Maria Benedita Meneses, conhecida como Ya Katule, morreu na manhã da última segunda-feira, 10 de julho, aos 96 anos
Texto e Fotos: Camila Rosa, especial para a Rede Lume
Um dos nomes mais antigos da comunidade candomblecista de Londrina, Maria Benedita Meneses, conhecida como Ya Katule, morreu na manhã da última segunda-feira, 10 de julho, aos 96 anos. Ela se destacava por sua benevolência e sabedoria, sendo reconhecida por comunidades religiosas de todo o Paraná.
Por mais de cinco décadas, Ya Katule dedicou sua vida ao Candomblé, religião pela qual atendeu a população de Londrina e região em diversas necessidades espirituais, sendo conhecedora de raízes e folhas para todos os efeitos e resultados de cura.
Em março deste ano, tive o prazer de poder conversar com Ya Katule em sua casa. Muito receptiva, colocou trajes típicos e com dificuldades em relembrar alguns acontecimentos, relatou:
“Quando vim para Londrina, eu era muito beata, frequentava as igrejas cristãs na cidade. E por conta da minha filha, que na época tinha 10 anos, eu fui procurar ajuda, pois me disseram que o problema dela era espiritual. Ela caía com frequência e tinha muitos desmaios”, relembrou a candomblecista.
“Minha filha não conseguia sair, em lugares carregados ela caía e demorava muito para voltar à realidade”, destacou. Na época, meados dos anos 1950, uma cunhada dela, que era espírita, sugeriu que Maria Benedita levasse a filha Maria do Rosário para São Paulo.
Foi então que ela decidiu iniciar sua participação na Umbanda, ao lado de outras quatro pessoas, sendo Pai João o responsável por cuidar de Maria do Rosário.
Enquanto cuidada da saúde da filha, Ya Katule procurou espaços onde pudesse cuidar de sua espiritualidade. Foi quando teve a resposta de uma entidade de que haveria uma pessoa que a ajudaria. Ela foi até Rolândia, onde encontrou sua mãe de Santo, que a ensinou sobre a religião da qual faria parte até o fim da vida.


Ya Katule fundou primeiro Candomblé de Londrina na Rua Mar Vermelho
Com muita dificuldade de recordar datas, em nossa conversa, Ya Katule contou que o primeiro Candomblé de Londrina foi na Rua Mar Vermelho. Foi então que ela fez Santo com sua mãe de Santo, Neide Ribeiro.
Na época, ela foi a primeira pessoa a raspar o cabelo na cidade, símbolo muito importante para os praticantes e iniciados do Candomblé.
“Eu queria entender como funcionava a religião e como poderia ajudar minha filha. Nesse meio tempo, eu conheci muitas pessoas. E foi assim que abri um horizonte sobre meu orixá, com muita sabedoria”, descreveu.
Ya Katule começou seus atendimentos com jogos de búzios, conselhos, ajudas espirituais, conversas e muita colaboração entre os irmãos de santo. Em meio a tantos preconceitos, a mais antiga Mãe de Santo, participava de vários grupos em Londrina, lutando contra o preconceito da época, contra homofobia e racismo.
O orgulho em fazer parte dessa comunidade reforçou sua cultura e a força em ser mãe de sete filhos, “macumbeira” e responsável por cuidar do seu orixá Obaluaê, que tem como características os cuidados de cura.
“Somos discriminados, não somos seita, somos uma religião tradicional de milhares de anos. Sou da Nação Ketu com raiz Oxumarê. Não vejo diferença entre outas religiões, nunca discriminei ninguém e sempre estive aberta para atender todos os tipos de pessoas”, disse.
“Fui acolhedora e sofri preconceitos por isso, mas a gente luta contra a discriminação. Atendi bandido, gay, homofóbicos, todos os tipos de pessoas, sempre com respeito à minha religião”, completou a mãe de santo, que deixa cinco filhos, mais de 20 netos e outros bisnetos e tetranetos.
O presidente municipal do conselho da igualdade racial de Londrina, Welisson Vieira De Aguiar Ogan, lamentou a morte da religiosa. “É um nome importante para a comunidade negra e, em especial, para as religiões de matrizes africanas. Era uma das mais velhas iniciadas de Candomblé de Londrina, extremamente respeitada e conhecida principalmente pela comunidade religiosa”, disse.
O corpo de Ya Katule foi na última terça-feira (11), no Cemitério São Paulo, no Centro de Londrina.
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