No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, advogada do Piauí relembra legado da mulher negra, escravizada, reconhecida como a primeira advogada do Brasil

Cecília França

Imagem em destaque: Esperança Garcia na capa de dossiê produzido pela OAB/PI/Reprodução

O ano era 1770 e Esperança Garcia, mulher negra, mãe, escravizada, com apenas 19 anos, escrevia uma carta ao governador da capitania do Piauí denunciando os sofrimentos que ela e outras mulheres enfrentavam na fazenda onde viviam naquele momento e solicitava retorno à sua antiga morada. A descoberta da carta escrita por Esperança deu-se em 1979 pelo historiador Luiz Mott e, em 2017, o documento foi reconhecido como a primeira petição de que se tem notícia no Brasil.

A partir desse reconhecimento, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) conferiu a Esperança o título de primeira advogada do país.

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, as Comissões de Igualdade Racial e Minorias e das Mulheres Advogadas da OAB-Subseção Londrina trazem para a cidade a advogada piauiense Suena Mourão para celebrar o legado de Esperança na palestra “Esperança Garcia – sua voz ecoa entre nós – A primeira advogada do Brasil“. Suena é pós-graduada em Direito Administrativo e Direito Antidiscriminatório e conselheira seccional da OAB/PI.

A palestra é gratuita, mas necessita inscrição prévia. A organização pede aos participantes a doação de itens de higiene pessoal que serão entregues a mulheres privadas de liberdade.

Trechos da carta de Esperança Garcia

(grafia original) Eu Sou hua escrava de V.S administração do Cap.am Antoº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Cap.am pª Lá foi administrar, q. me tirou da Fazdª dos algodois, onde vevia co meu marido, para ser cozinheira da sua caza, onde nella passo mto mal.
A primeira hé q. há grandes trovoadas de pancadas enhum Filho meu sendo huã criança q lhe fez estrair sangue pella boca, em min não poço esplicar q Sou hu colcham de pancadas, tanto q cahy huã vez do Sobrado abacho peiada; por mezericordia de Ds esCapei.

(tradução livre para o português atual: Eu sou uma escrava de Vossa Senhoria da administração do Capitão Antônio Vieira do Couto, casada. Desde que o capitão lá foi administrar que me tirou da fazenda algodões, onde vivia com o meu marido, para ser cozinheira da sua casa, ainda nela passo muito mal.
A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo peiada; por misericórdia de Deus escapei.

Relevância

A presidenta da Comissão de Igualdade Racial e Minorias da OAB Londrina, Beatriz Moura, diz que a ideia de promover a palestra surgiu da necessidade de manter aflorada a história de Esperança.

“Ela foi uma mulher negra, escravizada, mãe, e teve um ato de resistência em toda – talvez – a sua existência. Ela direcionava cartas e endereçava para o governador do Estado relatando sobre como ela vivia, como era desumano, a situação de violência que ela sofria, não só ela, mas as demais mulheres. Então, a Esperança Garcia foi um ato de resistência, foi uma voz, uma advogada perante aqueles anos tão sombrios”, detalha.

Para Beatriz, também está implícita na carta de Esperança a luta por igualdade de gênero e questões raciais. “Então, Esperança Garcia é uma figura que devemos sempre enaltecer, sempre valorizar, por conta de toda a sua história de resistência, de força, em prol dela e das demais mulheres”.

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Serviço

Palestra “Esperança Garcia – sua voz ecoa entre nós – A primeira advogada do Brasil”

Local: sede da Subseção da OAB Londrina – Rua Governador Parigot de Souza, 311

Horário: 18h30

Link para inscrição: https://www.sympla.com.br/evento/esperanca-garcia-sua-voz-ecoa-entre-nos-a-primeira-advogada-do-brasil/2485747

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