Por Pai Laércio Adriano*

Foto em destaque: Isaac Fontana

A senzala foi fortificada novamente devido às políticas públicas de Londrina. Com a esfarrapada desculpa do controle ambiental, pauta esta que há anos está jogada às traças.

Diga-se de passagem que nossos fundos de vales e outros locais estão sendo velipendiados constantemente pela ocupação imobiliária de grandes condomínios, que não apresentam um planejamento condizente em paridade com a gestão ambiental. Não é algo novo em Londrina, basta dizer a forma a qual esgotos foram lançados dentro do lago igapó e afluentes em benefício as moradias dos “barões do café”.

Voltando ao tema, é nítido que mesmo com todo o esforço de reavivar o carnaval de Londrina, o controle ficou estabelecido. Limitaram os espaços, empurraram os blocos e outros eventos a espaços onde “não incomodaria as pessoas do bem”, como citado por uma veradora de Londrina, conservadora e de direita.

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Enquanto outras cidades do Brasil e do Paraná ganham visibilidade, fazem marketing positivando a inclusão, a cultura e transformando o carnaval em fonte de geração de divisas ao comércio, trazendo arrecadação de tributos, Londrina marcha na contramão.

Críticas em relação às verbas destinadas insuflaram vereadores, mas estes mesmos em nenhum momento têm declarado oposição aos intermináveis adendos de obras que nunca acabam em Londrina e que criticam o estado da saúde, mas jamais foram passar uma noite em uma UBS ou no CAPS para ver a dura realidade estrutural e as dificuldades de pacientes e funcionários.

É facil contemplar índices através de dados nem sempre confiáveis alimentados por sistemas de gestão que não conversam entre si. Viver a realidade é outra.

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Quiçá um dia, na vivência da periferia, das dificuldades de 360 dias, estes vereadores e a gestão pública de Londrina possam entender que o carnaval e outras atividades culturais como o hip-hop são a única forma de divertimento coletivo que ainda há para muitos. Em uma cidade em que há quase 40.000 pessoas vivendo à margem da existência, ir a um show privado ou poder ir em outros eventos é utópico, pois entre pagar por um divertimento e poder comprar leite para o filho, óbvio que a opção será a família.

A estrutura apenas quer que estas pessoas existam de forma desesperada, se sujeitando a acordos de trabalho mal remunerados, com acordos trabalhistas sem direito a recolhimento de garantias futuras de aposentadoria, e nada “melhor” do que aniquilar o pensamento crítico através da aniquilação cultural. E então o conceito senzala permanece, o conceito escravidão permanece igual a 150 anos atrás.

Felizmente há “Zumbis e Dandaras” firmes e fortes, que podem ter sido até amordaçados agora, mas irão continuar vivos e resistentes, que tenho a plena convicção que o grito de liberdade e pertencimento será levado às ruas, sem afronta, sem ódio, sem ataque, mas dizendo “ei, não somos invisíveis, existimos, produzimos, somos seres humanos e somos a maioria neste pais”.

Quiçá povo do axé, católicos, evangélicos, pretos, brancos, todos os gêneros possam sair sambando e cantando a vida pelas ruas de Londrina um dia, olhando e andando um ao lado do outro com a consciência de que não existe o lado de fora e todos estamos juntos.

Mas ainda neste momento tenho que ficar à base de Lennon, me inspirando em King, em Marielles e Dandaras, que quiçá um dia este pensamento deixe de ser apenas “imaginação”…

Axé a todos.

*Pai Laércio Adriano. Sacerdote da Casa de Umbanda da Terra e Vida Sagrada-Londrina-PR. Discente em História da UEL, historiador autodidata. Pensador sobre a sociedade. Designer gráfico.
Membro do Fórum Parananense das Religiões de Matriz Africana. Coordenador da Frente Antirracista de Londrina.