Reunião nesta quinta (10) acontece após declarações consideradas aporofóbicas sobre presença de moradores de rua na Catedral

Cecília França, com informações de Filipe Barbosa

Foto: Registro da reunião, que aconteceu na Mitra Diocesana/Divulgação assessoria Arquidiocese

A Arquidiocese de Londrina recebeu, nesta quinta-feira (10), representantes do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) para discutir caminhos possíveis em relação à presença de pessoas em situação de rua na Catedral. A reunião acontece após uma reportagem de TV apontar a presença dessas pessoas no interior da igreja como motivo de insegurança para os fieis. O posicionamento foi endossado pelo pároco da Catedral, padre Joel Ribeiro.

As declarações provocaram reação do MNPR e do Centro Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (CEDDH), que encaminharam ofício conjunto à Arquidiocese solicitando diálogo. Na reunião de hoje, Leonildo Monteiro, coordenador nacional do MNPR e conselheiro do CEDDH, e André Luís Barbosa, do MNPR em Londrina, tiveram a oportunidade de conversar com o Arcebispo Dom Geremias Steinmetz e pessoas da comunidade da Catedral.

Para Leonildo, a reunião abre um caminho para igreja e Movimento pensarem, em conjunto, ações de sensiblização e propostas que possam viabilizar, de fato, a superação da situação de rua.

Sara Toninato, apoiadora do movimento; Leonildo Monteiro; André Barbosa e Dom Geremias após a reunião/Foto: Filipe Barbosa

“Foi uma oportunidade para nós, da sociedade civil, e para o Centro Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de garantir os direitos da população de rua e trazer um pouco de quem somos nós, o que a gente pensa. A gente veio trazer proposta, falar da política, e dizer que estamos abertos para construir uma solução junto com a igreja, que é muito importante”, afirma.

Na visão de Leonildo, o próximo passo é pensar em possibilidades de formação a respeito da Política Nacional para a População em Situação de Rua. “Depois em uns panfletinhos de sensibilização, para os fieis entenderem o que é a população de rua, porque está na rua. A gente sabe que o município não tem todas essas vagas de acolhimento; a gente sabe que a política de assistência social gasta, gasta bem, mas é uma política que mantém as pessoas em situação de rua”, avalia.

Na opinião dele, somente políticas que promovam a possibilidade de moradia e geração de renda podem, efetivamente, tirar as pessoas da rua.

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Para Dom Geremias, a conversa precisa ser continuada “no sentido de ter um projeto um pouco mais consistente com relação à questão dos moradores de rua de Londrina”.

Durante a reunião, foram apresentados projetos já desenvolvidos pela Catedral junto a populações vulnerabilizadas que, na visão de Dom Geremias, “sendo apoiados, podem se desenvolver bastante”. O Arcebispo defendeu a visão do pároco da Catedral como “realista”.

“Nossa posição enquanto Arquidiocese é que vamos continuar trabalhando. A fala do padre Joel tocou um pouco no problema, é realista, não é nenhuma invenção o que ele disse. O problema está aí, está presente, e a gente, de maneira madura, precisa conversar sobre isso para buscar soluções. É uma reflexão que está sendo provocada”.

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Experiência

André Barbosa, representante do MNPR em Londrina, conta que a reunião serviu para uma análise de como as políticas públicas não estão adequadas ao contingente de pessoas em situação de rua na cidade.

“Eu falo por Londrina, mas isso é um problema mundial. A questão é a gente buscar alternativas que possam fazer a diferença; buscar recursos e ações nos lugares que não existem. Nosso foco aqui hoje foi um dos pontos da região central, onde as políticas públicas não estão conseguindo fazer o serviço adequado. Então viemos hoje, cientificamente falando, buscar essas alternativas. As políticas funcionam, porém não como deveriam. Aí a gente entra com experiência de vida, experiência técnica”, defende.

André destaca que a última pesquisa, de 2019, mostrou quase mil pessoas em situação de rua em Londrina, mas que a pandemia agravou muito este cenário e hoje o Movimento estima entre 1,5 mil e 2 mil pessoas. “A gente vê hoje candidatos fazendo promessas que tem mudar as ações que não estão funcionando. Com a população de rua também é só isso, não é extinguir, mas mudar o que não está funcionando, aplicar o recurso da maneira correta, ouvindo as pessoas que entendem do assunto”, finaliza.

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