplinares das corporalidades gordas, a pesquisa gorda, no qual a gente critica e denuncia os estudos da obesidade.
“Diferente dos estudos da obesidade, que não levam em consideração o que as pessoas dizem, pensam, suas histórias, suas subjetividades, nós, da pesquisa gorda, estamos muito preocupados com o que essas pessoas têm para falar. Elas fazem parte da composição de saberes sobre esses corpos. Não existe, para mim e para a pesquisa gorda, construção de saberes sobre as corporalidades gordas se as pessoas gordas não participam dessa construção de saber.”
Até hoje eu uso depoimentos; até hoje, nas minhas palestras, rodas de conversa, as histórias são muito importantes; o que essas pessoas têm para falar e contar é muito importante – até porque as pessoas magras não têm noção do que acontece com pessoas gordas. Na minha tese, por exemplo, quando eu fui defender, era uma banca de várias mulheres, mulheres feministas, estudiosas, intelectuais, todas se emocionaram muito quando eu conto o que significa ser uma mulher gorda no mundo, porque elas não imaginavam que era tão violento. Infelizmente, a gente precisa falar sobre isso para as pessoas perceberem como é violento, como é desumano e como é assustador.
Então, esses depoimentos, com certeza, trouxeram outras vivências. Algumas eu me identifiquei muito, mas existe também uma ideia nos estudos da obesidade, equivocada, de universalizar o corpo gordo, como se todo corpo fosse igual, e não é. Vai depender. Cada pessoa gorda, cada mulher gorda, tem as suas vivências, as suas culturas, além de que tem os recortes: de raça, de gênero, sexual, de classe. Então é claro que uma mulher negra periférica tinha outros atravessamentos que eu não tinha. Uma mulher trans gorda vai ter outros atravessamentos que eu não tenho, e assim por diante. Muitos depoimentos me atravessaram de outros impactos, com outras violências que eu não tinha vivenciado e nem imaginava que isso poderia acontecer.
RL: Como mudar a abordagem dada às pessoas gordas pela mídia e o entretenimento (muito associada a doenças ou motivo de chacota)?
MJ: Eu acho que a mudança da abordagem às pessoas gordas pela mídia, pela comunicação, pela indústria do entretenimento é urgente. E para isso mudar precisa de um letramento, dentro mesmo das universidades. A gente precisa pensar num currículo que fale sobre corpos dissidentes, que fale sobre gordofobia, que traga esses debates dos estudos do corpo gordo para dentro da formação desses futuros jornalistas, desses futuros profissionais da área do entretenimento, para que eles modifiquem a forma como eles abordam as corporalidades gordas.
