Prefeitura deve ter abrigo para moradores de rua com covid-19 na próxima semana

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Após nove meses de pandemia, surto em casa de acolhimento acende alerta sobre a situação dessa população

Cecília França
Fábio Galão

A Secretaria de Assistência Social de Londrina vai escolher hoje uma casa para abrigar pessoas em situação de rua que positivarem para covid-19. Há cerca de dez dias houve um surto em uma casa de acolhimento, quando 14 pessoas testaram positivo para a doença, sendo quatro funcionários. Os servidores foram afastados e o local isolado. Quem estava lá não poderia sair por dez dias, no entanto, houve evasões e a situação se agravou. Agora, a prefeitura se mobiliza na escolha de um imóvel que deve comportar 12 pessoas.

Ontem (14), a secretária da pasta, Jacqueline Micali, o secretário de saúde, Felippe Machado e o coordenador do Movimento Nacional da População de Rua em Londrina, Leonardo Aparecido Gomes, tiveram reunião no Ministério Público para discutir a situação. Naquela manhã dois dos que testaram positivo para covid-19 haviam procurado o Centro Pop, quando foram impedidos de acessar o banho e o lanche, por questões de segurança. Houve tumulto.

Na reunião, segundo Gomes, foi apresentada a casa exclusiva para pessoas positivadas como uma solução emergencial. Felippe Machado, secretário municipal de Saúde, diz que o processo está sendo coordenado pela Assistência Social.

“A Saúde trata o paciente, seja ele morador de rua ou milionário, testou positivo, isolamento de dez dias e dos contactantes, assim por diante. Nós não fazemos esse recorte. É evidente que, dentro das políticas públicas, há essas questões de vulnerabilidade que precisam ser analisadas em cada vertente, mas para a Saúde isso não muda. Nós vamos apoiar todas as outras secretarias quando se tratar disso, como foi com o Idoso, na Assistência Social, se por ventura acontecer numa escola, na Secretaria de Educação”, diz o secretário.

Josiani Nogueira, diretora de Proteção Social Especial da Secretaria de Assistência Social, explica que o local para receber moradores de rua com quadro de covid-19 confirmado deve estar pronto na próxima semana. “De onde eles se evadiram, não vão poder retornar, porque o risco de contaminação de outras pessoas é muito alto. Vai ser feito um espaço numa casa, provavelmente na semana que vem vai estar funcionando, para que eles sejam encaminhados para esse local. A Assistência Social vai fornecer a casa, a Saúde vai deslocar técnicos de enfermagem e a GM vai colocar um guarda para cuidar”, explica.

Duas casas do município cedidas à Assistência Social estão sendo cogitadas e a que precisar de menos reformas será escolhida, para evitar mais demora. Nesta terça-feira (15), o gerente de manutenção da pasta visitou os dois imóveis e na quarta (16) ele fornecerá uma avaliação para que seja decidido qual a melhor para ser ocupada. O local escolhido deve ter capacidade para 12 pessoas.

“Serão levados para lá apenas moradores de rua com covid-19 confirmada, por questão de segurança. O protocolo da Saúde para quem não tem covid confirmada é o mesmo: moradores de rua que fazem exames aguardam onde eles estiverem, se estiverem num acolhimento aguardam no acolhimento, se estiverem na UPA aguardam na UPA, até sair a confirmação se têm ou não. Se tiverem, é difícil: para nós, que temos uma consciência de que a gente tem acesso a todos os nossos direitos, já é difícil ficar num quarto 14 dias. Os moradores de rua não vão ficar, não tem como amarrar a pessoa, tem que criar um espaço para que consigam ficar o máximo possível”, justifica Josiani.

“O que a gente se preocupa é que quem é covid positivo não vá para a rua, porque vai passar para os outros. Mas se tem local para todo mundo, se tiver que fazer exame, sim, tem local, sim, a dificuldade é que aqueles que deram positivo, que foram testados, não eram os que estavam na rua, eram os que estavam em acolhimento, porque o acolhimento cuida, percebe qualquer sintoma. Porque na rua eles (moradores de rua) têm uma alta condição de suportar dor, mal estar, e às vezes têm (a doença) e ninguém sabe que têm, porque não procuram o sistema de saúde”, finaliza.

Homem infectado conta seu drama

Um homem de 31 anos, que chegou de São Paulo com a esposa há pouco mais de um mês, estava na casa de acolhimento em que ocorreu o surto de covid-19. Ele testou positivo para a doença no dia 4 de dezembro. Seis dias depois, não suportou ficar isolado no local. “Chegou uma hora que não aguentei mais, falei ‘Quero sair, quero ver minha mulher'”. A esposa permanece em um acolhimento feminino. Ele chegou a ir até a casa para vê-la, mas não permitiram que ele se aproximasse pelo risco de contaminação. Como já se passaram dez dias do teste positivo, em tese, ele não estaria mais transmitindo a doença. “Desde ontem (14) estou indo no Centro Pop pra tomar um banho, pegar um café, chamaram até os guardas pra mim ontem lá. Eu já tinha bebido um pouco, acabei indo pra cima dos ‘guarda'”, lamenta ele. Hoje outros moradores de rua dividiram o lanche com ele. Quando conversou com a reportagem da Lume era quase três da tarde e ele aguardava para buscar uma marmita em um restaurante do centro da cidade, para almoçar. “O abrigo é bom, só não consegui ficar porque não podia sair pra nada. Eu quero ter uma oportunidade de voltar para um abrigo”, declara. (C.F.)

Um comentário

  1. Excelente matéria. Parabenizo a Lume por dar voz às pessoas que estão em situação de rua. Evidentemente a Assistência já sabia desde o início da pandemia que seria necessário um lugar para abrigar quem contraísse o vírus. Por que somente agora que “a bomba estourou” ainda vão correr atrás da tal casa?

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