Diagnosticadas já adultas, mulheres avaliam impacto da descoberta no entendimento das suas vivências
Isabely Ramos, especial para a Rede Lume
Foto em destaque: Arquivo pessoal de Letícia Kanashiro
Hoje, dia 18 de junho, é comemorado o Dia do Orgulho Autista. A data foi criada em 2005 pela organização Aspies For Freedom (AFF), uma entidade liderada por pessoas autistas. A AFF foi fundada em 2004 e tem como objetivo promover os direitos da pessoa autista, combater a discriminação e a estigmatização, além de celebrar a individualidade.
“Há algum tempo, ser autista era considerado um atestado de inadequação, como se estivéssemos condenados à ineptidão pelo resto da vida. Não havia tratamento nem muitas informações disponíveis. Então, o Dia do Orgulho Autista é uma forma de não sentirmos vergonha de quem somos. É muito importante nos vermos como seres completos, não doentes, apenas diferentes, e isso é perfeitamente aceitável”, afirma a estudante de design gráfico e pessoa dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), Letícia Tiê Kanashiro, de 23 anos.
Letícia foi diagnosticada em 2021, após passar por um longo processo de investigação. Suas dificuldades começaram no ensino médio, onde enfrentou problemas no ambiente escolar que, somados a um quadro depressivo, afetaram seu desempenho acadêmico. Inicialmente, foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), tratamento mantido por cinco anos em sua cidade natal, Cuiabá, no Estado do Mato Grosso. No final de 2020, ao mudar-se para Londrina para cursar Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e mudar de psiquiatra, surgiu a possibilidade de um diagnóstico autista.

Inicialmente ela questionou a profissional, alegando ter tido amigos na infância e não poder ser autista. Foi então que a profissional explicou que o autismo não se refere à falta de socialização, mas sim à socialização inadequada. Após uma série de exames, foi diagnosticada com autismo de nível de suporte 1 e altas habilidades, manifestando-se especialmente na hiper verbalidade e hiperlexia.
Ela destacou os equívocos comuns sobre o espectro autista: “Podemos perceber esses equívocos no meu próprio diagnóstico, quando argumentei que não poderia ser autista por ter tido amigos na infância. Na sociedade em geral, as pessoas têm vários equívocos, como a ideia de que uma pessoa autista não pode ter relacionamentos ou amigos. O autismo é algo completamente diferente; está relacionado a déficits na comunicação e na socialização, mas isso não significa que a pessoa seja necessariamente inepta socialmente. Ela apenas se socializa de maneira inadequada, como no meu caso, falando muito, interrompendo sem perceber, perdendo a paciência com assuntos que não interessam, entre outros”, explica Letícia.
Outro equívoco menos explícito, de acordo com ela, é a ideia de que o autismo tem classe, gênero ou é causado por fatores externos como a vacinação.
“Trata-se de algo genético, embora tenha sido mais diagnosticado em homens no passado devido a critérios diagnósticos inadequados. Antigamente, se uma pessoa não socializava, era considerada autista; no caso de meninas, muitas vezes era considerado aceitável, seja por falar demais ou de menos, ou por serem vistas como mais irritadas… Um grande equívoco é também a ideia de que autistas são como ‘anjos azuis’, pessoas inocentes de coração puro que não mentem, o que não é verdade. Somos seres humanos e existem autistas de todos os tipos, incluindo aqueles com caráter questionável. Relacionar o autismo à falta de sexualidade é outro equívoco grave. Não existe esse estereótipo de ‘anjo azul’.”
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Diagnóstico tardio
Para Meire Moreno, professora de sociologia, o diagnóstico de nível de suporte um há cerca de três anos foi um divisor de águas em sua vida. Segundo ela, o diagnóstico permitiu compreender situações antes consideradas específicas dela, como as burocracias e a rigidez comportamental enfrentadas na escola, especialmente com relação à documentação de políticas públicas. O diagnóstico também ajudou a entender suas questões de comunicação.
“A forma como me comunico verbalmente é objetiva e literal, tanto na expressão quanto na interpretação, o que gerou alguns mal-entendidos, intensificados por processos de perseguição que vieram à tona com meu diagnóstico. Sou uma pessoa no espectro autista com altas habilidades, e esse diagnóstico também trouxe à tona crises de explosão e apagamento na escola devido à tensão”, conta.
Com um histórico de militância feminista, a professora destaca que “As expressões faciais e corporais sempre foram um desafio em qualquer interação social, inclusive na política e na vida pessoal”.

“Além das características específicas do espectro autista, enfrentei também o machismo. Muitas vezes, fui interpretada como ríspida e fria, o que me rotulou como a ‘mulher brava’. Não atribuo apenas às características autistas, mas também às expectativas sociais sobre como homens e mulheres devem se comunicar.”
Meire compartilhou uma história curiosa sobre ter sido alertada por professores da sala de recursos antes do diagnóstico, sugerindo a possibilidade de neuro atipicidade de altas habilidades. Apesar disso, nunca havia considerado passar por um processo de diagnóstico até enfrentar perseguições no ambiente de trabalho, quando foi vítima de processos cíveis e criminais, além de inúmeros processos administrativos de cunho ideológico, intensificados após sua candidatura a vereadora em 2020.
Nesse momento doloroso, descobriu que não sofria de depressão, como pensava, mas de uma comorbidade relacionada a uma possível condição neuro atípica, sendo encaminhada para uma neuropsicóloga que fez as avaliações e confirmou seu diagnóstico no espectro autista e altas habilidades.
Letícia também destacou a importância do diagnóstico e a mudança nos critérios diagnósticos com a nova versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado em março de 2022 pela Associação Americana de Psiquiatria.
“Muitas coisas começaram a fazer sentido após o meu diagnóstico, como comportamentos que eu gostaria de mudar, mas agora entendo que estão relacionados ao autismo. Por exemplo, falar demais é uma característica minha, e embora eu possa buscar tratamento para melhorar, não sinto vergonha de ser quem sou. Orgulho-me de ser diferente; o autismo não é uma doença, é apenas uma diferença na maneira como nosso cérebro se desenvolve ao longo da vida.”
Lugar de fala
Em nossa conversa, Letícia também trouxe uma análise histórica sobre o espaço da pessoa autista.
“Antigamente, havia um foco maior em ouvir as pessoas ao redor do autista: amigos, colegas, familiares e cuidadores, mas ninguém queria ouvir o próprio autista.” Ela também questionou o papel dos cuidadores de pessoas autistas.
“Também devemos falar sobre cuidadores que veem o cuidado de uma pessoa autista como algo digno de beatificação. Nem todos são assim, mas muitos têm preconceitos, como mães autistas que acreditam entender mais sobre autismo do que nós, autistas, que podemos falar e explicar nossas experiências. Não é que os cuidadores não devam ser ouvidos, mas não devem ser a única fonte de informação sobre nós”, pontua.
“Muitas vezes, suas palavras são para nos tornar menos inconvenientes, menos autônomos, o que reflete políticas públicas que nos segregam e terapias que nos ensinam a mascarar nossas características autistas, a fingir ser ‘normais’, forçar o contato visual e o toque, embora nem todos os autistas sejam assim. Eles desejam nosso bem-estar, mas precisam entender que nossa voz deve ser priorizada”, diz Letícia, pontuando que ela mesma não pode falar por pessoas em outros níveis do espectro.
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Papel do não autista
Letícia também fala do papel do não autista em espaços com pessoas no espectro.
“É crucial não atrapalhar. É importante compreender que precisamos ser compreendidos. Se é difícil para você conviver com uma pessoa autista, imagine como é para o autista conviver consigo mesmo, tendo que abrir mão de várias coisas que seriam muito boas para o nosso conforto, mas que incomodam outras pessoas. Converse conosco para saber do que precisamos, nos pergunte. As necessidades de uma pessoa autista não são iguais para todos no espectro.”
Orgulho e vivência
A estudante compartilhou um momento de orgulho pessoal relacionado ao autismo, quando recebeu seu diagnóstico, cerca de dois anos atrás.
“Recentemente, fiz uma tatuagem com um amigo meu que também é autista (foto principal); ele está no suporte 2 e está se formando em psicologia agora. Fizemos juntos uma tatuagem relacionada à nossa neuro divergência. Nos unimos muito por sermos autistas, apesar de sermos muito diferentes. Nos conhecemos no ensino médio e ele me ajudou bastante a descobrir quem eu sou. No início do meu diagnóstico, ele foi uma ajuda fundamental”, relembra.
Meire comenta sobre como o hiperfoco, uma das suas características como autista, impacta tem relação com sua entrada na política partidária.
“Tenho hiperfoco em temas de justiça e desigualdade social. Há também uma característica de hiper empatia muito presente, especialmente entre as mulheres autistas, que influencia muito minha abordagem. É minha condição no espectro que me leva a necessitar que minha prática seja iluminada e conduzida por um aspecto teórico. Se não fosse pelo autismo, acho que não estaria tão envolvida na política”, considera.
Conselhos
A estudante Letícia Tiê Kanashiro fala sobre a importância de procurar ajuda psicológica e psiquiátrica, mencionando serviços pagos e gratuitos.
“Se você não tem dinheiro, busque o SUS. Todos enfrentam dificuldades, mas eventualmente você encontrará um profissional que você goste. Há clínicas gratuitas em universidades e faculdades, psicólogos e psiquiatras com preços sociais. É muito importante também encontrar seu grupo, ter contato com pessoas semelhantes a você”, aconselha.
Ela relata ter acessado um coletivo de pessoas autistas que estão se auto organizando, trocando recursos e experiências.
“Consumir conteúdo criado por autistas é muito importante, não apenas para consumir, mas para ver o que serve para você e levar isso adiante. É bom ver como outras pessoas lidam com os mesmos problemas que você enfrenta. O índice de suicídios entre pessoas autistas é elevado devido ao burnout, então é crucial prestar atenção, aprender a se cuidar, perceber o cansaço e parar quando necessário, buscando apoio em sua rede.”
Letícia também destaca a importância de buscar informações em fontes confiáveis.
“O Google é seu amigo, saiba como procurar. Verifique as fontes e onde está procurando. Não tenha vergonha de pedir ajuda ou recursos. É desafiador, mas necessário.”
Políticas Públicas
Meire Moreno, ativa na política, analisa as políticas públicas necessárias para melhorar a vida das pessoas no espectro autista.
“É crucial implementar políticas públicas que garantam o diagnóstico precoce desde a infância. Esse diagnóstico inicial é fundamental para proporcionar intervenções adequadas o mais cedo possível. Além disso, é indispensável oferecer suporte psicopedagógico e todo tipo de apoio necessário para que as pessoas no espectro autista possam ter um melhor funcionamento diante de sua condição. Isso inclui acompanhamento especializado, terapias apropriadas e suporte educacional personalizado”, avalia.
Ela enfatiza a necessidade de combater o capacitismo através de políticas públicas robustas.
“Precisamos de um sistema de cotas para garantir a empregabilidade e incentivar as empresas a promover a inclusão e autonomia das pessoas no espectro autista. Uma sociedade livre de capacitismo, onde a diversidade é valorizada, pode se beneficiar enormemente das diferentes formas de expressão e contribuição das pessoas autistas, revelando um potencial muito mais positivo do que imaginamos.”
Espaços para Pessoas Autistas
O coletivo virtual Soberana oferece atendimento psicológico gratuito através do Sameca, acessível via Instagram. Interessados podem preencher um formulário e serão contatados posteriormente, podendo contribuir com um valor social, se possível. Para estudantes universitários, recomenda-se procurar o núcleo de acessibilidade de suas instituições de ensino, que oferecem suporte específico.
“É garantido por lei que toda pessoa autista tenha acesso a apoio pedagógico, embora a obtenção desses recursos possa ser desafiadora devido à baixa remuneração dos profissionais envolvidos. A recomendação é persistir na busca por esses serviços.”
Outro coletivo, o TEALON, recentemente estabelecido e em fase de estruturação, é composto principalmente por pessoas autistas de Londrina e mães de autistas. A iniciativa visa ampliar a voz autista e promover uma representação mais fiel de suas necessidades. O TEALON busca colaboradores em diversas áreas e convida interessados a acompanhar suas atividades.
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